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Um ano depois do atentado, “Charlie Hebdo” mais blasfematório do que nunca

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BENOIT TESSIER/REUTERS

Blasfematório e irreverente, militante antirreligioso – é assim este “número especial - um ano depois” do atentado ao semanário satírico francês

É um “número especial”, o que não é exatamente a mesma coisa que uma edição especial. Um ano depois do atentado de Paris, a 7 de janeiro, que matou 12 pessoas no interior e no exterior da sede parisiense do “Charlie Hebdo”, este semanário satírico assinala a data com um dos seus “números” mais antirreligiosos de sempre.

Trata-se de uma edição com uma tiragem de um milhão de exemplares, que rapidamente se tornou um acontecimento com mais relevo do que as comemorações oficiais do ataque terrorista, presididas pelo Presidente François Hollande, que decorrem durante toda esta semana em Paris.

Não é apenas a capa sem concessões, na qual Riss desenhou um deus assassino de metralhadora às costas, com as mãos manchadas de sangue e em fuga, que já foi criticada pelo Vaticano e por líderes das outras duas principais religiões do mundo. Nas páginas interiores, os muçulmanos, os judeus e os cristãos são representados cruamente, por vezes com desenhos sexuais ou escatológicos, como sendo os símbolos máximos do obscurantismo.

Um ano depois dos ataques que dizimaram a sua redação, o “Charlie Hebdo” volta a afirmar-se como o mais radical defensor do direito de blasfémia, representando chefes religiosos de todos os géneros como se fossem por exemplo completamente tarados sexuais.

Num dos desenhos, assinado pela cartoonista Coco, vê-se um religioso católico a suicidar-se com um tiro na cabeça, acompanhado por estas duas frases, cuja tradução que aqui deixamos está muito suavizada: “Charlie Hebdo sodomiza todas as religiões – antes morrer que acabar homossexual”.

Num outro desenho, de Juin, mais relacionado com os atentados terroristas, vê-se um jiadista a dar ordens a outro: “Mata primeiro os que não rezam, isso convencerá os outros de que Deus existe”.

São 32 páginas marcadamente antirreligiosas, onde surgem também desenhos inéditos e textos dos caricaturistas e colunistas assassinados a 7 de janeiro – Charb, Cabu, Honoré, Tignous, Wolinski, Bernard Maris.

Inclui igualmente artigos marcados pela cólera, a emoção e o humor sulfuroso contra o horror. Num deles, Fabrice Nicolino, que ficou gravemente ferido no atentado, descreve longamente, através de um testemunho sensível e muito bem escrito, o que se passou na sede do jornal antes, durante e logo a seguir ao cruel ataque terrorista.

Blasfematório e irreverente, militante antirreligioso – é assim este “número especial - um ano depois” de Charlie Hebdo.

Inclui também o habitual humor negro, como não podia deixar de ser. Num desenho de Cabu, que foi uma das vítimas mortais do ataque, aparecem quatro feridos graves, estropiados e ensanguentados em atentados, em consultas no psiquiatra. Num deles, este tenta tranquilizar o doente: “É a beleza interior que conta”. Noutro, diz: “Você sabia bem que nesse dia o seu horóscopo não era bom”.