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A casa da força

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No Irão, há um desporto que se cruza com a identidade do país. Inscritos pela UNESCO como Património Imaterial da Humanidade, os rituais praticados nos zurkhanehs (casas da força), os mais antigos ginásios do mundo, misturam filosofia, religião e patriotismo

TEXTO TIAGO CARRASCO FOTOGRAFIAS DANIEL RODRIGUES, em Teerão

Em agosto de 1953, Kermit Roosevelt, um astuto espião da CIA, encontrou-se com um rufia musculado, conhecido por Shaban “Desmiolado” Jafari, para preparar o primeiro golpe de Estado orquestrado pelos serviços de inteligência norte-americanos no estrangeiro. A estratégia ficou definida: Jafari distribuiria notas pelo seu bando de arruaceiros, para que espalhassem o caos em Teerão e gritassem palavras de ordem a favor do xá e contra o primeiro-ministro Mohammad Mossadegh. Com os altos quadros do exército, do clero e da oposição na palma da mão e as ruas inflamadas, os EUA concretizaram o plano: depuseram o único líder democraticamente eleito da história iraniana, chamando do exílio o xá, mais cooperante com os interesses petrolíferos de Washington e Londres. Jafari seria altamente recompensado pelo êxito.

Em 1968, o wrestler campeão olímpico Gholamreza Takhti, então com 37 anos, apareceu morto num quarto de hotel. Era um herói nacional. Acérrimo apoiante de Mossadegh, foi por diversas vezes perseguido pela ditadura do xá, que chegou a proibi-lo de treinar-se no país. Além disso, demonstrava um invulgar brio ético — não atingia os adversários nos membros lesionados, oferecia-lhes presentes e chegou a pedir desculpa à mãe de um campeão russo por ter derrotado o filho. Quando um forte terramoto causou 45 mil vítimas no oeste do país, em 1962, organizou espontaneamente uma caravana de ajuda humanitária. Oficialmente, suicidou-se. Mas os iranianos não acreditam na tese. Para eles, foi assassinado pela SAVAK, a polícia secreta do xá.

Já debaixo do manto islâmico do regime dos mullahs, em 1998, o lutador norte-americano Melvin Douglas deslocou-se a Teerão para participar na maior prova do calendário desportivo iraniano: as finais do campeonato de wrestling. Pela primeira vez desde a revolução islâmica de 1979, oficiais americanos pisariam território persa, numa manobra que foi considerada como o primeiro passo na aproximação entre os dois países. “Não podia apertar a mão às mulheres, não podia ficar em tronco nu nos treinos nem tocar em temas políticos”, recorda Douglas, no documentário “A História do Irão”, da BBC. Após ter sido batido pelo iraniano Abbas Jadidi, Douglas, no pódio, foi “aconselhado” pelo adversário a erguer uma fotografia do ayatollah Ali Khamenei: “Olhei, vi que era o Líder Supremo e perguntei-lhe se me ia meter em problemas. Ele respondeu que não e eu levantei a foto. A multidão ficou em êxtase.”

Há poucos meses, o ministro dos Negócios Estrangeiros Javad Zarif recebeu o título honorário de pahlavan (campeão), tradicionalmente atribuído aos heróis de guerra e de luta, pelo seu trabalho na obtenção de um acordo nuclear com o Ocidente.

Por estranho que pareça, estes quatro acontecimentos históricos têm um denominador comum: os rituais de zurkhaneh, uma arte marcial persa com 3000 anos, que conta com 100 mil praticantes no Irão. Jafari, Takhti e Jadidi passaram todos pelo mais antigo ginásio do mundo, onde filosofia, religião e patriotismo andam de mãos dadas. Já Zarif, foi condecorado com o título dos campeões dos zurkhaneh, que mais do que reconhecer dons atléticos, enaltece valores morais.

Daniel Rodrigues

Mais do que um desporto

No zurkhaneh Shohada-ye Doolab, no sul de Teerão, a temperatura bate os 42 graus que quase derretem o asfalto das ruas. Os raios de sol que penetram através da cúpula envidraçada misturam-se com o suor condensado dos 15 atletas que enchem a arena. Os espectadores são presenteados com chá a ferver, fumegante. Custa respirar. Até as paredes pingam.

Indiferentes, os ginastas continuam a fazer exercícios que, aos olhos de qualquer forasteiro, são bizarros: erguem pesadas placas de madeira, rodopiam freneticamente, fazem malabarismos com enormes maças e uma espécie de dança com uma imponente corrente de ferro. Obedecem ao ritmo da voz e do jambé de um mestre, sentado num altar sobranceiro, que recita versos de poemas épicos. O imã Ali, patrono dos muçulmanos xiitas, retratado num monumental quadro na parede central, controla todos os movimentos. É acompanhado por uma galeria de fotografias a preto e branco, em que homens de bigodes façanhudos exibem os seus troncos maciços e barrigas proeminentes. “No Irão, o padrão de beleza masculino não contempla abdominais definidos”, explica Ayshar Mehr, de 60 anos, que assiste ao treino. “Aqui ter barriga é sinal de força e virilidade.” Na plateia, há três mulheres a apreciar as panças. O zurkhaneh é o único espetáculo desportivo que as mulheres iranianas estão autorizadas a assistir, embora sujeitas ao direito de admissão.

“Estão no ginásio mais antigo do mundo a ver movimentos que estão na génese do desporto”, diz, orgulhoso, Abbas Ghanbari, de 65 anos, praticante de varzesh-e-bastani (literalmente, “desporto antigo”) há meio século e dirigente da Federação Internacional de Desportos de Zurkhaneh (IZSF). “Todos os exercícios vêm do treino dos guerreiros do Império Persa, há quase 3000 anos, e foram transmitidos de geração em geração até aos nossos dias.” Dito isto, deita-se, pega em dois escudos de madeira, cada um com 50 quilos, e começa a elevá-los alternadamente. “Um homem pode morrer com este desporto. Mas nunca envelhece”, diz. Na arena, os homens, com bermudas justas de padrão florido, continuam a rodopiar e a louvar o amado imã. É um espetáculo de outros tempos.

Os estudiosos apontam a Pártia, uma civilização antiga no Nordeste do atual Irão, como o berço da arte marcial. A tese é corroborada pelo poeta Ferdowsi, autor do “Shahnameh” (“O Livro dos Reis”, de 977 a 1010), o mais extenso épico escrito em verso, que atribui ao herói mitológico Rustam a força desmesurada, a humildade e a bondade que constituem as bases do zurkhaneh. No imaginário deste desporto, Rustam é o primeiro pahlavan (campeão) e a referência para qualquer praticante.

“Basta olhar para os equipamentos para percebermos a analogia com as armas de guerra da Pérsia Antiga”, diz Ghanbari. “A arena é o campo de batalha, o morsheb [o ‘mestre’, que toca e canta] é o comandante, o jambé é o tambor de guerra, as placas são os escudos, os paus são as espadas e a corrente de ferro é o arco.” Nada é entregue ao acaso. Cada detalhe está enganchado a uma mensagem; a porta minúscula obriga os atletas a entrarem curvados e humildes, o ringue, um metro abaixo da superfície, reduz os gigantes à insignificância humana, o centro da arena perfeitamente alinhado com a cúpula é uma ode à harmonia entre o divino e o terreno.

Daniel Rodrigues

Quando os árabes invadiram a Pérsia, em 637, os ginásios deram refúgio e treino aos guerreiros nacionalistas, que ali exercitavam o físico e definiam estratégias de defesa. Assim que os invasores descobriam a sua localização, destruíam-nos, ávidos de apagar qualquer vestígio da civilização pré-islâmica, obrigando os rebeldes persas a mudarem-se para outro zurkhaneh.

Ghanbari tem outra tese, alicerçada na doutrina oficial da República Islamita: “Os árabes sabiam reconhecer que hábitos serviam ao Islão, e o zurkhaneh, como prática de heroísmo e humildade, adequava-se na perfeição.” Adequada ou não, a arte marcial foi obrigada a adaptar-se. Com a expansão do xiismo e, especialmente, com a introdução do sufismo — a dimensão mística do Islão —, as componentes filosóficas e espirituais da fé acabaram por ser assimiladas pelos atletas. “Ali, o Valente”, “Ali, o Misericordioso”, “Ali, o Cavalheiro”, evocam, entre exercícios. A grande corrente de ferro está decorada com imagens de santos xiitas e há gravuras de cenas de batalha do livro sagrado.

Foi já no século XIX, durante o reinado da dinastia Qajar, que os zurkhaneh chegaram à corte; no primeiro dia do No-rooz, o ano novo persa, o xá organizava um torneio nos jardins do palácio para entregar ao homem mais forte do reino o título de pahlavan. Porém, quando Reza Khan tomou o poder, apostou numa política de aproximação ao Ocidente, ignorando as tradições nacionais e religiosas. Apesar de ter adotado como nome da sua dinastia um termo do glossário dos zurkhaneh — Pahlavi —, deixou de promover a sua prática. Ainda assim, a luta sobreviveu nas cidades mais tradicionais e nos bairros pobres de Teerão. Foi aí que o escritor inglês Robert Byron tropeçou, a 11 de abril de 1934, no mais antigo e místico dos desportos orientais: “Depois, começaram a girar as maças, um homem de cada vez, com uma maça em cada mão, e cada maça era tão pesada, que eu mal a consegui levantar com as duas mãos. Seguiram-se mais exercícios só de corpo. Na sequência destes, os ginastas começaram a andar à roda, de braços esticados para os lados, e atingiam uma tal velocidade, que num deles vi distinta e simultaneamente dois perfis e a cara de frente. [...] Cada zurkhaneh funciona como um clube, sendo quase todos eles situados, como era o caso daquele, no ponto de encontro entre o bazar e os bairros residenciais, para que os homens de negócios possam fazer exercício ao voltar para casa. A quota é de três tomans por dia. Por vezes, realizam-se competições entre diferentes zurkhanehs”, escreveu, no clássico de literatura de viagens “A Estrada para Oxiana”. O que Byron ainda não sabia era o quão importante se revelaria o zurkhaneh nos anos vindouros.
Heróis e vilões

O eclipse dos ginásios não durou muito. Em 1941, o filho de Reza Pahlavi, o xá Mohammed Reza, um desportista apaixonado, subiu ao poder e voltou a promover a prática da modalidade ancestral. Nomeou como interlocutor e presidente da Federação um praticante de má fama que liderava gangues dedicados à extorsão de comerciantes em Teerão: Shaban “Desmiolado” Jafari. Como a alcunha indica, Jafari era um homem de muitos músculos, mas pouco tino. Conhecia todos os gandulos da capital e tinha pouca misericórdia para com os inimigos. “Porque as armas eram ilegais no Irão, os bandidos usavam pequenas facas com que infligiam cortes de aviso aos rivais. Mas Shaban nunca teve cuidado com a sua arma. Causava lesões sérias, quase fatais, provocando problemas com a polícia. Daí chamarem-lhe ‘Desmiolado’”, lê-se, na sua biografia.

Quando os serviços secretos americanos e britânicos começaram a conspirar o derrube de Mossadegh, que se recusava a ceder nos acordos petrolíferos com a Anglo-Iranian Oil Company e ameaçava aliar-se aos soviéticos, o “Desmiolado”, com um vasto número de ataques aos comunistas do Tudeh, foi apontado como o parceiro ideal para mobilizar as ruas contra o primeiro-ministro. Após vários meses de manifestações organizadas pelo culturista, marcadas por violência e pilhagens, foi dos zurkhaneh de Teerão que saíram as primeiras colunas de protesto no dia 15 de agosto de 1953, que culminariam na detenção de Mossadegh e no regresso do exílio do xá Mohammed Reza. “Nunca uma tribo tão exótica tinha marchado para derrubar um governo”, escreveu Stephen Kinzer, em “Os Homens do Xá”, antes de transcrever uma passagem de Ambrose, em “Ike’s Spies”: “Primeiro vinham os gigantes zurkhaneh, halterofilistas que desenvolviam os seus físicos mediante um antigo conjunto de exercícios iranianos que incluíam levantar halteres progressivamente mais pesados. Os zurkhaneh desenvolviam ombros formidáveis e enormes bíceps. Caminhando pesadamente pelas ruas, proporcionavam um espetáculo temível. Aproximadamente 200 destes halterofilistas começaram o dia a marchar pelo bazar gritando ‘Longa vida ao xá!’, enquanto dançavam e rodopiavam como dervixes. À beira da multidão, havia homens que passavam notas de dez riais [...]”. O “Desmiolado” e os seus homens encontravam-se na linha da frente, entre os militares, quando a turba alcançou a casa de Mossadegh.

Consumado o golpe, Jafari foi recompensado com a concessão de um novo ginásio, no centro da cidade, onde, além da atividade desportiva, poderia recrutar rapazes fortes e leais ao monarca para esmagar os focos de oposição. Durante 20 anos, aquele foi o bastião musculado da ditadura de Mohammed Reza.

Desde então, muitos dos esforços dos dirigentes da modalidade estão concentrados em apagar a má imagem deixada pelo “Desmiolado”. “Os homens de Jafari só entendiam a forma do que faziam, mas não o conteúdo. Não tinham identidade. Apesar de praticarem nos zurkhaneh, nunca foram aceites pelo resto da comunidade”, diz Ghanbari, sentado na bancada do velho ginásio do Desmiolado, agora remodelado e rebatizado de “Mártir Hossein Fahmideh”, em memória de um rapaz de 13 anos que se agarrou a uma granada e entrou num tanque iraquiano durante a guerra Irão-Iraque, nos anos 80, matando-se a si, aos soldados iraquianos e destruindo o veículo. É, provavelmente, o mais bonito dos 500 ginásios tradicionais existentes no país, com as paredes revestidas a azulejos, acabamentos em prata e um relevo do herói Rustam na entrada. “Graças à revolução islâmica, pertence agora a todos os iranianos”, diz Ghanbari. Jafari, à imagem do xá, viria a morrer no exílio, na Califórnia, com 85 anos.

Ironicamente, um dos maiores pesadelos do “Desmiolado” foi outro lutador formado nos zurkhaneh. Gholamreza Takhti nasceu num bairro pobre de Teerão e iniciou-se no wrestling numa arena de rua construída com a ajuda dos amigos. Nos ginásios tradicionais, absorveu o humanismo que carregou consigo até à morte, em 1968. Campeão olímpico e mundial de luta livre, conquistou uma popularidade que nenhum outro desportista iraniano teve ou viria a ter. Ainda foi condecorado “Pahlavan do ano” pelo xá, em três ocasiões, mas, no início dos anos 60, oficializou a sua posição anti-xá e a lealdade a Mossadegh, então em prisão domiciliária, tornando-se um militante destacado da Frente Nacional. O Governo suspendeu-lhe o ordenado na companhia de caminhos de ferro, proibiu-o de entrar em qualquer ringue ou ginásio e, em 1967, não o autorizou a assistir ao funeral de Mossadegh. Mesmo assim, a sua popularidade não caiu, levando o monarca a oferecer-lhe diversas regalias: um lugar no Parlamento, o papel principal num filme sobre um mítico campeão de zurkhaneh e a honra de ser porta-estandarte nos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 1964. Takhti rejeitou tudo. As causas da sua morte nunca convenceram o povo iraniano; o suicídio, mesmo levado a cabo pelos conhecidos problemas matrimoniais, não cabia nos valores religiosos e heroicos herdados do zurkhaneh, para mais quando o corpo foi encontrado na vizinhança da sede da polícia secreta.

O seu funeral transformou-se numa das maiores manifestações de sempre contra o regime e abriu caminho à ascensão do ayatollah Khomeini como líder da oposição. “Ao ignorar figuras democráticas e moderadas como Mossadegh e Takhti, o xá conduziu o povo ao fundamentalismo dos líderes xiitas, que desembocou na Revolução Islâmica”, diz o historiador H.E. Chehabi.
Em 1979, com Khomeini preparado para assaltar o poder, uma horda de islamitas e comunistas, em que se incluíam atletas de zurkhaneh, pôs o ginásio do “Desmiolado” a arder. Segundo Chehabi, a veia política dos ginásios não parou de pulsar com a revolução: “Os zurkhaneh, tais como os cafés e clubes dos bairros pobres, foram locais de eleição para os mullahs recrutarem homens para as milícias e para os Guardas da Revolução, que perseguiram os militantes seculares após a revolução”. Depois, veio a guerra contra o Iraque e os ginásios esvaziaram-se. Os que perderam a vida no conflito são hoje recordados em imagens nos zurkhaneh de todo o país.

Com a estabilidade política imposta no Irão, os velhos ginásios voltaram a dedicar-se exclusivamente ao treino do corpo e da mente, embora haja quem ainda os identifique como ninhos de desordeiros: “Nas manifestações do movimento verde, em 2009, havia homenzarrões infiltrados nos protestos, cujo objetivo era desestabilizar. Só quando a polícia investia é que percebíamos que eles estavam comprados. Pela forma como lutavam, só podiam vir dos zurkhaneh”, acusa Soraya, uma ex-estudante de Gestão, que pediu a omissão do apelido.

Uma tradição com futuro

“No passado, o zurkhaneh foi um pouco ignorado mas agora, com as ordens e recomendações do Líder Supremo, tornou-se internacional. Está em 82 países e o seu futuro está assegurado com a Universidade de Zurkhaneh”, diz Ruhollah Tour Savadkoohi, de 27 anos, atleta com 40 títulos nacionais e internacionais.

Ainda há muitos iranianos que olham para as maças e para os bigodes do zurkhaneh com desdém. “Também havia alguns atletas com o aspeto de halterofilistas e com os trajes do zurkhaneh. Esses ginásios são vistos como locais para pessoas da classe mais baixa. Os membros de um zurkhaneh são frequentemente chamados bum, laat ou chaghoo-kesh, expressões para bandido”, escreve um iraniano emigrado nos EUA, sobre um desfile organizado no dia da revolução, no blogue iranian.com. Porém, as mentalidades mudaram desde que a UNESCO elevou a modalidade a Património Imaterial da Humanidade, em 2010. “Abriu-se o ringue a crianças e jovens, as mulheres passaram a poder assistir, multiplicaram-se os torneios no Irão e lá fora e as visitas turísticas aos ginásios”, refere Abbas Ghanbari.Com o acordo nuclear e a lenta abertura do país, os responsáveis da IZSF acreditam que o turismo pode ser o motor de combustão que falta ao zurkhaneh para assumir o protagonismo de outros tempos.

E há a vertente desportiva, claro; das 35 medalhas olímpicas conquistadas pelo Irão, 34 foram ganhas nas competições de taekwondo, halterofilismo e, especialmente, luta livre. “Muitos desportistas estrangeiros não conseguem explicar as razões do sucesso iraniano”, diz Savadkoohi. “Ora, é o treino físico e espiritual do zurkhaneh que molda esses campeões”.

Cala-se o tambor e soa o gongo. O treino terminou. Os atletas agradecem aos antepassados, ao profeta e aos imãs e saltam da arena, um a um. Estão num recinto que foi o palácio da dinastia Qajar, prisão na dinastia Pahlavi e é hoje museu na era dos ayatollahs. Num país em que tudo se altera, só o zurkhaneh se mantém imutável, segurando com toda a força os pilares da história.

(Texto originalmente publicado na edição do Expresso 2252, de 24 de dezembro)