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Diretor da espionagem militar russa faleceu há dias. De morte natural, pelo que (não) se sabe até agora

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Igor Sergun era um dos responsáveis pela estratégia russa no leste da Ucrânia e noutras paragens

Luís M. Faria

Jornalista

MIKHAIL KLIMENTYEV / AFP / Getty Images

Na Rússia de hoje, qualquer morte súbita de uma pessoa com poder é imediatamente objecto de suspeitas. Isso vale a triplicar quando a pessoa é o chefe de um dos principais organismos de espionagem do país. Mas talvez o falecimento de Igor Sergun, anunciado no princípio desta semana, seja o único acontecimento verdadeiramente inocente da sua carreira. Afinal, não é assim tão raro um homem na meia-idade morrer de repente, por exemplo com um ataque cardíaco. Mau grado as teorias da conspiração que imediatamente surgiram na internet, é plausível ter sido mesmo isso que agora aconteceu a Sergun.

A notícia oficial diz que o Presidente Vladimir Putin enviou um telegrama de condolência à viúva e às duas filhas do falecido. Pouco mais se diz sobre ele, e nada se esclarece sobre as circunstâncias do falecimento. Sergun era o chefe do GRU, ou Direção-Geral de Informações, o serviço de espionagem militar na Rússia. Criado por Lénine sob o patrocínio de Trotsky em 1918, o GRU teve desde o início autonomia em relação aos serviços rivais. Quando a URSS acabou e o KGB foi dissolvido, pensava-se que a hegemonia dos espiões tinha acabado. Mas a ascensão de Vladimir Putin destruiu essa ilusão. Nomeado chefe do FSB (sucessor do KGB) por Boris Yeltsin, Putin suceder-lhe-ia como presidente em 2000 e começou logo a colocar antigos camaradas do KGB nas estruturas de poder.

Embora o GRU tivesse escapado à dissolução, o seu estatuto parecia ir diminuindo. Outra ilusão. A guerra da Geórgia em 2008 provou que ainda lhe restavam tarefas a desempenhar, e o conflito que eclodiu na Ucrânia o ano passado confirmou de vez a sua importância. A operação extremamente subtil e eficaz de anexação da Crimeia, e o tipo de guerra subrreptícia que a Rússia passou a conduzir no leste da Ucrânia, com os "pequenos homens verdes" - muitos deles pertencentes à GRU, segundo consta - a dar suporte e a armar grupos locais anti Governo, mostraram o valor de um serviço de inteligência militar flexível e versátil.

Um lugar central na nova estratégia russa

Outro general russo, Valery Berasimov, já tinha explicado numa revista militar os elementos de um tipo de guerra que ia estar em causa cada vez mais no futuro, referindo "o extenso uso de medidas políticas, económicas, informacionais, humanitárias, e outras não militares, apoiados por meios militares de natureza encoberta". Evidentemente, continua a haver lugar para os esquadrões especiais e para missões de tipo 'sujo' (envolvendo sangue), bem como para sabotagens a muitos níveis. Mas não é só isso, nem será isso o principal.

Na Crimeia, e na Ucrânia, a GRU não se limitou a recolher informações nem a operações sinistras, de tipo assassínio. Foi o verdadeiro núcleo da estratégia, invertendo a onda de má sorte que em anos recentes o tinha feito perder guerras burocráticas no Governo russo - e, com elas, mais de mil funcionários, três das suas oito brigadas Spetsnaz de comandos, e umas quantas 'residências´ dentro de embaixadas russas. Com a estratégia atual, os maus tempos devem ter acabado para o GRU.

"Grande patriota", "homem maravilhoso"

Atendendo aos sucessos recentes, é de crer que haja alguma sinceridade nos elogios que Putin fez agora a Sergun, chamando-lhe "um verdadeiro oficial, um comandante experimentado e competente, um homem de grande coragem, um verdadeiro patriota (...) respeitado pelo seu profissionalismo, natureza firme, honra e integridade". Elogios ecoados pelo ministro da Defesa, que falou da "memória luminosa de um homem maravilhoso, um verdadeiro filho de patriotas, que ficará para sempre nos nossos corações".

Elogios pró-forma? Talvez. Mas não há dúvida de que Sergun excedeu as expectativas relativamente baixas que algumas pessoas terão exprimido quando nomeado em 2011. Na altura, era o adido militar da Rússia e Tirana, na Albânia. Nem a patente de coronel nem a sua carreira anterior, ou o pouco o que se sabe dela, o recomendavam especialmente. Mas com ele à cabeça o GRU recuperou um lugar central na estratégia de projeção de poder da Rússia na zona à sua volta, e não só - também em lugares como a Síria, onde a Rússia intervém militarmente em apoio ao Presidente Assad.

O Ocidente reconheceu a sua importância ao incluir Sergun na lista de altos funcionários russos que ficam sujeitos a sanções de vários tipos, nomeadamente proibição de vistos e congelamento de bens. No 'Aquário' - como é alcunhada a sede da GRU em Khodinka, no antigo aeroporto central de Moscovo - essas medidas devem ter sido vistas como um testemunho de sucesso e uma marca de honra, por muito inconveniente pessoal que possam causar a este ou aquele funcionário.