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Rússia volta a negar morte de civis na Síria: “Os meus pilotos nunca falharam”

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Ministério da Defesa russo / Reuters

A Amnistia Internacional acusou a Rússia de ser responsável pela morte de pelo menos 200 civis na Síria, de falsificar provas para encobrir danos em edifícios civis e de, possivelmente, estar a recorrer a armas ilegais

Helena Bento

Jornalista

No início desta semana, a Amnistia Internacional acusou a Rússia de ser responsável pela morte de centenas de civis na Síria, de falsificar provas para encobrir danos em edifícios civis e de, possivelmente, estar a recorrer a armas ilegais. O Kremlin veio logo desmentir todas as acusações e este domingo foi a vez de o general Viktor Bondarev, comandante da força aérea russa, fazê-lo.

"Quero dizer, com orgulho, que os meus pilotos nunca falharam e que nunca atacaram edifícios civis, como escolas, hospitais ou mesquitas", disse o general à televisão estatal russa, sublinhando que a operação militar aérea em curso na Síria foi planeada "ao milímetro" precisamente para evitar este tipo de erros. "Preparámos as tripulações, coordenando as nossas ações com os dirigentes sírios, precisando onde poderíamos atuar e onde deveríamos atuar com cuidado", acrescentou.

Pelo menos 200 civis mortos em ataques russos

Mas não é isso que revela o relatório divulgado pela Amnistia Internacional na passada quarta-feira, dia 23. A organização humanitária investigou seis ataques que ocorreram em Homs, Idlib e Alepo, norte da Síria, entre setembro e novembro deste ano. Uma das conclusões a que chegou foi esta: pelo menos 200 civis e cerca de uma dúzia de combatentes armados morreram em ataques levados a cabo por aviões russos.

A organização humanitária tem também provas de que a Rússia falsificou provas para encobrir dois ataques aéreos que tiveram como alvos uma mesquita e um hospital. Garante ainda que Moscovo tem recorrido cada vez mais a bombas de dispersão ("cluster bombs"), proibidas por convenção internacional, e a bombas não-comandadas em áreas com alta densidade populacional e onde não é evidente a presença de alvos militares.

No mesmo dia em que o relatório foi divulgado, o Kremlin veio desmentir todas as acusações. O porta-voz do Ministério da Defesa russo disse que o relatório estava cheio de "clichés" e "informações falsas". E Viktor Ozerov, deputado que chefia o Comité de Defesa na câmara alta do Parlamento, descreveu o documento como "uma nova provocação".

Rússia é acusada de atacar civis e inimigos de Assad desde o início

Acusada desde o início de estar a atacar sobretudo inimigos do Presidente sírio Bashar al-Assad, de quem se tem dito aliada e protetora, a Rússia tem defendido que os únicos alvos que tem atingido são alvos terroristas. Mas já desde o primeiro ataque aéreo, a 30 de setembro, que lhe é atribuída a responsabilidade pela morte de civis (16 civis mortos, entre os quais duas crianças, na cidade de Talbiseh, província de Homs, uma das visadas na investigação da Amnistia Internacional).

Mais recentemente, o Observatório Sírio para os Direitos Humanos (OSDH) e ativistas do Comité de Coordenação Local do país acusaram a Rússia de ser responsável pela morte de 18 civis na cidade de Ariha, na província de Idlib, também investigada pela Amnistia. De acordo com as organizações, os bombardeamentos russos tiveram como alvos um mercado normalmente muito movimentado e três edifícios no centro da cidade. As acusações foram imediatamente desmentidas e descredibilizadas, precisamente por se tratar de informação vinda do OSDH, mas a investigação da Amnistia veio revelar que afinal morreram ainda mais civis - 49 no total - do que os inicialmente apontados.

Para chegar a estas conclusões, a organização humanitária entrevistou 16 testemunhas e sobreviventes dos ataques. Analisou vídeos e imagens dos dias que se seguiram aos bombardeamentos, e comunicados do Ministério da Defesa russo, cruzando depois as várias informações.