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“O mais interessante de tudo isto é que a maioria dos donos de armas concorda comigo”

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Barack Obama emitiu um novo despacho executivo com o objectivo de regular a venda de armas na América. Não é a primeira vez que o faz, longe disso, mas desta vez parece que o presidente americano fartou-se de tanta violência. “O congresso [dos EUA] tornou-se refém do lóbi das armas, o mesmo não pode acontecer com o povo americano”

Ricardo Lourenço, correspondente nos EUA

Pela vigésima primeira vez desde que chegou à Casa Branca, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, emitiu um despacho executivo com o objetivo de regular o mercado de venda de armas. A violência generalizada e os massacres constantes que nos últimos dez anos mataram ou feriram mais de um milhão de americanos (mil vezes mais do que ataques terroristas) “têm frustrado Obama”, garante ao Expresso Juliette Kayyem, antiga assistente do líder americano no gabinete de Segurança Interna.

Em conferência de Imprensa, Obama falou de improviso, listando alguns dos episódios sangrentos dos últimos anos. “Aurora, Newtown, San Bernardino… Já chega!”, exasperou. Na plateia, Gabby Giffords, a ex-congressista democrata alvejada em Aurora, aplaudiu de pé.

O presidente americano assegurou ser um defensor da segunda adenda da Constituição, que define o direito de uso e posse de arma, mas tal não o deve impedir de proteger a população do país. “O mais interessante de tudo isto é que a maioria dos donos de armas concorda comigo”.

Verificação de antecedentes criminais será obrigatória

Obama chorou quando recordou as vítimas de anteriores atentados

Obama chorou quando recordou as vítimas de anteriores atentados

CARLOS BARRIA / Reuters

“Não irei confiscar as armas de ninguém. Quero, apenas, que os compradores sejam submetidos a um processo de verificação de antecedentes criminais. Todos, sem excepção”, esclareceu o líder americano.

Mas o congresso dos Estados Unidos, dominado em ambas as câmaras pela oposição republicana, opõe-se a qualquer norma que viole a segunda adenda da Constituição e impeça o acesso às armas.

“O congresso chegou ao cúmulo de bloquear uma norma que impediria indivíduos suspeitos de terrorismo de comprar armas nos EUA”, disse Obama, que garantiu que esse bloqueio político impede uma reforma estrutural que acabe com a violência.

E tudo porque “o congresso tornou-se refém do lóbi das armas”, acusou Barack Obama. “O mesmo não pode acontecer com o povo americano. Não podemos continuar impávidos perante tamanha carnificina nas nossas comunidades.”

Devido a este impasse, a Casa Branca tem emitido sucessivos despachos com o objetivo de regular a compra de armas, várias vezes feita à margem da lei, seja numa rua americana, em sites obscuros ou até em feiras que se realizam, praticamente, todos os fins de semana um pouco por todo o país.

Um estudo recente da Universidade de Harvard, baseado em entrevistas a duas mil pessoas, concluiu que um terço delas não tinha sido submetido a qualquer verificação de antecedentes criminais.

Familiares das vítimas marcaram presença durante o anúncio de Obama

Familiares das vítimas marcaram presença durante o anúncio de Obama

CARLOS BARRIA / Reuters

“O flagelo das doenças mentais”

Obama anunciou que a partir desta terça-feira qualquer vendedor de armas é obrigado a ter uma licença e a processar a verificação de antecedentes criminais de todos os clientes. A medida gera críticas.

“Mesmo que verificassem o passado de todas a pessoas, o problema não ficaria resolvido. Por exemplo: as armas usadas pelos terroristas de San Bernardino foram adquiridas legalmente. O problema é outro. O problema é a banalização da violência na América e o flagelo das doenças mentais”, afirma ao Expresso, Gerry Souter, ex-dirigente do National Rifle Association (NRA), o maior grupo de lóbi pró-armas no congresso.

Opositor da orientação atual do NRA, “mais preocupada em defender os interesses dos armeiros do que o direito individual de acesso às armas”, Souter acredita que a decisão do presidente não terá resultados.

“Duzentos agentes do FBI para verificar no terreno, isto é, em todos os Estados Unidos, se os vendedores de armas estão a agir de acordo com a lei é muito pouco. É apenas política, nada mais”.

Tal como Souter, note-se que vários ex-dirigentes do NRA defendem a obrigatoriedade de verificação de antecedentes criminais para todos os compradores. Porém, essa exigência esbarra nas leis estaduais, “porque cabe a cada estado definir as condições legais de acesso às armas e o poder central (federal) não pode imiscuir-se, visto que tal violaria a Constituição”, explica Adam Winkler, constitucionalista e professor na Universidade da Califórnia.

Além do aumento de número de agentes federais, que vigiarão o cumprimento da lei, o novo despacho obriga os vendedores a reportar às autoridades eventuais desvios de armas, assim como a criação de um fundo de 500 milhões de dólares (465 milhões de euros) para o tratamento de doenças mentais.

Segundo a agência federal “Center for Desease Control” (CDA), cerca de metade da população americana sofrerá de doenças mentais ao longo da vida, desde pequenas crises de ansiedade a situações depressivas profundas. A CDA revela também que 9 milhões têm pensamentos suicidas e 2,5 milhões já planearam como se irão matar — diariamente, suicidam-se 22 veteranos de guerra nos EUA.

“Este é o ponto essencial. O massacre em Newtown vitimou 26 pessoas. Vinte eram crianças. Uma delas era o meu filho, o Jesse. Adam Lamza, o atirador, apresentara problemas mentais desde pequeno e nada foi feito”, lamenta Scarlet Lewis, em declarações ao Expresso.

Newtown foi parte fundamental da conferência de imprensa e Barack Obama não conteve as lágrimas quando recordou o massacre de há três anos. “Sempre que me lembro daquelas crianças, fico furioso”. Após uma pequena pausa, afirmou: “Precisamos de pressionar o congresso a agir, para que se possa fazer algo melhor”.

O despacho presidencial reforça ainda o gabinete de verificação de antecedentes criminais do FBI, em Washington, para que o processo possa ser imediato - decisão que custará cerca de quatro milhões de dólares (3,7 milhões de euros) aos cofres do Estado.

“No geral, esta luta será difícil. Não terminará na minha presidência. Mas muitas coisas não acontecem rapidamente. A libertação dos afroamericanos, o direito de voto das mulheres… Mas só porque é dífícil, não quer dizer que não tentemos.”

Na quinta-feira à noite (madrugada de sexta em Lisboa), o chefe de Estado americano participa num encontro patrocinado pelo canal de televisão CNN, onde explicará com mais detalhe o novo plano, respondendo em direto a perguntas do público.

  • Obama chora no dia em que contornou o congresso por causa das armas

    Presidente norte-americano anunciou quatro ações executivas para endurecer o controlo da compra e venda de armas, contornando a oposição do congresso norte-americano nesta matéria. “Não estamos aqui para discutir o último massacre, mas para tentar evitar o próximo”, sublinhou Obama, que foi ovacionado