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Donald Trump. A América que adoramos odiar

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Mike McGregor/Contour/Getty Images

O excêntrico empresário está a dominar todas as atenções neste início da caminhada para as presidenciais do próximo ano. Graças ao seu estilo populista e demagogo, lidera as sondagens para as eleições primárias do Partido Republicano. O que vai na cabeça do homem que ameaça deixar a política americana de pernas para o ar?

Construiria um grande muro,” prometeu Donald Trump a meio de junho no lançamento da sua candidatura presidencial em Manhattan, Nova Iorque. “E ninguém constrói muros melhor do que eu, acreditem em mim. E vou construí-los de uma forma pouco cara. Construirei um grande muro na nossa fronteira sul e farei com que o México pague a conta.” A seguir vieram os insultos aos mexicanos e a promessa de deportar os cerca de 11 milhões de imigrantes ilegais que residem atualmente nos EUA e ajudam a economia do país a funcionar.

“Não lhe daria um jantar,” disse Donald Trump há duas semanas no programa da Fox News “The O’Reilly Factor” sobre a próxima visita do Presidente da China aos EUA. “Arranjava-lhe um hambúrguer do McDonald’s e dizia-lhe que temos de começar a trabalhar porque ele não pode continuar a desvalorizar [a moeda]. Vamos dar-lhe um banquete de Estado quando o que ele tem feito é sugar todos os empregos e todo o dinheiro para fora do nosso país. Provavelmente dar-lhe-ia um Big Mac duplo.” Para Trump, a China declarou uma guerra comercial aos EUA. O problema, segundo ele, não é a liderança de Pequim mas sim a dos EUA. “Os líderes deles são inteligentes. Os nossos não são.”

A imigração ilegal e a China têm sido os dois principais temas da campanha populista de Trump. Sondagem atrás de sondagem, o empresário surge claramente à frente na corrida para as eleições primárias dos republicanos. Segundo a CNN/ORC, Trump tem 11 pontos de vantagem em relação a Jeb Bush. Para a Quinnipiac a diferença é ainda maior — 16 pontos. A sua campanha é a única a ser seguida em direto por várias cadeias de televisão. As frases simplistas, os insultos e as provocações de Trump geram uma avalanche de comentários e reações nas redes sociais. Quase quatro milhões de pessoas subscrevem a sua página no Twitter. Os telejornais noturnos das principais cadeias de televisão norte-americanas como a ABC, NBC e CBS dedicaram-lhe mais atenção do que aos outros 16 candidatos republicanos juntos. A liderança televisiva de Trump é simplesmente esmagadora. Como Frank Rich da revista “New York” escreveu, “ele é o oxigénio da campanha”.

Há, todavia, várias coisas a ter em conta. A primeira é que uma parte muito substancial das pessoas que têm respondido às sondagens vota irregularmente. Alguns não votam tradicionalmente no partido republicano. Outros nem estão recenseados. Se tivermos este ponto em conta, a vantagem de Trump em relação aos seus rivais ronda os cinco por cento. A segunda é que o apoio das pessoas que votam apenas de vez em quando complica muito campanhas nacionais como as primárias e as presidenciais. Aqui o problema de Trump não será tanto a falta de dinheiro mas sim a dificuldade em atrair pessoas com grande capacidade de organização política e construir uma infraestrutura que apoie a sua candidatura nos estados mais importantes. Finalmente, há um problema da popularidade. Donald Trump pode estar à frente nas sondagens mas a sua popularidade é baixa. 60 por cento dos eleitores recenseados não gostam dele. Isto sugere que Trump terá dificuldade em ganhar as primárias dos republicanos. Se o partido quiser mesmo ganhar a Casa Branca no próximo ano terá de escolher outro candidato a partir de janeiro de 2016. Como Amy Walter, do “Cook Political Report”, escreveu recentemente a propósito do tumulto político-televisivo no lado de lá do Atlântico, “o verão é para namorar e o inverno para acasalar.” Talvez. Mas, mesmo assim, as primárias republicanas poderão arrastar-se pelo menos até à convenção nacional que terá lugar em Cleveland em julho do próximo ano.

O que é que leva o potencial eleitorado dos EUA a apoiar um candidato sem a menor experiência de governo ou de administração pública e com ideias vagas para as políticas públicas, a segurança nacional e a política externa dos EUA?

À primeira vista, os números económicos sugerem que a política norte-americana devia estar a passar por uma fase relativamente tranquila. A economia está a crescer a um nível razoável. O desemprego baixou para os 5,3 por cento. Durante o último ano foram criados cerca de três milhões de empregos. O preço das casas está finalmente a subir. A queda do preço do petróleo pode não ser uma boa notícia para estados como o Alasca, o Dakota do Norte, a Louisiana e o Oklahoma, mas é uma ajuda para os orçamentos familiares. Há um ano, um galão de gasolina [3,78 litros] custava três dólares e quarenta e cinco cêntimos. Hoje, a média nacional está nos dois dólares e sessenta e cinco cêntimos. Os EUA estão a viver uma espécie de renascença automobilística. A distância percorrida em estrada aumentou pela primeira vez desde 2005. Os EUA são o principal produtor mundial de energia e nos próximos anos deverão começar a exportar petróleo e gás natural. O PIB per capita está nos 53 mil dólares. A crise e a grande recessão de 2008-2009 parecem ter sido ultrapassadas.

Manipulação. Trump é especialista em gerar emoções.

Manipulação. Trump é especialista em gerar emoções.

REUTERS/Ben Brewer

Os períodos de recuperação económica, todavia, são muitas vezes as melhores ocasiões para as campanhas populistas. Donald Trump é um grande ator de televisão. Para ele a política resume-se ao teatro. A função de toda a sua atividade teatral é gerar e manipular emoções. Para conseguir isto, Trump tem vindo a levar a cabo uma campanha de guerrilha política que tira partido de várias coisas.

A primeira é a crença de que os empresários ou os gestores das grandes empresas privadas são melhores governantes do que os políticos tradicionais. Trump alimenta a ilusão de que com ele tudo será diferente em Washington. Os seus apoiantes concordam. “Não precisamos de um político para presidente; precisamos de um homem de negócios,” disse Tom Krzyminski, um cabeleireiro de 66 anos do Michigan, ao “New York Times”. Estas pessoas acham que o país pode e deve ser governado da mesma maneira que Trump dirige, contrata e despede gestores no programa de televisão “The Apprentice”, na NBC.

O problema é que a história dos EUA diz-nos exatamente o oposto. A maior parte dos homens de negócios que fez a transição das grandes empresas industriais e financeiras para a direção dos departamentos da administração pública federal revelou-se um desapontamento. Herbert Hoover, Charles Wilson (General Motors), Robert McNamara (Ford), Donald Regan (Merrill Lynch) e Paul O’Neill (Alcoa) são talvez os exemplos mais conhecidos. Governar é um processo muito mais complicado, caótico e difícil do que gerir empresas privadas. Não é todos os dias que aparece um homem com o temperamento, a experiência e a sabedoria de George Shultz, presidente do grupo Bechtel e secretário de Estado das Administrações de Ronald Reagan entre 1982 e 1989. Trump pode ser muitas coisas, mas não é de certeza absoluta Shultz.

As tiradas ofensivas contra Megyn Kelly, a pivô e jornalista da Fox News que entrevistou Trump e os principais candidatos republicanos há um mês, também mostram outro ponto importante na sua campanha. Um dos seus alvos é a elite política do partido republicano. Para Trump, a Fox News está aliada a este grupo que controla o partido através das contribuições financeiras e apoia Jeb Bush, um candidato que apesar de toda a sua experiência política como governador da Florida, não tem conseguido estabelecer uma relação emocional com o eleitorado. As primárias dos republicanos são sempre um duelo entre dois grupos — os conservadores e os grupos que dominam de facto o partido. Na maior parte dos casos, o partido consegue que o seu candidato prevaleça sobre o dos conservadores. Mas, em 1964, os grupos conservadores ganharam com Barry Goldwater. E, em 1976, Ronald Reagan não ganhou a Gerald Ford na convenção nacional por muito pouco. Trump sabe que nunca será candidato oficial dos republicanos. A sua campanha é uma tentativa audaciosa de assumir o controlo do partido, criando a ficção de que é um conservador. A verdade é que nunca foi. É por isso que precisa de Ronald Reagan, um homem que veio da esquerda para construir uma nova coligação conservadora. Mas o que vai ser mesmo importante daqui para a frente é ver como é que a liderança do partido vai lidar com o desafio que Trump representa.

Manipulação. Há quem acredite que é melhor ter um homem de negócios do que um político na Casa Branca

Manipulação. Há quem acredite que é melhor ter um homem de negócios do que um político na Casa Branca

REUTERS/Brian Snyder

Hillary Clinton, curiosamente, está a ter um problema semelhante no campo democrata. O senador socialista Bernie Sanders e, sobretudo, Martin O’Malley, o ex-governador do estado de Maryland e atual presidente da Câmara de Baltimore, têm sido muito críticos da liderança dos democratas que acusam de favorecer de forma clara Hillary Clinton.

Bush e Clinton parecem políticos completamente artificiais. Trump, pelo contrário, apresenta-se como um candidato genuíno que diz o que pensa independentemente das possíveis consequências. A sua campanha alimenta-se da fúria do eleitorado contra as elites e as instituições norte-americanas. Esta opção tática está a ser premiada por pessoas que têm privilegiado até agora a ideologia, as promessas de um novo nacionalismo e a ofensa gratuita à capacidade de ganhar uma eleição presidencial. Apoiar Trump é sobretudo um voto de protesto contra as elites e os aparelhos partidários e o estado do país. O verão político norte-americano está a ser surpreendente, espetacular e interessante. A rapidez dos acontecimentos tem sido estonteante. O que é que tudo isto nos demonstra sobre a América?

As sondagens dizem-nos que a sociedade norte-americana entra no seu ciclo eleitoral presidencial preocupada sobretudo com duas coisas — a economia e as suas consequências para o emprego e níveis salariais, a segurança nacional e a política externa. Trump está a tentar canalizar as preocupações e o descontentamento dos republicanos e dos independentes para os dois temas.

Começando pelo primeiro tema, o candidato de Nova Iorque tem vindo a explorar a relutância da liderança republicana de orientar a agenda do partido para as necessidades e ansiedades da classe média. Este grupo social é a coluna vertebral da república norte-americana mas desde há muitos anos sente-se cada vez mais órfão do ponto de vista político. O verdadeiro problema desta classe média não é tanto que o nível de desigualdade tenha aumentado mas sim que a mobilidade entre as gerações não esteja a melhorar. A mobilidade social nos EUA é bastante mais baixa do que em muitos países do norte da Europa. Sob este ponto de vista, o país não é a terra das oportunidades para uma grande parte da sua população. Como Lauren Rivera, professora de Gestão e Organizações na Kellogg School of Management, mostra no seu livro “Pedigree: How Elite Students Get Elite Jobs” (Princeton University Press, 2015), o nível económico e a educação do país é agora mais importante do que nunca para o futuro profissional das raparigas e rapazes que estão a nascer do lado de lá do Atlântico. O capital social está a ficar cada vez mais concentrado num pequeno segmento da sociedade dos EUA.

A perceção de que as lideranças políticas republicanas são indiferentes à situação da classe média e dos mais desfavorecidos coincide com o crescimento da riqueza e da influência da região de Washington, D.C., nos últimos anos em relação ao resto do país. Criar novas empresas é agora bastante mais difícil. O número de startups está a diminuir. Há cada vez mais regras burocráticas. A influência do lóbi político junto do Congresso ou dos governos estaduais a favor dos interesses estabelecidos também aumentou. Há 60 anos, apenas cinco por cento dos trabalhadores norte-americanos necessitavam de uma licença para exercer a sua profissão. Hoje em dia, o número ronda os 30 por cento.

Como todos os relatórios internacionais mostram, os EUA têm empresas extremamente competitivas. O que tem sido menos notado é que muitos destes relatórios revelam uma quebra acentuada de dinamismo da sua economia e instituições. Um bom exemplo é o “Doing Business”, de 2014, do Banco Mundial — http://www.doingbusiness.org/rankings. De acordo com este estudo, em 189 países, os EUA estão em 46º lugar na facilidade em começar um novo negócio, 41º nas licenças de construção, 61º no acesso à eletricidade, 47º no pagamento dos impostos e 41º no cumprimento dos contratos. A título de comparação, Portugal está em 10º lugar no primeiro critério, 58º no segundo, 47º no terceiro, 64º no quarto e 27º no último.

O relatório “Global Competitiveness 2014-2015”, do World Economic Forum, coloca os EUA como o terceiro país mais competitivo a nível mundial mas inclui um número alarmante. Nos custos da violência e do crime para os negócios, Washington surge no 85º lugar a nível global. Como Fareed Zakaria chamou a atenção na coluna ‘Change your gun laws, America’, no “Washington Post” (30 de julho): “Desde 9/11, 74 pessoas foram mortas nos EUA por terroristas, de acordo com o think tank New America. Durante o mesmo período, mais de 150.000 americanos foram mortos em homicídios com armas de fogo e nós fizemos... nada.” Este número de homicídios é 34 vezes superior ao número de baixas norte-americanas no Iraque entre 2003 e 2013. Segundo o Watson Institute for International Studies da Universidade de Brown, as forças armadas dos EUA sofreram 4488 mortos durante essa guerra.

Tudo isto nos diz que a vida dos pequenos empresários na América é bastante mais difícil do que no passado e que os congressistas não conseguem chegar a um consenso sobre alguns dos mais importantes problemas de política pública a nível nacional. As consequências estão a ser muito negativas para a classe média e os mais pobres. O verdadeiro problema dos EUA não é o capitalismo liberal mas sim o compadrio político que está a minar o dinamismo da sociedade e da economia norte-americana. Num contexto deste tipo, é natural que muita gente não goste de ver Jeb Bush ou Hillary Clinton ganhar as primárias dos republicanos e democratas, respetivamente, e chegar à Casa Branca. Ambos os nomes sugerem que o liberalismo democrático republicano dos EUA está a ser substituído por oligarquias dinásticas e elitistas que perderam o contacto com a realidade diária dos americanos. Donald Trump está a aproveitar estes sentimentos para se afirmar politicamente, ao mesmo tempo que ameaça fazer descarrilar ou ferir mortalmente a candidatura de Bush.

O menor dinamismo da economia dos EUA não tem apenas razões políticas e burocráticas na sua origem. Os últimos 50 anos têm sido caracterizados pela quebra da produtividade. A única exceção é o período de 1996-2004, os anos em que a internet cresceu rapidamente. De então para cá, a produtividade tem sido bastante baixa. Uma das consequências deste facto é um fraco crescimento dos salários da classe média e uma diminuição muito grande no nível da participação da força de trabalho, que não recuperou nos últimos anos, apesar da melhoria dos principais indicadores da economia.

O problema da produtividade pode parecer surpreendente para muitos. Afinal de contas, praticamente tudo o que vemos, lemos ou usamos na nossa vida diária cria a certeza de que vivemos numa época inovadora e altamente produtiva ao nível tecnológico. A Califórnia é a capital deste mundo. Como “The Economist” escreveu recentemente, “os empreendedores, os inovadores, os tecnologistas e os homens do dinheiro de Silicon Valley estão ocupados a revolucionar praticamente todos os aspetos da economia global. (...) A enorme criatividade desordenada de Silicon Valley é diferente de tudo desde o génio dos grandes inventores do século XIX.” As empresas nesta região valem três biliões de dólares, ou seja, o mesmo que toda a economia inglesa ou o equivalente a 13 vezes o produto nacional bruto de Portugal em 2014. De uma forma ou de outra, todos os governos das economias mais desenvolvidas ambicionam criar ecossistemas como o de Silicon Valley. O problema é que esta região representa apenas três por cento do produto da economia dos EUA. Em termos de emprego, vale ainda menos. Ao contrário do que a Califórnia sugere, o resto do país não vive numa época extremamente inovadora ou produtiva. Esta situação tem vindo a afetar os níveis de crescimento económico e toda a classe média. A grande questão é saber porque é que isto está a acontecer.

Andrew McAfee, professor na Sloan School of Management no MIT e coautor do livro “Race Against the Machine” (W.W. Norton & Company, 2014), tem argumentado que a fraca produtividade dos EUA se deve sobretudo ao tempo que as empresas necessitam para tirar partido das novas tecnologias e plataformas digitais. Tal como aconteceu há algumas décadas com a introdução dos computadores na atividade empresarial terão de passar alguns anos até que a produtividade aumente de uma forma significativa.

Mas há quem discorde desta interpretação da diminuição da produtividade nos EUA nas últimas décadas. Robert Gordon, da Universidade de Northwestern, defende que o que está a acontecer tem duas explicações. A primeira é que o período que estamos a viver é menos inovador do ponto de vista tecnológico do que aquele que se viveu no final do século XIX. A segunda está relacionada com a dificuldade de os EUA conseguirem resolver os seus problemas em quatro áreas: demografia, educação primária, básica e secundária, desigualdade económica e dívida pública.

O desafio demográfico tem estado no centro da campanha de Donald Trump. Só que, em vez de construir muros que além de custarem uma fortuna não resolvem nada, o que os EUA precisam mesmo de fazer é subir lentamente a idade da reforma para acompanhar a maior longevidade das pessoas e legalizar a situação dos imigrantes ilegais que vivem no país. Estes imigrantes e muitos outros altamente qualificados que gostariam de ir viver e trabalhar na América aumentariam o dinamismo da economia e pagariam os seus impostos. A América Fortaleza que Trump propõe em algumas tiradas inflamadas e demagógicas é um disparate económico e político. Os imigrantes — ilegais e legais — são a melhor prova do extraordinário apelo da república norte-americana a nível internacional. Nenhum país do mundo tem este poder de atração.

Slogan. O seu lema de campanha — “Make America Great Again!” — está em perfeita sintonia com os desejos dos eleitores para o país

Slogan. O seu lema de campanha — “Make America Great Again!” — está em perfeita sintonia com os desejos dos eleitores para o país

REUTERS/Brian Snyder

O apelo de Trump ao nacionalismo e a promessa da deportação dos imigrantes ilegais é um instrumento político para colocar o milionário de Nova Iorque no centro do intenso debate sobre a globalização nos EUA. Não deixa de ser irónico ver Trump, um plutocrata que vive num apartamento decorado com ouro e mármore ao estilo Luís XIV, em Manhattan, a cidade mais globalizada do mundo, liderar este debate no campo republicano.

Trump, no entanto, sabe melhor do que ninguém que a classe média que ganha pouco e não tem educação universitária tende a ser bastante cética relativamente às vantagens da globalização. Para estas pessoas, a crescente integração das principais economias mundiais é responsável pela dificuldade em arranjar bons empregos e pela estagnação salarial. Barack Obama e a maioria dos representantes e senadores republicanos no Congresso discordam. Trump está a explorar esta oportunidade política.

É altamente provável que os EUA beneficiem da evolução nas indústrias com alto valor acrescentado nos próximos anos. Os sectores aeroespacial, médico e automóvel são talvez os melhores exemplos. Nestes campos será cada vez mais importante a proximidade entre fabricantes e consumidores. Muitas das empresas nestas áreas vão chegar à conclusão de que faz muito mais sentido, do ponto de vista do desenvolvimento e comercialização, fazer o seu trabalho dentro dos EUA. Mas, mesmo que isto se torne uma realidade, as empresas que usam tecnologias industriais avançadas representam apenas 12 por cento do produto norte-americano.

A conclusão deste estado de coisas é que Trump, provavelmente, está errado quando apela à fúria dos republicanos e independentes contra os seus representantes políticos em Washington e o sector financeiro de Wall Street. Esta fúria existe na coligação republicana, mas 2015 não é 1968. O que a classe média parece querer é uma coisa bastante diferente — alguém que a ajude a mudar as regras políticas e económicas a seu favor.

A segurança nacional e a política externa são o segundo tema de Donald Trump. O melhor lema da campanha — “Make America Great Again!” — é dele e está em perfeita sintonia com os desejos dos eleitores para o seu país. Aqui, Hillary Clinton com o seu “Hillary” e Jeb Bush com “Jeb!” são um desapontamento. Trump tem vindo a usar o exemplo de Ronald Reagan nas suas entrevistas televisivas. Segundo ele, foi com este Presidente republicano que a América foi grande e orgulhosa pela última vez. Agora, “[e]ste país está metido num grande sarilho,” disse Trump a Megyn Kelly no debate na Fox News. “Deixámos de ganhar. Perdemos para a China. Perdemos para o México em comércio e na fronteira. Perdemos para toda a gente.”

As críticas à China fazem parte da retórica e do teatro político das primárias e da campanha presidencial desde pelo menos 1992. Nesse ano, Bill Clinton criticou a política externa de George Bush e os “carniceiros” de Pequim. Mas quando chegou à Casa Branca, a continuidade dominou as relações de Washington com a liderança chinesa. George W. Bush fez o mesmo entre 2001 e 2008. O que mudou entretanto foi o medo do declínio dos EUA em relação à China.

REUTERS/Brian Snyder

Este medo é uma das características da sociedade norte-americana. Nos anos 50, o adversário era a URSS. Nos anos 80, esse medo transferiu-se para o Japão. Pequim é agora o símbolo da ansiedade de Washington em relação ao seu estatuto e papel na política e na economia internacional. O livro “Battle Hymn of the Tiger Mother” (Penguin, 2011), de Amy Chua, professora de Direito na Universidade de Yale, representa bem toda esta ansiedade dos americanos em relação ao futuro. Xi Jinping chegará a Washington nas próximas semanas, numa altura em que o consenso político em relação à China começa a ser posto em causa na sociedade, grandes empresas e Congresso. O que Trump não diz aos conservadores e independentes é que Pequim está em plena transição política e económica. Os próximos anos serão turbulentos para a China.

A diminuição da superioridade tecnológica dos EUA em relação a Pequim e outros potenciais adversários também explica a retórica de Trump e a sua defesa de Ronald Reagan. As guerras no Iraque e no Afeganistão levaram o Pentágono a aplicar menos verbas na investigação e desenvolvimento de novas tecnologias. A China fez exatamente o oposto. Aproveitou os últimos 15 anos para apostar em mísseis convencionais cada vez mais precisos, sistemas de defesa aérea integrados muito sofisticados, submarinos, meios de guerra eletrónica com o objetivo de pôr em causa a supremacia aeronaval dos EUA no Pacífico ocidental. Este duelo tecnológico é o resultado de uma profunda divergência estratégica entre Washington e Pequim.

As duas visitas de Ahston Carter, secretário da Defesa da Administração Obama, a Silicon Valley, em abril e na semana passada, e as sete parcerias público-privadas do Pentágono com uma vasta rede de empresas de alta tecnologia são uma indicação que Washington vai voltar a fazer uma forte aposta nesta área. Tal como aconteceu com Eisenhower/Kennedy e Carter/Reagan, os fundos públicos darão origem a novas tecnologias com utilização militar e comercial.

“Make America Great Again!” implica a escolha de uma estratégia e uma política externa para os EUA. Trump tem sido muito vago e contraditório aqui. Por um lado, dá a entender que com ele Washington conseguirá o que quer das outras capitais. É evidente que isto não é possível nem desejável. Uma das consequências inevitáveis da globalização é um declínio relativo dos EUA em relação aos outros países. Por outro, Trump parece preferir uma América bastante mais virada para dentro e seletiva na defesa dos seus interesses. Esta é uma das escolhas possíveis. Nos últimos 100 anos, os EUA fizeram pelo menos quatro escolhas estratégicas diferentes — hegemonia, empenhamento seletivo, independência em relação ao mundo e novamente hegemonia. Barack Obama surpreendeu as capitais europeias com a sua aposta no empenhamento seletivo. Uma das mais surpreendidas por esta opção foi Lisboa.

Donald Trump representa muito do que é desagradável e excessivo na república norte-americana, mas tem pelo menos duas virtudes. A primeira é obrigar-nos a voltar a olhar para o que se passa nos EUA. Um dos paradoxos das presidências Obama foi ter aumentado o nosso desinteresse e ignorância em relação ao que se passa do lado de lá do Atlântico. De uma forma ou de outra, todos nos lembramos da noite em que Barack Obama foi eleito Presidente dos EUA, em novembro de 2008. A sua eleição foi um acontecimento mundial. De então para cá, votámos o país ao esquecimento. E é por isso que agora temos a certeza de que Trump é uma aberração política que prova a decadência dos EUA, a estupidez da sua sociedade e que o nosso desinteresse é perfeitamente justificado. Não é. A única coisa que está verdadeiramente em declínio é a nossa atenção sobre a América. A segunda virtude da candidatura de Trump é lembrar-nos que todos os países fazem escolhas estratégicas. O futuro da relação transatlântica, um dos pilares da ordem internacional e do destino de Portugal, não está garantido.

Texto originalmente publicado na edição de 5 de setembro de 2015 da Revista E