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Trump e outros insultos à inteligência

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CJ GUNTHER/EPA

2015 foi um ano em que linguagem de personalidades públicas desceu a zonas raramente navegadas. E o exemplo mais notório disso foi o milionário americano de cabelo suspeito

Luís M. Faria

Jornalista

2015 foi rico em insultos e o rei foi Donald Trump, o candidato presidencial norte-americano que já antes era um exímio vendedor de si mesmo e cuja passagem por um reality-show – “O Aprendiz” – lhe mostrou o verdadeiro potencial das afirmações escandalosas numa época em que a linguagem pública, de políticos e outros, transborda de linguagem tecnocrática e frases feitas que não dizem nada.

As piores bocas de Trump este ano foram as que dirigiu a categorias de pessoas, em especial mexicanos e muçulmanos. Aos primeiros acusou de serem assassinos e violadores (alguns são boas pessoas, ressalvou), aos segundos de serem terroristas. Em relação aos primeiros, estava em causa a política dos EUA em relação à migração ilegal. Trump tem uma solução simples: mandá-los a todos de volta, se necessário separando famílias. Além disso, quando for presidente, mandará construir um muro em toda a extensão da fronteira com o México. Conforme lembra constantemente, de construção percebe ele. O muro terá uma bela porta para os migrantes legais entrarem. A propósito, quem vai pagar o muro é o México. Há formas de o pressionar, garante Trump.

Scott Olson/Getty images

Em relação aos muçulmanos que chegam da Síria (alguns dos quais podem não ser terroristas, mas convém não arriscar), Trump também não deixaria entrar nenhuns e a lei internacional sobre refugiados que se lixe. Para Cavalos de Tróia já bastam os domésticos… De qualquer modo, com Trump os problemas no Médio Oriente depressa acabariam, pois ele aplicaria soluções rápidas e decisivas. No que respeita ao Estado Islâmico, por exemplo, faria o que Obama já devia ter feito há muito, se fosse um verdadeiro líder: matar as famílias dos terroristas. “Eu seria muito, muito firme com as famílias. Porque isso fá-los-ia pensar. Eles podem não se importar muito com as suas vidas, mas importam-se, acredite ou não, com as das suas famílias”, disse. Comparou essa medida com a cirurgia para retirar tumores do cérebro de crianças (“ninguém gosta quando recebem a notícia, mas mais tarde adoram-me”) e confirmou que não tem problemas com a morte de civis.

Enfim, civilidade é algo que ele tem dispensado na sua candidatura presidencial, e não se está a sair mal. As sondagens continuam a mantê-lo bem à frente dos seus rivais republicanos, premiando sempre o despropósito. Trump não perdoa ninguém que o confronte. Nem aos deficientes ou aos manifestantes que os seus seguranças maltratam (chegou a dizer que um deles devia ter levado uma coça, por ter sido rude). Quanto à jornalista que num debate lhe fez perguntas das quais ele não gostou, disse que estava raivosa e que lhe saía sangue do nariz e de um sítio… qualquer. Toda a gente percebeu qual era o sítio, mas Trump depois negou que fosse isso. No entanto, a misoginia continuou a aparecer e ainda recentemente disse que Hillary Clinton havia sido “schlonged” (“Schlong” é um pénis grande em calão) por Barack Obama nas eleições de 2008. Mas garante que tem uma relação fantástica com “as mulheres”, muitas das quais emprega como executivas, e aliás também com “os pretos” e outras categorias humanas que ocasionalmente se possam sentir ofendidas, aliás sem a menor razão.

Jeb Bush é, aos olhos de Trump, um “low energy”

Jeb Bush é, aos olhos de Trump, um “low energy”

Joe Raedle/Getty images

Obviamente, os alvos prioritários de Trump são os republicanos que agora competem com ele nas primárias. Citemos três exemplos entre centenas. Sobre Rick Perry, ex-governador do Texas, disse que “põe óculos para as pessoas pensarem que é esperto. As pessoas vêm através dos óculos”. Outro ex-governador, Jeb Bush, é “low energy”, baixa energia, um insulto que acerta mesmo namouche, pois garra é exatamente aquilo que falta ao ex-governador da Flórida. Ainda outro rival, por acaso um senador, é “um peso leve” e “um idiota”. E há também o insulto que serve para tudo e todos: “loser”, falhado. Trump usa-o constantemente, na net e quando fala em público. “Loser” denuncia o sistema de valores binário em que ele funciona. Na vida há os perdedores e os vencedores, e o maior destes últimos é o próprio Trump, que nasceu rico e se faz partir do nada (no caso dele, as contradições não interessam. Coerência é para falhados), construiu as casas mais fabulosas do mundo, os hotéis mais fabulosos do mundo, os casinos e os campos de golfe mais famosos do mundo…

Trump pode ser apenas um menino rico que não tem escrúpulos em relação às outras pessoas. Ou um entertainer que, no fundo ciente de que não chegará onde diz que quer, procura fazer durar o seu tempo. A questão é que nem ele sabe onde os seus despropósitos o acabarão por levar. Em todo o caso, há que ter perspetiva. Mesmo com Trump, o debate político norte-americano fica a milhas da selvajaria que em tempos foi. Há 100 ou 150 anos, não era invulgar um candidato dizer que tinha vontade de apertar o pescoço a outro, e só não o fazia porque o dito pescoço jamais era lavado. Ou prometer que, se o rival parasse de mentir sobre ele, ele pararia de dizer a verdade sobre o rival. Eram formas caracteristicamente diretas de insultar.

Por contraste, os ingleses especializaram-se num tipo de insulto refinado, de ironia subtil, em que políticos de outros países, por exemplo o nosso, raramente são exímios - e quando o são, é em privado. Dificilmente ouviríamos um deputado português dizer que ser criticado por determinado colega é como ser atacado brutalmente por um carneiro morto. Ou que, quando uma outra deputada vai do dentista, é ele que precisa de anestesia. Também nunca ouvimos ninguém definir o líder de um partido como um arrepio à procura de uma espinha, ou o líder de outro como alguém que passou de Estaline a Mr. Bean. Se calhar ainda bem que é assim, pois, sendo as nossas sensibilidades tão finas como já são, se houvesse espírito no debate político o resultado seria a confusão total. Os tribunais encher-se-iam de processos, com ou sem imunidade parlamentar, e é bem possível que os juízes e procuradores portugueses, com frequência tão criativos a descobrir que a lei afinal não diz o que ela diz, eram capazes de arranjar formas de dar volta à situação.

O nosso registo é mais parecido com os gregos: emocional, extremo, mas relativamente simples. Os banqueiros são “ladrões” e os políticos “traidores”, e uns e outros às vezes trocam. Em 2015, a Grécia levou as coisas a outro nível durante o braço de ferro com a Alemanha por causa da dívida. Se os tabloides alemães chamavam preguiçosos aos gregos, estes chamavam-lhes nazis. Giorgos Tragkas, um apresentador de rádio conhecido pela sua bombasta, chegou a pôr Merkel com o uniforme de Guantánamo e em grilhetas na capa de uma revista sua. Além disso, tentou processá-la por crimes contra a humanidade. E numa entrevista, disse: “Os nossos credores, os alemães – os nossos extorsionistas, os nossos chulos – a única coisa que não pediram ao Syriza foi que oferecêssemos as nossas primeiras filhas a algum alemão na sua noite de casamento”.

Outras guerras produziram outros despropósitos. No Irão, o responsável máximo pelo sector de energia, Ali Akbar Salehi, fez em novembro um discurso indignado no parlamento no qual acusou um deputado de prometer que lhe “deitava cimento” na cabeça e o “enterrava” numa das centrais nucleares do país. É assim que se fala aos servidores da nação?, perguntou Salehi, um dos principais responsáveis pelas negociações que levaram ao acordo internacional sobre o programa nuclear iraniano, anunciado em julho passado. A ameaça do tal deputado estava perfeitamente em consonância com o tom do debate, tanto no Irão como em Israel e até nos EUA. Referência a “genocídio”, “extermínio”, “Hitler”, muitas vezes acompanhadas por insultos pessoais, foram e são bastante usadas quando se fala desse assunto.

Ali Akbar Salehi, o responsável máximo pelo setor de energia

Ali Akbar Salehi, o responsável máximo pelo setor de energia

EUGENE HOSHIKO/ Getty Images

No Leste da Europa, o conflito mais rico em veneno foi o que opõe a Rússia e a Ucrânia (a “besta russa” e o “Putin cabeça de c…” contra os “fascistas de Kiev” e os “gays da união Europeia”). A crise dos refugiados também deu origem a declarações desagradáveis por parte de responsáveis húngaros e outros. “Estupidez” foi palavra ouvida com alguma frequência na boca de ministros e não só. O primeiro-ministro eslovaco, Robert Fico, falou de “ideia estúpida e perigosa” que era a Europa unida se o seu país fosse obrigado a aceitar uma parte dos refugiados que acorrem da Síria – nomeadamente, se isso fosse imposto sob a ameaça de reduzir as transferências de fundos europeus para as zonas mais pobres da UE. Mas o exemplo de má educação já tinha sido dado por Sigmar Gabriel, líder dos sociais-democratas alemães e ministro da economia no governo de Merkel, quando considerou “estúpida” a exigência feita pelos gregos de que lhes fosse pago o montante dos danos que a invasão nazi efetivamente causou ao seu país, não o valor simbólico que em tempos receberam. A estratégia grega não era de facto inteligente, mas a resposta de Gabriel foi insensível e revoltante.

 Robert Fico, primeiro-ministro eslovaco

Robert Fico, primeiro-ministro eslovaco

VLADIMIR SIMICEK/ Getty Images

Por cá, a principal fonte de insultos continuou a ser o futebol, com grande parte das ofensas cometidas espontaneamente nos estádios, portanto sem ficarem registadas. Mas houve alguns momentos notáveis. Entre eles, o confronto Bruno de Carvalho/Pedro Guerra, como presidente do Sporting a acusar Guerra de nem sequer ter família e este a chamar-lhe “caso de psiquiatria” e a dizer que arruinou as empresas por onde passou como gestor. A transferência de Jorge Jesus para o Sporting também deu origem a uma boa quantidade de vitríolo, e os efeitos prolongaram-se ao longo dos meses. Às tantas, Jesus respondeu a mais uma boca do seu homólogo benfiquista dizendo: “Era fácil pôr o Rui Vitória deste tamanhinho, mas não o vou fazer por respeito”. Enfim, nada que chegue à maldade de José Mourinho quando respondeu a um comentário da mulher do seu colega Rafael Benitez (a qual lembrava que o marido tinha tido que limpar a confusão deixada por Mourinho no Inter de Milão) dizendo que ela estava confusa e que o seu problema era não ter nada que fazer. Sugeria-lhe que tratasse da dieta do seu marido, para se manter ocupada…

“Era fácil pôr o Rui Vitória deste tamanhinho, mas não o vou fazer por respeito”, disse Jorge Jesus

“Era fácil pôr o Rui Vitória deste tamanhinho, mas não o vou fazer por respeito”, disse Jorge Jesus

TOLGA BOZOGLU/ EPA

Na política, as vicissitudes pós-eleitorais deram origem a provocações de vários tipos e graus, desde a “geringonça” que Paulo Portas foi buscar a Vasco Pulido Valente – uma palavra que antes do governo de Costa ele já tinha aplicado ao partido de Marinho Pinto, embora ninguém se lembre – até aos impropérios lançados a Isabel Moreira. Quando o novo Governo estava a ser negociado, houve duas manifestações opostas em frente à Assembleia da República. A deputada socialista ia a passar e foi agredida, ouviu ainda gritarem-lhe “morre, cabra” e outros impropérios.

Marcos Borga

Ao pé disso, é quase simpático o adjetivo “esganiçadas” que o economista Pedro Arroja aplicou a deputadas de esquerda numa intervenção televisiva de comicidade irresistível. E por falar em partidos de esquerda, não há como esquecer a carta pública que a ex-militante do MRPP Sandra Raimundo dirigiu ao seu antigo patrão e atual líder do partido, Arnaldo Matos. “Sarnoso”, “aldrabão” e “monte de m...” acompanham menções a “diarreia mental”, acusações variadas e um diagnóstico firme: “Não vales nada”. Mas a carta termina com um cortês “estimo que te fodas”.

Pedro Arroja

Pedro Arroja

Nessa extensão da política que às vezes os tribunais parecem, também surgiu matéria q.b. Quando José Sócrates foi preso, juízes e procuradores rejubilaram no Facebook. Embora o fizessem geralmente em grupos privados, algumas das mensagens acabaram por chegar a público e causaram algum embaraço. Chegaram a ser apresentadas queixas, rapidamente arquivadas pela PGR. Quem não se conformou foi a ex-mulher de Sócrates, Sofia Fava. Indignada com a indiferença de Joana Marques Vidal, chamou-lhe "feia, gorda, invejosa" e outros nomes piores. Admitiria depois que se havia excedido, mas manteve a sua reprovação à atitude da PGR. Esta última teria alguma dificuldade em justificar uma queixa, uma vez que ela própria menorizara as injúrias cometidas pelo mesmo exato meio - o Facebook - por colegas de profissão contra o antigo primeiro-ministro.

Que se saiba até agora, nem Fava nem os magistrados sofreram consequências penais (diretas, pelo menos) daquilo que escreveram. E a Procuradoria-Geral chegou a anunciar a criação de um "núcleo de deontologia" para "sensibilizar os procuradores" nessa matéria. Aliás, no congresso oficial da classe, que teve lugar pouco tempo depois, houve recomendações expressas para os procuradores terem cuidado com aquilo que põem nos social media. Uma coisa é exprimir os preconceitos em privado, outra é escrevê-los onde o resto do mundo poderá vir a lê-los. Vários membros da classe, de resto, já tinham avisado os seus colegas para a "bufaria" que podia andar a circular pelos tais grupos privados do Facebook...

Joana Marques Vidal foi alvo dos insultos de Sofia Fava, ex-mulher de Sócrates

Joana Marques Vidal foi alvo dos insultos de Sofia Fava, ex-mulher de Sócrates

José Caria

O affaire Sócrates produziu ainda alguns notáveis insultos do seu advogado João Araújo, por exemplo quando ele disse a uma jornalista que cheirava mal e a mandou lavar-se. Da queixa então apresentada, não temos notícia. Como não sabemos o que aconteceu à do jornalista Filipe Alves quando o marido da então ministra das Finanças, António Albuquerque, ameaçou que lhe “ia aos cornos”, além de lhe chamar, bem como ao seu diretor, “cabrões fdp”. Inadmissível? Trivialidade? De minimis non curat lex, ou não se pode permitir, de modo algum? A questão é sempre subjetiva. Mas convém ter em conta que estamos num país onde as autoridades judiciais acusam alguém – formalmente – de corrupção, e a seguir acusam de difamação – não menos formalmente – alguém que chama corrupto a esse alegado corrupto.

Enfim, pelo menos cá ninguém é preso por isso, ao contrário do que sucede em países como a Turquia, onde comparar o presidente Erdogan ao repugnante Golum do “Senhor dos Anéis” pode ser perigoso. No ano passado, um médico perdeu o emprego e foi levado a tribunal por esse motivo. Agora cabe aos juízes decidir se passa dois anos da sua vida na cadeia. E é provável que a Turquia, mais uma vez, volte a fazer companhia a Portugal na lista dos países habitualmente condenados pelo Tribunal Europeu dos Direitos do Homem. Muitas vezes, devido a um fraco entendimento da distinção entre insulto e o exercício legítimo da liberdade de expressão. Também isso já se tornou um cliché. E como tal, um insulto à nossa inteligência.