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Nos céus da II Guerra

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Foi aos comandos de um Spitfire que José Oulman voou sobre as praias da Normandia durante o Dia D. E foi a pilotar um “Spit” que escoltou os aviões de transporte da Operação Market Garden. Voltou ao continente em 1945, quando as tropas nazis já se retiravam para o III Reich. Vida e morte de um português amante da liberdade e irmão do homem que pôs Amália a cantar Camões

Ricardo silva e carlos guerreiro

Os dias eram chuvosos e cinzentos, as noites frias e longas. Milhões de soldados viviam os últimos meses de um conflito que arrasara a Europa e aguardavam por uma paz que tardava a chegar. Em fevereiro de 1945, a fronteira entre a Holanda e a Alemanha era um dos teatros de guerra mais ativos e linha da frente do 21º Grupo de Exércitos, uma poderosa força britânica e canadiana que iria ser determinante para acabar com o III Reich.

Na noite de 7 para 8, o corrupio dos estafetas e o crepitar dos rádios antecipavam uma noite atípica no quartel-general dos Aliados, especialmente para o general Bernard Montgomery, que ficara famoso ao comandar o 8º Exército contra o Afrika Korps e agora liderava o 21º Grupo de Exércitos numa nova ofensiva contra as forças nazis. O seu objetivo passava por quebrar a resistência alemã na fronteira e avançar em direção ao Ruhr, o coração industrial do III Reich, começando a “Operation Veritable” pelas três da madrugada com um brutal bombardeamento que transformou a noite em dia. Milhares de obuses, canhões, antitanques e morteiros (armas de todos os tamanhos e calibres), abriram um fogo devastador e ininterrupto que se abateu como um dilúvio sobre as defesas alemãs. No espaço de apenas quatro horas, meio milhão de disparos saturaram a linha da frente de explosivos e nivelaram batalhões inteiros sob os escombros das suas trincheiras e bunkers. Quando, pelas 7h20, o fogo de artilharia cessou, foi a vez da aviação aliada atacar em força.

A 2ª Força Aérea Tática tinha como missão apoiar a infantaria britânica e canadiana no seu avanço, e com os primeiros raios de sol o céu encheu-se de caças e bombardeiros em busca de presas. No aeródromo de Schijndel, os pilotos do 345º esquadrão também aguardavam com ansiedade pela hora de levantar voo. Era uma unidade da RAF composta por franceses, e durante as últimas semanas foram várias as ocasiões em que a meteorologia manteve em terra os seus aviões. Naquele dia seria diferente. Um a um, os caças levantaram voo e os pilotos franceses preparam-se para os perigos que se avizinhavam. No entanto, nem todos tinham nascido em terras gaulesas. Um jovem sargento chamado José Oulman tinha nascido a milhares de quilómetros de distância, em Portugal, onde a sua família aguardava com ansiedade pelo seu retorno.

UMA INFÂNCIA NOS ARREDORES DE LISBOA

“Ele tinha muito charme, um sorriso lindo e olhos muito bonitos. Andava sempre atrás das minhas amigas e namorou-as todas. Era muito atiradiço.” Recorda a rir Heléne Mesquitela, a irmã mais velha de José Fernand Oulman, que passou a infância e adolescência na Quinta de São Mateus, no Dafundo. José era o segundo de quatro irmãos e foi o primeiro dos Oulman a nascer em Lisboa, no dia 1 de dezembro de 1922. Era franzino, mas muito ativo e um desportista empenhado. Jogava hóquei em patins, fazia corridas, e sempre que podia ia com os irmãos até às praias de Caxias ou do Dafundo para nadar. Nesses passeios eram acompanhados por precetoras que o pai, Albert Bensaúde Oulman, fazia questão de recrutar entre a comunidade britânica. “Em casa sempre falámos inglês, por causa das precetoras, e francês, que era a língua da família. Com as criadas aprendemos o português. Elas eram nove em casa e duas estavam dedicadas a nós, as crianças”, explica Heléne que, com 95 anos, ainda mantém um sotaque afrancesado.

Albert era um homem de negócios hábil e pragmático, que via em José o herdeiro natural dos negócios da família e mantinha com ele uma ligação muito próxima, o que nunca aconteceu com o irmão mais novo, Alain. Este último era o bebé da família e o preferido da mãe, Nicole Calmann Levy Oulman, nascida no seio de uma importante família parisiense ligada ao mundo editorial e das artes. Os quatro filhos do casal Oulman — Heléne, José, France e Alain — viviam num ambiente confortável e estimulante, entre a família do pai, os Bensaúde, que estavam ligados a diversos tipos de negócios em Portugal, e os Calmann Levy de Paris, nome que ainda hoje é chancela de uma das grandes editoras francesas. “Todos os anos íamos passar três meses com o avô em Paris”, relembra Heléne, que guarda a memória das noites dormidas no comboio Sud-Express. “Íamos sempre com a mãe e uma ama. O avô tinha uma casa muito bonita ao pé do Arco do Triunfo, um edifício com porteira.” O pai, Albert, ficava em Portugal a tratar de negócios, e longe do sogro com o qual mantinha uma relação difícil.

José estreitou os laços com França através da família e dos estudos. Depois de passar pelo Liceu Francês de Lisboa, no Palácio Braancamp, seguiu para um colégio particular perto de Versalhes. Na École de Montcel revelou-se um excelente aluno e, em cartas trocadas com o pai — que chama carinhosamente de “Bicou” —, o jovem estudante dá conta dos seus triunfos académicos: É o melhor aluno do seu ano em alemão, geografia e história; o segundo melhor nos ditados, literatura e cálculo e apenas em gramática atingiu notas mais frouxas.

Voluntário. José Oulman numa fotografia de época com a farda de piloto da Royal Air Force

Voluntário. José Oulman numa fotografia de época com a farda de piloto da Royal Air Force

O anúncio da guerra apanhou José em Portugal e a declaração de neutralidade de Salazar ajudou a tranquilizar os Oulman, mas a invasão da França, em maio de 1940, deixou todos atónitos. “Foi um choque e um horror. Ninguém acreditava que a França se rendesse, ainda menos que isso acontecesse tão depressa”, lastima Heléne que se lembra de ver os pais muito preocupados, pois temia-se pelo destino dos familiares que viviam naquele país. Muitos não eram religiosos praticantes, mas também não escondiam as raízes judaicas, ficando à mercê de Hitler e da sua política antissemita. “Grande parte dos Calmann Levy, tal como outros ramos da nossa família, desapareceram em Auschwitz e noutros campos, mas só no final da guerra foi possível perceber o que se tinha passado”, explica José Oulman Carp, filho de Heléne e um dos líderes da comunidade israelita em Lisboa. Gaston Calmann Levy, pai de Nicole, foi um dos raros sobreviventes e a estrela amarela que usou durante o período nazi é guardada, ainda hoje, com todo o cuidado.

A RESISTÊNCIA AO NAZISMO

“O meu avô Albert tinha um profundo sentido do dever e sempre nos sentimos portugueses e franceses. A invasão alemã marcou-os muito”, salienta José Carp. O jovem José Oulman também não ficou indiferente à ocupação da França e ouviu atentamente o discurso de De Gaulle, emitido pela BBC de Londres a 18 de julho de 1940, e o seu apelo à resistência. Decidiu seguir o coração. Em novembro de 1941 os pais deram pela falta dele e, durante semanas, não souberam o que lhe tinha acontecido. Numa carta que o pai recebeu dele, enviada de Inglaterra, José revelava que se tinha oferecido como voluntário para as Forças Francesas Livres e que iria fazer o curso de piloto. Como milhares de franceses que queriam evitar retaliações alemãs sobre a família, inscreveu-se sob pseudónimo: Jean Savoyard.

A irmã France Oulman, que se juntaria em 1943 às WAAF (o ramo feminino da RAF), assegura que ele viajou como clandestino até Gibraltar onde se voluntariou para combater. Não terá sido o único a sair de Lisboa com esse objetivo, pois ela recorda o convívio com um grupo onde todos tinham raízes em Portugal. Ela identifica-os como sendo um português chamado Mendes, um britânico de nome “Lance” Rawes e um tal Bouduet, de origem belga. O primeiro poderá ser Georges Mendes, que surge referido em diferentes locais como tendo nascido em França e que também se voluntariou em Gibraltar em janeiro de 1942. Na ficha de inscrição registou-se com o pseudónimo Souza Carneiro e fez parte do mesmo esquadrão de José. “Lance” é certamente Douglas Albert Rawes, um piloto da RAF nascido numa família britânica residente em Portugal, e que recebeu durante a guerra a Distinguished Flying Cross (DFC), uma das mais altas condecorações da aviação britânica.

Chegado a Inglaterra, José foi transferido para o Canadá, que funcionou como o “Aeródromo da Democracia”, graças a um programa de treino implantado com o acordo de todos os países da Commonwealth, e a meio do ano de 1943, o aspirante Oulman já estava de regresso a Inglaterra, certamente para realizar a última fase da formação como piloto de caça numa Unidade de Treino Operacional. Entre 1941 e 1943, José assistiu a enormes mudanças no curso da guerra. Os EUA entraram no conflito e, em finais de 1942, lideraram a operação “Torch”, da qual resultou a invasão de Marrocos e da Argélia, colónias francesas sob tutela do governo colaboracionista de Vichy. As tropas que defendiam os territórios mal esboçaram uma defesa e juntaram-se aos Aliados. A proximidade de um território livre e francês desencadeou uma nova vaga de refugiados que tentavam chegar a Gibraltar ou atravessar o Mediterrâneo em direção ao Norte de África.

Espanha não via tantos estrangeiros dentro das suas fronteiras desde a primavera e verão de 1940, mas agora tratava-se de jovens que queriam combater, e o generalíssimo Franco estava sob intensa pressão dos Aliados para permitir a sua passagem para o Norte de África. As negociações também envolvem Salazar, que permite a utilização de um porto nacional para a operação. Os britânicos sugerem Lisboa, mas os portugueses não querem expor-se em demasia e disponibilizam Setúbal, onde pelo menos duas ações deste tipo tiveram lugar em 1943. Perante o número crescente dos que atravessam os Pirenéus, Franco permite que os transportes seguintes utilizem portos espanhóis e em novembro há registo de duas viagens com saída de Málaga, uma a 16 e outra a 29. Os cargueiros “Gouverneur Général Lépine” e “Sidi Brahim” asseguram a ligação com o Norte de África, trazendo em cada uma das viagens entre 1200 e 1500 passageiros. Entre os que desembarcam no cais de Casablanca há vários pilotos da antiga aeronáutica militar francesa, que são reunidos de imediato para formar o núcleo inicial do Grupo Berry, que fica oficialmente constituído a 16 de janeiro de 1944. José Oulman provavelmente não sabia, mas estas movimentações tão longe de Inglaterra vão ter influência direta no seu futuro.

DO NORTE DE ÁFRICA À NORMANDIA

A 28 de janeiro de 1944 os homens do Grupo Berry formaram pela última vez em solo africano, marchando de seguida até aos molhes do porto de Argel, onde se depararam com um belo paquete transformado em transporte de tropas: o “Strathmore”. Na viagem que se seguiu navegaram através do Mediterrâneo e do Atlântico, até desembarcarem no porto de Liverpool, para iniciarem uma nova fase das vidas. Iriam voar em caças britânicos como 345º Esquadrão da RAF. Aos recém-chegados de África juntaram-se os pilotos que já estavam em terras de sua majestade, como José Oulman, e durante os meses seguintes treinaram até dominarem os míticos caças Spitfire com que iriam combater o inimigo.

As peripécias vividas em terras de sua majestade multiplicaram-se com o passar dos dias, e José, fiel à sua personalidade divertida e irreverente, destacou-se rapidamente. Um belo dia surgiu na base ao volante de um carro ao qual chamou de “Lullabelle” e que rapidamente encheu de inveja os outros pilotos. Os mecânicos não ficaram tão convencidos das suas qualidades e, entre sorrisos, diziam que estava “cheio de bicho”.

Em finais de abril, o esquadrão é considerado operacional e transferido para o Sul de Inglaterra, começando a fazer as primeiras patrulhas no mês seguinte. O 345º esquadrão chegava a tempo de testemunhar o momento mais ansiado pelos Aliados: o desembarque na Normandia e o princípio da libertação de França. No entanto, a alegria inicial foi rapidamente abalada por uma série de perdas. No dia 6 de junho, o Dia D, eram dez da manhã quando o tenente Joubert sentiu o motor do seu avião parar. Um camarada ainda o viu descer por entre as nuvens e acreditou que ele tinha saltado sobre as águas do Canal da Mancha, mas o passar das horas tornou claro que não tornariam a ver o experiente e popular piloto.

No dia seguinte, uma dúzia de Spitfire voltou a voar sobre a praia Utah para proteger os soldados norte-americanos, e José estava entre eles, aterrando pelas 6h50 após uma missão sem incidentes. Ainda não eram 9h e já outras três secções levantavam voo para continuar a patrulhas, havendo entre os pilotos um novato, o sargento Autret. Ao sobrevoarem uma posição inimiga atraíram a atenção da Flak, a temível artilharia antiaérea alemã, e o sargento Autret teve o infortúnio de ser atingido. Como o Spitfire voava demasiado baixo para tentar saltar de paraquedas, só lhe restou tentar aterrar o avião onde encontrasse uma clareira. Fruto da inexperiência, ou do desespero, esqueceu-se de fazer algo fundamental: largar o depósito de combustível que trazia debaixo da fuselagem, que ao tocar no solo transformou o caça numa bola de fogo e o seu piloto numa tocha humana. Terminava assim a primeira e última missão do sargento Autret. No dia 8 foi a vez do caça pilotado pelo sargento Bonjean sofrer uma paragem de motor e despenhar-se nas águas do Canal da Mancha: três mortos, em apenas três dias.

Julho foi outro mês sangrento. O tenente Dop tombou quando o seu avião foi abatido pela Flak, no dia 10, e o sargento Mendes — do grupo de portugueses de Oulman — desapareceu após sofrer de uma avaria de motor, 12 dias mais tarde. A guerra nos céus continuava a cobrar vítimas e José testemunhou muitas mortes, não só dos seus companheiros mas também dos tripulantes dos bombardeiros que escoltavam. Foi ainda testemunha de momentos históricos, como no dia 19 de setembro de 1944, quando todo o esquadrão foi destacado para escoltar a enorme armada de aviões Dakota que transportava as divisões paraquedistas que saltaram sobre Arnhem, na famosa (e desastrosa) Operação Market Garden.

O CREPÚSCULO DO III REICH

Dia 1 de novembro, pelas quatro da tarde, três Dakotas aterram em Courtrai, na Bélgica, numa pista ladeada por carcaças de aviões nazis. A bordo seguiam os homens do 345º esquadrão, provavelmente entusiasmados com o retorno ao continente e desejosos de ajudar na sua libertação. As missões de ataque ao solo foram-se sucedendo e, a 19 desse mês, o sargento Oulman levantou voo para mais uma missão. O alvo era a infantaria alemã aquartelada numas quintas em Dunquerque, e cada caça levava uma bomba de 500 libras. Os Spitfire atacaram a alta velocidade e a baixa altitude, mas ficou rapidamente claro que esta não ia ser uma missão como as outras. A Flak era demasiado potente e o avião de José Oulman foi atingido, mas ainda assim continuou o ataque com grande audácia e bravura, um feito que lhe valeu a cruz de guerra com palma. Menor sorte teve um dos seus camaradas, cujo aparelho ficou descontrolado ao ser atingido e chocou contra outro caça. Mais duas mortes a acrescentar à lista.

A entrada em 1945 trouxe consigo a esperança do fim da guerra, mas ainda restavam muitas missões pela frente. A 6 de fevereiro, o esquadrão levantou voo para mais uma operação e no retorno aterrou naquela que seria a sua casa durante os próximos tempos: o aeródromo de Schijndel. A chuva manteve o esquadrão em terra no dia seguinte, mas a noite de 7 para 8 foi perturbada pelo intenso bombardeamento de artilharia da nova ofensiva do 21º Grupo de Exércitos. O dia ia ser longo. Às 8h40 levantou voo a secção vermelha, seguindo-se a secção amarela às 9h05, liderada pelo capitão Kerourio, e mais tarde a secção azul. Os aviões juntaram-se à enorme armada aliada que enchia os céus da Holanda e Oulman foi um dos pilotos que aguardou pelo retorno dos seus camaradas. Um a um, os caças regressaram à pista improvisada, mas o entusiasmo da partida foi substituído pelo desalento da chegada: faltava o capitão Kerourio. O almoço deve ter sido num ambiente taciturno, mas lá fora a batalha continuava intensa e era necessário continuar a lutar. Pelas 13h55 levantaram voo os caças da secção vermelha e, às 14h25, o sargento Oulman entrou em ação com a secção amarela. Meia hora depois já procurava alvos, e não foi preciso procurar muito. Na estrada de Rosendael, uma coluna de camiões alemães arrastava-se nas proximidades de Arnhem, e José lançou-se sobre o alvo. Enquanto se concentrava em metralhar as viaturas, a Flak atingiu o seu avião quando voava a baixa altitude e o desfecho trágico foi inevitável. O embate destruiu o avião e o corpo do malogrado piloto ficou entre os destroços, acabando sepultado no cemitério inglês da Floresta de Reichswald. Em Portugal, a notícia da sua morte deixou a família devastada, especialmente o pai. Albert, um fumador inveterado, tinha interrompido o vício em novembro de 1941, assegurando que só voltaria a acender um cigarro quando o filho voltasse. Sem regresso possível, manteve a promessa, talvez como penitência, até ao fim da vida. Separada pela guerra, a família acabou por se juntar na morte. José foi transladado para um jazigo de família no cemitério Père Lachaise, em Paris, onde hoje se encontra junto dos pais e do irmão Alain.