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A cada quatro horas há uma violação na capital da Índia

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O caso de Nirbhaya, a jovem indiana que morreu após ter sido violada e espancada por um grupo de seis homens, foi um dos que chamaram mais a atenção para as violações dos direitos das mulheres na cidade

NOAH SEELAM/AFP/Getty Images

Só no ano passado, em Nova Deli foram registados 2095 casos de violação, 5192 denúncias por abusos sexuais e 1444 casos de assédio. Os números impressionam, mas suspeita-se de que a realidade possa ser ainda mais arrepiante

Podem não constituir uma novidade, mas os números que a polícia de Nova Deli, na Índia, vem agora revelar são um murro no estômago. A cada quatro horas, há uma violação naquela cidade. A cada duas horas, alguém é abusado sexualmente.

Há muito que se conhece o flagelo da violência contra as mulheres naquele país, e também se sabe que nem sempre os atacantes são castigados. Por isso, relembra o diário espanhol “El País”, estes números podem ser ainda maiores, tendo em conta que nem todas as mulheres ganham coragem suficiente para denunciar os abusos que sofrem.

De 1 de janeiro a 15 de dezembro de 2015, na capital indiana registaram-se 2095 casos de violação, um número que estabelece um recorde histórico na cidade. Em 2014, registaram-se menos dez casos. Para mais, no ano passado houve ainda 5192 denúncias por abusos sexuais e 1444 casos de assédio - em 2014 foram respetivamente 4182 e 1282 casos.

Mais: o chefe da polícia de Nova Deli, B.S. Bassi, explica que “qualquer mulher [que se encontre naquela cidade] está rodeada por 250 a 400 homens que não pensariam duas vezes antes de agredir uma mulher”.

“Se a Constituição da Índia permitisse enforcar ou disparar...”

O relatório da polícia de Nova Deli ajuda a traçar um retrato dos atacantes. De acordo com o documento, citado pelo título espanhol, 70% dos agressores têm entre 21 e 35 anos. A esmagadora maioria dos casos dá-se entre pessoas que já se conhecem: 96% dos acusados tinham uma relação familiar, de amizade ou profissional com a vítima.

Em relação a este dado, o chefe da polícia não se mostra surpreendido: “Os agressores não têm respeito pelas próprias mães e irmãs, e olham para as mulheres como se estivessem a ver um filme porno”. Bassi acrescenta que, se pudesse, tomaria medidas extremas nestes casos: “Se a Constituição da Índia permitisse enforcar ou disparar sobre os atacantes, a polícia de Nova Deli, com plena autoridade, fá-lo-ia de imediato”, cita o “El País”.

Mas as medidas devem ser tomadas a longo prazo. De acordo com o chefe da polícia daquela cidade, a solução passa por “mudar as mentalidades para maximizar a segurança das mulheres”, embora também seja recomendável que estas treinem movimentos de defesa pessoal para enfrentar “homens com uma mentalidade doentia”. A ideia é corroborada pelos ativistas pelos direitos das mulheres na Índia, que, no entanto, reconhecem que a mudança de mentalidade já começa a ser notada.

Denúncias aumentaram, medo diminuiu

O aumento dos casos não é traduz mais do a agilização dos mecanismos de denúncia, argumenta Sehjo Signh, diretora de programas e políticas do grupo Action Aid na Índia: “Os casos registados crescem porque as mulheres e as suas famílias já não têm medo de ser estigmatizadas pela sociedade”, defende.

O assunto voltou a ser muito debatido naquele país no final de dezembro, quando um dos seis homens condenados pelo ataque a uma jovem estudante indiana num autocarro em Nova Deli, em 2012, foi libertado, por na altura do ataque ser menor de idade. A jovem, de 23 anos, morreu depois de ter sido brutalmente espancada e violada pelos seis homens.