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Bomba H. Porque é tão temida, quem a tem e outras ameaças

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Kim Jong-un, líder norte-coreano, durante uma parada comemorativa em Pyongyang. O país acaba de anunciar que testou a bomba H, que é incrivelmente superior (até 4000 vezes) à bomba de Hiroshima

© Jason Lee / Reuters

A Coreia do Norte diz ter testado uma bomba de hidrogénio (a bomba H) com maior poder detonante, que reforça o arsenal nuclear já existente e o parque de mísseis balísticos de médio alcance. Tem um poder destrutivo incrivelmente superior ao da bomba de Hiroshima

O acesso da Coreia do Norte à bomba de hidrogénio cria novas ameaças à paz no Sueste Asiático mas não representa um salto tecnológico significativo, já que os Estados Unidos e a ex-União Soviética possuem este tipo de ogivas, respetivamente desde 1952 e 1953. Enquanto as bombas atómicas lançadas em agosto de 1945 pelos EUA sobre Hiroshima e Nagasaki se baseavam em reações de fissão de elementos radioativos (respetivamente urânio e plutónio), a bomba H baseia-se numa reação de fusão de isótopos do hidrogénio, libertando quase mil vezes mais energia, logo com muito maior poder destruidor.

A construção da bomba H nos EUA criou a primeira cisão nos físicos nucleares americanos, com algumas das grandes figuras do Projecto Manhattan (que levou à produção das bombas de Hiroshima e Nagasaki), como Robert Oppenheimer e Leo Szilard a oporem-se ao desenvolvimento do projeto por razões éticas, tendo sido substituídos na liderança do empreendimento pelo cientista da linha dura Edward Teller. Oppenheimer foi inclusivamente perseguido durante a Caça às Bruxas e o Macartismo, acusado de ser simpatizante soviético, só sendo reabilitado poucos anos antes da sua morte pelo Presidente Johnson, em 1964.

A ameaça nuclear norte-coreana existia já antes do acesso à bomba H, uma vez que possui foguetes que se admite terem capacidade para atingir alvos a mais de 1000 quilómetros, o que incluiria Filipinas, Japão, Vietname, Índia, Indonésia, etc. Os norte-coreanos testam mísseis balísticos e ogivas nucleares desde 2006. Contudo a principal ameaça sobre a capital sul-coreana, Seul, reside na curta distância a que está da fronteira: 40 quilómetros, ou seja ao alcance da artilharia convencional. Simbolicamente, nas colinas à volta da capital sul-coreana foram musealizadas linhas de trincheiras e fortins do tempo da Guerra da Coreia (1950-53, que consagrou a divisão da península coreana em dois estados hostis).

Dias depois da bomba lançada a 6 de agosto de 1945 pelos Estados Unidos, era este o cenário devastador em Hiroshima

Dias depois da bomba lançada a 6 de agosto de 1945 pelos Estados Unidos, era este o cenário devastador em Hiroshima

AFP / Getty Images

Novas bombas

Durante a Guerra Fria foram desenvolvidos outros tipos de bomba atómicas além das referidas e que, dadas as suas características, podem sempre voltar à luz do dia pela mão de regimes totalitários ou de grupos terroristas.

A bomba de neutrões foi desenvolvida pelos norte-americanos como arma tática para utilizar em caso de invasão da Europa Ocidental pelas divisões blindadas do Pacto de Varsóvia. Baseia-se, não num grande poder detonante ou térmico mas na emissão de feixes de partículas pesadas ionizadas, sobretudo neutrões, capazes de penetrar as blindagens de tanques e os equipamentos antirradiação individuais.

Desta forma, sem grande destruição de território, obter-se-ia o efeito pretendido: parar os tanques soviéticos por via da liquidação das suas guarnições. Supostamente todos os exemplares foram desativados com o fim da Guerra Fria mas a tecnologia é conhecida.

A bomba de impulso eletromagnético (EMP) é uma variante da anterior, concebida para ser detonada, por exemplo, na alta atmosfera, irradiando uma tempestade de partículas carregadas eletricamente capazes de “fritar” todos os circuitos eletrónicos num raio de centenas de quilómetros.

O objetivo primário é “cegar” radares e empastelar redes de comunicações inimigas, mas num mundo onde, dos automóveis aos equipamentos hospitalares, sem esquecer os telemóveis e computadores, tudo depende dos “chips”, os efeitos económicos e humanos podem ser terríveis e as pequenas potências e os grupos terroristas sabem-no. Também uma tempestade solar de maior violência pode criar este efeito, segundo receiam os cientistas,

Finalmente, o sonho dos terroristas ou dos pequenos países belicistas é a bomba suja. A 7 de dezembro último, o diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), Yukiya Amano, pediu a todos os países que impeçam extremistas de aceder a matérias radioativas com as quais possam fabricar uma bomba de diminuta capacidade detonante (cabe numa mala de viagem) mas emitindo partículas radioativas e feixes ionizantes capazes de matar, ferir, incapacitar e contaminar os habitantes de uma grande metrópole.

O seu fabrico é mais simples que a de uma bomba atómica tradicional, apenas necessitando do acesso a material radioativo, nomeadamente urânio enriquecido.

Nos termos do Tratado de Não Proliferação Nuclear de 1970, cinco potências possuem oficialmente armamento atómico, sujeito a acordos de limitação: EUA, Rússia, Reino Unido, China e França. A África do Sul abandonou o programa nuclear bélico após o fim do Apartheid, tal como a Ucrânia e a Bielorrússia após o fim da União Soviética. O Irão assinou o ano passado um histórico acordo internacional de limitação do seu programa nuclear, enquanto Israel, Paquistão, Índia e Coreia do Norte possuem bombas atómicas e não são subscritores do acordo de não proliferação.

Os conflitos entre Índia e Paquistão, a instabilidade neste país e a promiscuidade entre altas patentes militares e os talibãs, bem como o comportamento errático da liderança norte-coreana são algumas das principais fontes de inquietação.

A tragédia ocorrida em Hiroshima continua a não ser esquecida 70 anos depois do ataque norte-americano

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Junko Kimura / Getty Images