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O drama de um refugiado. “É duro estar aqui sabendo que a família corre perigo”

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MOHAMMED ABDUL AZIZ/AFP

Marwan Sur é um médico que foi obrigado a fugir da Síria depois de receber ameaças do Estado Islâmico. Diz que foi pela família que deixou o país, mas é também por ela que teme estar longe

“É duro estar aqui sabendo que a minha família corre perigo. É muito duro estar a milhares de quilómetros de distância e não poder fazer nada para protegê-los”, diz Marwan Sur (nome fictício), um pediatra que foi obrigado a fugir da Síria.

Atualmente, o médico encontra-se em Amesterdão, depois de um longo percurso desde Raqqa, cruzando a fronteira de vários países. Num testemunho ao jornal “El Mundo”, Marwan Sur relata as peripécias da viagem e os receios. “Tudo eram complicações e muito no fundo acreditava que a viagem podia acabar num fracasso e que teria de regressar à Síria.”

Na cidade turca de Emirna conta que ouviu muitas histórias de naufrágios e que sentiu medo. “Quando chegou o momento de subir aquele barco insuflável tive dificuldades em tomar a decisão. Algumas pessoas choravam, outras rezavam. Cada um tem a sua própria maneira de lidar com o medo.” Das ilhas gregas seguiu rumo à Macedónia, passando pela Sérvia.

“Durante sete dias não dormi nada. Sonhava em encontrar uma almofada para dormir, tomar banho e telefonar à minha família”. Foi então em Belgrado que comprou um cartão telefónico e ligou para a família. Conseguiu falar com a mulher e a filha, mas o filho recusou falar com ele. “Sentia que eu o tinha abandonado e não queria saber nada de mim. Partiu-me o coração”, confessou.

Marwan Sur diz que atravessou campos de milho e pagou cerca de 450 euros a um grupo de traficantes para o levarem até Viena, onde partiu num comboio rumo a Amesterdão.

Pouco depois de ter chegado à Holanda, em outubro, a mulher deu à luz outro filho. “Já o vi numa foto. É lindo”, diz emocionado.

Marwan Sur é mais um dos refugiados que se viu obrigado a fugir da Síria. Garante que só deixou o país para “porque precisava de proteger a sua vida para salvar a família” e proporcionar uma boa educação para os filhos.

Era pediatra numa clínica privada que atendia famílias com menos recursos numa das zonas mais pobres de Raqqa. Insistiu em continuar na cidade, mesmo depois do autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) ter instalado ali o seu quartel general. Mas depois foi trabalhar com os Médicos sem Fronteiras no distrito de Tal Abya.

Conta que militantes do Daesh o começaram a visitar em casa para serem atendidos. “Não me sentia muito cómodo, mas atuei de acordo com a ética médica: tratar todos os pacientes (...) Era uma esperiência aterradora para a minha família”. Entretanto, os jiadistas começaram a insistir para o médico se juntar ao único hospital contralado pelo Daesh na cidade. “Como recusei, comecei a receber ameaças constantememente. Não podia arriscar-me a continuar ali. (...) A vida em Raqqa era um autêntico pesadelo.”

Foi pela família que fugiu da Síria, mas é também por ela que teme estar longe. “Os jiadistas ameaçaram-me e tive que fugir, deixando para trás a família. Tinha que me proteger para salvar os meus filhos.”