Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

José Eduardo dos Santos: O Rei Sol angolano

  • 333

O homem que domina a política angolana quase há 36 anos está a caminho de dar mais um golpe de mestre. Invocando as circunstâncias excecionais que o país enfrenta, como já o fez em várias outras ocasiões, prepara-se para ficar no palácio presidencial até 2022, quando tiver 80 anos. Nessa altura terá talvez a tentação de proceder a uma sucessão dinástica. Ou então, quem sabe, fazer uma nova alteração da Constituição, como tem ocorrido em vários países africanos, que lhe permita eternizar-se no poder até à morte

Nicolau Santos (Texto); Jeanne Waltz (Ilustrações)

José Eduardo dos Santos controla grande parte das peças do tabuleiro onde se joga a política angolana. Mas nem ele, que tem vindo a cimentar o seu poder por formas “tão sábias, tão subtis e tão peritas que não podem ser bem descritas”, como escreveu Sophia de Mello Breyner, consegue dominar todas as variáveis. E a primeira que não controla é a evolução do preço do petróleo. Em 2008, quando o MPLA venceu as eleições legislativas com mais de 80 por cento dos votos e o país registava taxas de crescimento médio de 17 por cento ao ano, tudo parecia correr bem ao Presidente, sem contestação interna visível, depois da morte de Jonas Savimbi em 2002 e do fim da guerra civil que se arrastava desde 1975, e com uma crescente complacência externa face aos múltiplos negócios que a abertura e a pujança da economia angolana permitiam aos investidores internacionais.

Nessa altura, as previsões para os preços do petróleo apontavam para que continuaria a evoluir em alta, ao redor dos 100 dólares, mas que poderia vir mesmo a atingir em não muitos anos os 200 dólares por barril. Nenhum especialista previu que a revolução do shale oil (petróleo de xisto) nos Estados Unidos da América traria de forma dramática e rápida o barril para os 40 dólares como aconteceu em 2014, oscilando agora na casa dos 60 dólares. O golpe foi tão rápido e avassalador que o Orçamento do Estado de Angola para 2015, que estava calculado na base de um barril a 81 dólares (que já representava uma queda de 18 por cento face ao ano anterior), teve de ser revisto para os 40 dólares, provocando uma quebra estimada de 22 mil milhões de dólares nas receitas previstas para este ano. Ora, como os rendimentos petrolíferos representam 42 por cento do PIB, 90 por cento das exportações e 75 por cento das receitas do Estado, percebe-se facilmente o efeito devastador que esta quebra dos preços do crude provoca na economia angolana, mas também na elite que vive na intimidade do palácio presidencial.

“A situação de Angola alterou-se radicalmente por causa da queda do preço do petróleo, mas o efeito mais nocivo é político”, considera Xavier de Figueiredo. Para este especialista em questões africanas, as receitas do petróleo são fundamentais para o funcionamento do sistema em que assenta o regime político angolano, nomeadamente, para garantir um conjunto de lealdades das elites políticas, económicas e militares ao Presidente. Sem esses montantes — o Banco Mundial estimou que 32 mil milhões de dólares provenientes das exportações petrolíferas não entram nos canais legais, servindo precisamente para manter estas elites satisfeitas, coniventes e cúmplices do palácio presidencial —, a situação política complica-se seriamente. “Muitas das lealdades de que depende o regime são interesseiras”, diz, pelo que a quebra de receitas começa a colocá-las em causa.

Só para se ter uma ideia de como o problema é assustador para uma economia que não se conseguiu diversificar, assinale-se que as receitas totais de Angola, de capital e correntes, atingiram em maio 485 milhões de dólares contra os 3,2 mil milhões no mesmo período do ano passado, uma quebra de 85 por cento, como admite o Ministério angolano das Finanças, no relatório de execução orçamental divulgado a semana passada. “Esta quebra de receitas apanhou os dirigentes angolanos em contramão e evidenciou um país cheio de fragilidades. Não há uma economia alternativa ao petróleo. Criou-se essa aparência mas ela não existe”, sustenta Xavier de Figueiredo.

Ora, esta quebra de receitas não é possível compensar através de empréstimos que não tenham objetivos muito claros. “As autoridades angolanas andam a bater a todas as portas”, assinala Manuel Ennes Ferreira, professor universitário e perito em assuntos africanos. E como não os conseguem obter junto dos Estados Unidos ou de outros países onde tais financiamentos são cada vez mais escrutinados, Luanda teve de se virar para outras paragens. A prova de que a situação é dramática foi a viagem de José Eduardo dos Santos à China no início de junho, durante a qual terá conseguido (embora as negociações tenham sido secretas) uma moratória no pagamento da dívida de Luanda a Pequim, a par de um novo empréstimo na casa dos 25 mil milhões de dólares, tendo dado como garantia de 30 por cento do empréstimo 500 mil hectares de terra arável e com água na província de Cuando-Cubango a empresas chinesas que ali se queiram instalar. Desde há quatro anos que investidores chineses mantêm uma forte presença naquela província, ocupando cerca de 15 mil hectares num projeto experimental de plantação de arroz.

Contestação social aumenta

Devido ao secretismo da operação, o Presidente tem sido alvo de fortíssimas críticas por parte da oposição, de juristas e de elementos ligados à defesa dos direitos humanos, tanto mais que os camponeses que vivem naquela região ficaram sem pastagens para alimentar o gado devido ao aparecimento dos campos de arroz. E esta é a segunda variável que José Eduardo dos Santos não controla: a contestação social. Um dos casos dramáticos terá acontecido em maio, quando fiéis da seita A Luz do Mundo se reuniram no Monte Sumi, no Huambo, para esperar o fim do mundo, anunciado pelo seu líder Julino Kalupeteka para dezembro. A crescente afluência inquietou as autoridades do distrito, que terão enviado uma força policial para prender Kalupeteka e dispersar a multidão. A iniciativa acabou mal, com quatro agentes policiais mortos. No entanto, a polícia regressou e terá feito um massacre, cujos números são completamente díspares: as autoridades falam em 13 mortos entre os fiéis, há relatórios que apontam para centenas e a oposição contabiliza 1008 vítimas. Face a isto, o escritório do alto comissariado da ONU para os Direitos Humanos em Genebra pediu que fosse nomeada uma comissão independente, pretensão que caiu mal no seio do Governo angolano e foi prontamente rejeitada.

Mais surpreendente foi a detenção, a 21 de junho, de 15 jovens acusados de preparem um ato de rebelião e atentado contra o Presidente da República. Os jovens são conhecidos por organizarem manifestações pacíficas desde 2011, exigindo a demissão de José Eduardo dos Santos e participaram numa série de três debates baseados no livro “Da Ditadura à Democracia: Uma Abordagem Conceptual para a Libertação”, de Gene Sharp, académico pacifista norte-americano, que propõe um manual de instrução para estratégias de luta não-violenta contra ditaduras no mundo. A evocação de um novo 27 de maio, que, em 1977, resultou numa tentativa de golpe de Estado para derrubar o então Presidente Agostinho Neto, provocando depois a retaliação milhares de mortos de cidadãos angolanos, parece neste caso manifestamente excessiva, quer pela forma como estes ativistas se têm vindo a manifestar quer por não contarem com qualquer apoio de forças militares ou militarizadas, ao contrário do que aconteceu naquele evento, onde Nito Alves era um dos mais populares comandantes militares do MPLA. Na prática, os jovens estão a ser usados para passar o aviso, sobretudo em Luanda, para os que eventualmente querem e podem fazer um golpe de Estado. Mas isso pressupõe medo — medo de que algo possa acontecer. Quando ao caso Kalupeteka, destina-se a avisar os umbundos, a maior etnia do país, que vive no planalto central e foi durante muitos anos o principal bastião da UNITA e de Jonas Savimbi.

No ano passado, o MPLA desencadeou também uma operação mediática em editoriais e artigos publicados em jornais e revistas, mas também em intervenções televisivas, tentando colar a UNITA ao seu passado, quando era dirigida por Jonas Savimbi. Além disso, tem havido numerosos casos de violência contra as casas do partido do galo negro espalhadas pelo território. “Estão assustados e nervosos e reagem assim.” A criação de inimigos do regime, reais ou imaginários, e de situações de tensão faz parte de uma clara orientação do partido no poder em Angola para manter a unidade dos seus apoiantes e estarem sempre na mó de cima no combate político. “Os dirigentes do MPLA pensam a prazo. Só que não estão a pensar no país, mas na forma de se continuarem a manter no poder”, diz um analista da realidade angolana, que pede para não ser identificado.

Tudo isto ocorre tendo como pano de fundo uma situação económica que se está a deteriorar rapidamente. A inflação disparou, o custo de vida aumentou significativamente, há salários em atraso na Função Pública, bolsas para estudantes no estrangeiro que deixaram de ser pagas e milhares de pequenas empresas, que têm negócios com a administração central e local e não recebem o que lhes é devido, estão a entrar em colapso. É que o Governo, para responder à brutal quebra das receitas petrolíferas, cortou em um terço todas as despesas públicas contempladas no Orçamento do Estado do ano em curso. “Nunca vi os dirigentes angolanos numa situação de aflição tão grande como agora.

Antes, a pressão vinha de fora e uniam-se. Mas agora, está lá dentro”, assinala Xavier de Figueiredo.
O escritor João Melo, num artigo publicado este mês no “África 21”, corrobora a situação: “Os ministérios, por exemplo, apenas têm recebido, praticamente, verbas para salários, estando sem capacidade para honrarem os compromissos que mantiveram com as empresas, depois dos cortes do início do ano. Sendo o Estado o maior cliente do país, imagine-se o efeito que isso tem. Em todo o país, há empresas a despedir pessoal e até a fechar. Não há diversificação económica que aguente.”

Os resultados também se sentem nas relações com Portugal. O “Jornal de Notícias” dava conta, no final de junho, de que a queda do preço do petróleo e o travão no sector da construção naquele país africano já levaram ao regresso de mais de 3000 portugueses ao nosso país. E o presidente do Sindicato da Construção, Albano Ribeiro, admite que “muitos mais trabalhadores se seguirão”. Em abril, o sindicato já tinha avisado que havia milhares de trabalhadores em Angola com salários em atraso. “As empresas não têm condições para se manterem e os trabalhadores estão a regressar”, disse.

João Melo junta outro exemplo e denuncia que ainda recentemente o ministro da Saúde conseguiu impedir, in extremis, a saída em bloco de vários diretores de hospitais que queriam demitir-se por causa da escassez de medicamentos. Mas depois estranha que isto esteja a acontecer, quando o preço do petróleo até está acima dos 40 dólares estimados no Orçamento revisto. “A imagem que está a ser passada é a de um Estado aparentemente falido. Ora, o Estado angolano não está falido. O país tem dinheiro. Onde está?”

“As pessoas passaram de uma situação conformista para a irritação e falam agora abertamente”, diz Ennes Ferreira, que visita Angola com regularidade. No caso dos investimentos que a empresária Isabel dos Santos, filha do Presidente angolano, tem vindo a fazer fora do país, nomeadamente em Portugal, o professor universitário diz que mesmo que houvesse alguns reparos, do género “só compra o que compra porque é filha do Presidente”, existia mesmo assim uma ponta de orgulho. Contudo, o sentimento terá mudado com a crise e a recente aquisição da maioria do capital da empresa portuguesa Efacec terá levado a várias críticas no sentido de Isabel dos Santos apostar em Angola para fazer novos investimentos em vez de optar pelo estrangeiro (embora neste caso o cerne da aposta é preparar-se para ganhar os concursos de equipamentos para a barragem do Laúca e outros empreendimentos que se seguem neste sector. “Há um mal-estar grande”, considera.

Ainda por cima, as perspetivas para o petróleo angolano não são brilhantes. A exploração em terra ou em águas rasas está quase esgotada, a meta de atingir a produção de dois milhões de barris por dia nunca foi alcançada e está em declínio, não têm aparecido novas jazidas de fácil acesso e a aposta no pré-sal “falhou por causa da descida dos preços e deixou-os numa situação muito embaraçosa”, refere um especialista do sector petrolífero, que pede para não ser identificado. “Quando o preço do petróleo é elevado, tudo se disfarça. Quando baixa, tudo se complica.” Para escurecer ainda mais o futuro, a China, o maior financiador de Angola, que tem sido paga em petróleo angolano, pode vir a tornar-se um importante produtor de petróleo de xisto.

A cartada Manuel Vicente

O Presidente tem seguramente consciência do cansaço que o seu longo reinado começa a provocar, mesmo entre muitos dos que lhe estão mais próximos. O exemplo da primavera árabe deixou inquietos os que lhe são mais afetos. Com efeito, o Presidente tunisino Zine El Abidine Ben Ali também foi eleito com 89,6 por cento dos votos em 2009 para pouco depois, porque um jovem decidiu imolar-se em protesto contra a sua política, um movimento popular imparável o ter deposto de uma forma surpreendentemente rápida.

E há uma comparação que não lhe é simpática. José Eduardo dos Santos é o segundo Presidente da República há mais tempo no cargo em todo o planeta. Só é suplantado, apenas por um mês e alguns dias, por Teodoro Obiang, o ditador que governa com mão de ferro a Guiné Equatorial.

Mas se há coisa que não se deve fazer é menosprezar a extraordinária capacidade do líder angolano de utilizar em seu favor situações que aparentemente lhe são desfavoráveis. José Eduardo dos Santos não deixou a presidência durante a guerra civil porque queria deixar o país em paz. Não saiu quando chegou a paz porque era necessário reconstruir o país. E agora, que grande parte do país está reconstruído, volta a não sair porque Angola enfrenta grandes dificuldades económicas.

No dia 2 de julho, discursando na abertura da reunião do Comité Central do MPLA, disse taxativamente: “Um tema que vai requerer uma profunda reflexão é a seleção de candidatos aos cargos de direção e a sua posterior eleição, incluindo ao cargo de presidente do partido e ao candidato à eleição a Presidente da República. Em certos círculos restritos era quase dado adquirido que o Presidente da República não levaria o seu mandato até ao fim, mas é evidente que não é sensato encarar essa opção nas circunstâncias atuais.”

Foi quase o mesmo que, em outubro de 2013, disse numa entrevista à TV Bandeirantes, ao reconhecer que estava há “demasiado” tempo no poder, mas que “razões conjunturais” a isso o tinham obrigado. “O país esteve em guerra cerca de 40 anos desde que começou o processo de libertação nacional, mas, depois da independência, acho que foram trinta e tal anos de guerra, em que o país ficou adiado, portanto não pôde consolidar essas instituições do Estado, nem sequer pôde tornar regular o funcionamento do processo de democratização, por isso, muitas vezes as eleições tiveram que ser adiadas.”

E garantiu que se o país tivesse retomado o processo regular de realização de eleições em 1992, “certamente” já não seria chefe de Estado. “A conjuntura não permitiu que realizássemos eleições e fui ficando até que realizámos estas eleições. Penso que daqui para frente as coisa vão mudar”, acrescentou.

MANUEL VICENTE. Apesar de escolhido por José Eduardo dos Santos para lhe suceder, o ex-presidente da Sonangol começa a ver esfumar-se o sonho presidencial

MANUEL VICENTE. Apesar de escolhido por José Eduardo dos Santos para lhe suceder, o ex-presidente da Sonangol começa a ver esfumar-se o sonho presidencial

Pois não mudou, porque a conjuntura mais uma vez veio atrapalhar, pelos vistos, os desejos de José Eduardo dos Santos se retirar, contrariando aparentemente os passos que deu em 2013, quando escolheu como seu vice às eleições legislativas Manuel Vicente, ex-presidente da Sonangol, homem da sua total confiança, que impôs ao bureau político do MPLA e aos generais como seu futuro sucessor.

Nessa altura, 2013, muito se especulou sobre as três hipóteses que José Eduardo dos Santos parecia estar a colocar em cima da mesa: ou cumprir só metade do atual mandato, saindo em 2015; ou cumpri-lo todo até 2017; ou cumprir o atual mandato e o próximo. Pois bem: para já garante que vai cumprir este mandato até ao fim e depois deixa entrever a quase certeza de que muito provavelmente voltará a ser o candidato do seu partido às eleições de 2017, devendo só abandonar o poder em 2022, quando tiver 80 anos. E também não haverá separação entre os cargos de presidente do partido e o candidato a Presidente da República a apresentar pelo MPLA, o que quer dizer que só um nome cumpre sem oposição interna de relevo esse objetivo: o dele próprio.

Para quem já ouviu falar em sucessores do Presidente sabe que a todos eles aconteceu o mesmo: emergiram, surgiram como fortes possibilidades para ocupar no futuro o palácio presidencial, até serem afastados ou caírem mesmo em desgraça. O registo é longo e inclui nomes como os de Pitra Neto, Fernando Piedade dos Santos (Nandó), Marcolino Moco (que deu a entender que estava disponível), João Lourenço e... Manuel Vicente.

O caso de Manuel Vicente é particularmente interessante, porque exerceu a presidência da Sonangol, a empresa pública de petróleo, desde 1999 a 2012. Só um homem da mais estrita confiança do Presidente poderia ter permanecido tanto tempo à frente de uma empresa em que assenta quase toda a receita do país, como é um pilar essencial para manter satisfeitas as tais lealdades políticas, económicas e militares do regime. Quando, contra a vontade de vários generais e membros do bureau político do MPLA, o Presidente impôs o seu nome como vice-presidente parecia estar efetivamente a preparar a sucessão. Manuel Vicente nunca trairá José Eduardo dos Santos e garantir-lhe-ia com certeza, se saísse do poder, que ele e a sua família estariam ao abrigo de ataques políticos ou investigações judiciais sobre a forma como acumularam enormes fortunas e estão presentes em múltiplos ramos de atividade.

O Presidente teve de jogar todo o seu peso político nesta aposta, porque o que falta a Manuel Vicente é isso mesmo: peso histórico e político no partido para ter o apoio sem reservas dos membros do bureau político do MPLA e dos generais. O grande argumento para a escolha de Vicente como sucessor era precisamente a sua qualidade técnica e o profundo conhecimento da indústria petrolífera. Contudo, de uma forma totalmente inesperada, o sucessor de Vicente à frente da Sonangol e seu ex-braço-direito, Francisco de Lemos, assumiu há cerca de dois meses, numa reunião interna, que o modelo operacional que a petrolífera angolana seguiu “fracassou e está falido” e que o único segmento que atualmente “funciona é o de upstream, gerido pelas companhias estrangeiras, sem qualquer intervenção da Sonangol”. Nas conclusões da reunião, divulgadas pelo Expresso, Lemos sublinhou: “Deixámos de aprender a saber fazer e aprendemos a contratar e subcontratar.”

Em política, o que parece é. E tendo sido Manuel Vicente o grande mentor da internacionalização da Sonangol e tendo estado 13 anos à frente da companhia, a leitura política deste documento técnico coloca em causa precisamente aquilo porque foi escolhido como número dois de José Eduardo dos Santos: a sua competência técnica. Daí a concluir-se que este é um argumento que vai servir para o Presidente o afastar da vice-presidência quando se recandidatar em 2017 é um passo de anão, até porque é muito difícil acreditar que um documento que provocou estas ondas de choque e que coloca em causa Manuel Vicente tenha podido ser divulgado sem a luz verde de Eduardo dos Santos. Mas, além de chamuscar Manuel Vicente, a divulgação do relatório tem provavelmente outro objetivo: o de preparar a opinião pública para a privatização de partes significativas da Sonangol, ficando o Estado angolano com o controlo da área concessionária.

No domingo passado, 12 de julho, a empresa tentou limitar os estragos causados por artigos publicados “num determinado jornal português” (leia-se Expresso). Num extenso e muito técnico comunicado enviado à agência Lusa, a Sonangol recusa “a hipotética falência técnica”, “bancarrota” e “crise”, dizendo que tem uma solvabilidade financeira de longo prazo inferior a 63 por cento e que dispõe de “capitais circulantes suficientes para satisfazer, em plenitude, as suas obrigações imediatas e de curto prazo”. Diz ainda que vai manter o seu programa de investimentos e que o seu EBITDA revela “a sustentabilidade operacional do endividamento e a preservação de liquidez suficiente para as adversidades conjunturais”.

A administração assegura igualmente que as operações internacionais, que estariam na origem dos problemas financeiros da estatal angolana, “decorrem com normalidade”, mas admite que a empresa desencadeou, ainda em 2014, “um amplo processo negocial” da maioria dos contratos de aquisição de bens e serviços, através de negociações “longas” e “difíceis” que “encontrarão por certo alguns constrangimentos”.

O pequeno problema é que não só nada é esclarecido relativamente ao documento citado pelo Expresso, como o mal está feito. Depois de ser conhecido este relatório, “custa muito a acreditar que Manuel Vicente se mantenha como vice-presidente”, admite Manuel Ennes Ferreira, considerando que o ex-presidente da Sonangol vai provavelmente pagar a fatura da sobre-exposição do país ao petróleo. Contudo, o novo número dois que apareça também é provável que não seja o nome efetivo. “José Eduardo dos Santos não pode ter um número dois com força. Não admite sombras. Nem um número dois que tenha ambições e efetivas possibilidades de chegar ao cargo aceita prestar-se a esse papel”, prevê.

“José Eduardo dos Santos não está preparado para sair do poder. Vai manter-se até ao fim. O aparecimento de potenciais sucessores serve para aliviar os focos de descontentamento”, considera Xavier de Figueiredo. “As linhas que segue nesta matéria é manter a questão indefinida, permitir a especulação e deixar que vão aparecendo candidatos.” O conhecido jornalista angolano Rafael Marques, em declarações recentes, afina pelo mesmo diapasão: “Caso se mantenha a inércia política atual em 2017, José Eduardo dos Santos estenderá o seu mandato até 2022.”

Proteger os negócios da família

Mas qual é o objetivo de José Eduardo dos Santos? A resposta é óbvia: garantir sem quaisquer margens para dúvidas que, quando deixar o poder em 2022, nem ele nem nenhum dos seus familiares terá problemas com a Justiça do país. E por mais confiança que se tenha numa pessoa, os laços de sangue falam sempre mais alto. É por isso que, com alguma insistência, se diz que o que se prepara para fazer é a sucessão dinástica a favor do seu segundo filho, José Filomeno dos Santos, que para já preside ao Fundo Soberano de Angola, dotado com 5 mil milhões de dólares.

O ex-primeiro-ministro angolano Marcolino Moco, já em fevereiro de 2014, acreditava neste cenário. Numa entrevista ao site “Angola 24 horas”, disse taxativamente: “Se o céu não cair, ele vai ser substituído pelo atual presidente do Fundo Soberano de Angola, que é um dos seus próprios filhos. É preciso estar muito distraído para não ver.”

OS FILHOS, O AMIGO E O CANDIDATO. Dos três filhos mais velhos do Presidente, Isabel é a primeira bilionária africana, Filomeno preside ao Fundo Soberano e pode suceder ao pai e Tchizé já entrou na banca. Kopelipa é chefe da Casa Militar. Nandó ambiciona suceder a José Eduardo dos Santos

OS FILHOS, O AMIGO E O CANDIDATO. Dos três filhos mais velhos do Presidente, Isabel é a primeira bilionária africana, Filomeno preside ao Fundo Soberano e pode suceder ao pai e Tchizé já entrou na banca. Kopelipa é chefe da Casa Militar. Nandó ambiciona suceder a José Eduardo dos Santos

A discreta mas crescente influência de José Filomeno dos Santos na condução dos destinos do país dá aparentemente sustentação a esta tese. Com efeito, a indicação de Armando Manuel, 41 anos, para ministro das Finanças em maio de 2013 terá sido da sua responsabilidade, segundo o jornal de oposição ao regime “Maka Angola”. Armando Manuel era o anterior presidente do Fundo Soberano, tendo sido substituído por Filomeno dos Santos. Este gostaria que o jovem ministro tivesse ido ocupar a presidência da Sonangol, dado que o Fundo Soberano recebe a sua dotação orçamental da petrolífera estatal, mas José Eduardo dos Santos terá considerado que ainda não dispunha dos conhecimentos suficientes e traquejo político para tal. Contudo, terá cedido à pressão de Filomeno dos Santos e acabou por o nomear ministro das Finanças.

A preocupação do Presidente com a sua sucessão entende-se perfeitamente. Todos os seus sete filhos têm posições mais ou menos importantes na economia angolana e a isso não será alheio o facto de serem seus descendentes. Isabel dos Santos, a primogénita, é de longe a mais bem sucedida, tendo sido considerada pela revista norte-americana “Forbes”, em janeiro de 2013, como a primeira bilionária africana. Com posições em Portugal no BPI, NOS, Galp (através da Amorim Energia) e Efacec, além do banco angolano BIC, os seus investimentos em Angola são muito relevantes, indo das telecomunicações (Unitel) aos cimentos, passando pela banca, diamantes, restauração, imobiliário, televisão e outras áreas de atividade. São conhecidos vários casos em que usou o peso das suas ligações familiares para passar a deter negócios que pretendia. Sendo muito discreta — não dá entrevistas e raramente aparece em público ou em eventos sociais —, Isabel dos Santos já processou publicações portuguesas, como a “Sábado”, por textos sobre a sua atividade empresarial que considera serem danosos para a sua imagem. Mas a reação mais espetacular foi a compra em 2013 dos direitos de exploração da revista “Forbes” para os mercados de língua portuguesa, pouco depois de a edição norte-americana ter publicado um artigo que questionava a forma como a empresária tinha construído a sua fortuna.

O economista José Filomeno dos Santos é o segundo filho, nascido do segundo casamento de José Eduardo dos Santos, com Maria Luísa Perdigão Abrantes. A sua ascensão a presidente do Fundo Soberano coloca-o como uma das pessoas mais poderosas do país. Tem exatamente a mesma idade (37 anos) com que o seu pai se tornou Presidente de Angola. Se José Eduardo dos Santos quiser mesmo que ele seja o seu sucessor em 2022, nesse ano terá 44 anos e uma larga experiência acumulada na gestão do Fundo Soberano.

Filomeno dos Santos tem outros dois irmãos, Welwitschia José dos Santos (Tchizé) e José Eduardo Paulino dos Santos, conhecido pelo nome artístico de Coréon Du. Os dois criaram a Semba Comunicação, que gere o canal 2 da TPA — Televisão Pública de Angola, recebendo por isso mais de 40 milhões de dólares do Orçamento do Estado. Tchizé, que é deputada pelo MPLA, abraçou recentemente um novo projeto na área bancária: o Banco Prestígio, onde detém uma quota de 30 por cento. E enquanto Isabel começou a sua fortuna a vender ovos aos oito anos, segundo a própria referiu ao “Financial Times”, Tchizé disse à revista “VIP”, em fevereiro, que “quando tinha 16 anos, comecei por organizar festas de réveillon. Organizei uma célebre festa na ilha de Luanda e lembro-me que o dinheiro líquido foi 25 mil dólares”.

Quanto aos três filhos do Presidente com a atual primeira-dama, Ana Paula dos Santos, embora mais novos, já mostram igualmente vocação para os negócios. Constituíram, juntamente com a mãe, a sociedade anónima Deana Day Spa, que é dona de um centro de beleza e estética na avenida marginal da capital angolana.

Além dos seus familiares, há um círculo muito próximo do Presidente onde se encontram as pessoas mais poderosas e endinheiradas do país: o general Kopelipa, ministro de Estado e chefe da Casa Militar da Presidência da República, Dino Fragoso, assessor do chefe da Casa Civil, e Manuel Vicente, número dois do regime, vice-presidente de Angola e o homem que ia suceder a José Eduardo dos Santos — mas que já não vai. E tudo porque José Eduardo dos Santos só tem um único sucessor: ele próprio, que fez dos versos de Agostinho Neto, o fundador e primeiro Presidente de Angola, o seu lema de vida: “Eu já não espero/ Sou aquele por quem se espera.”

Texto originalmente publicado na edição de 18 de julho da Revista E.