Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

O czar da Rússia

  • 333

Platon

Há 15 anos que Vladimir Putin habita o Kremlin. Pratica um poder vertical, investe no novo orgulho da pátria russa. A sua popularidade está em alta, a propaganda não vacila. Quem manda e protege está em Moscovo. Os inimigos situam-se para lá das fronteiras. O antigo espião nascido em São Petersburgo quer ver a Rússia no altar das potências internacionais

Cândida Pinto, em Moscovo

O dia dará as suas próprias explicações. A segurança ainda é um hábito e um mercado próspero numa cidade que já congregou a maior comunidade de milionários do mundo. A agitação dos bandos de seguranças chama muitas vezes a atenção para alguém que sai rapidamente de um carro e desaparece dentro de um prédio. Sem rasto.

A rua do Hotel Budapeste está escura e silenciosa. Subitamente, ouve-se, na noite, o relinchar de cavalos. Depois, o eco de patas no asfalto. As silhuetas vão ficando mais definidas, até que se percebe o contorno de dois cavalos montados por raparigas. Estamos no centro de Moscovo, a escassos quarteirões do Teatro Bolshoi. À porta do hotel ficam sempre estacionados carros com vidros escuros. Num dos carros é descido o vidro elétrico e vê-se um homem sentado ao volante. Ele faz subir o vidro escuro, liga o motor, avança dez metros e para de novo junto ao passeio. Não há palavras, nem nada mais. Faz parte da rotina: carros com vidros fumados, motoristas e seguranças lá dentro, no centro da cidade. Mas a Moscovo de 2015 não evidencia sinais de insegurança para o cidadão comum. Isso faz parte do passado recente, da década de 90, quando as máfias semeavam medos e algo estava prestes a acontecer.

Nesses dias há uma cara nova a aproximar-se das cúpulas douradas do Kremlin. Vladimir Putin vai entrar com estrondo no centro do poder de Moscovo para mudar o curso da História russa. Vem de São Petersburgo, a cidade que o viu nascer, ainda Leninegrado. A família humilde sobreviveu aos 900 dias do cerco durante a Segunda Guerra Mundial. O pai, Vladimir, ficou ferido na linha da frente no combate aos nazis. A mãe, Maria, trabalhava numa fábrica. Já tinham perdido dois filhos pequenos quando passam a viver no nº 12 da Rua Bashkov, onde nasce Vladimir Vladimorovitch Putin, a 7 de outubro de 1952. O regime soviético facilitava condições para os trabalhadores viverem em apartamentos comunitários, com várias famílias a partilharem o mesmo teto, sem água, sem luz, nem casa de banho.

Hoje, a Rua Bashkov não mostra qualquer sinal da desolação do pós-guerra. É uma rua pacata, reconstruída, de prédios cor de rosa, onde nada indica que ali nasceu o atual Presidente da Federação Russa. Fica longe da exuberância da São Petersburgo imperial, do Palácio de Inverno, no Hermitage, que foi residência dos Czares ao longo de 300 anos.

Na imensa Praça do Palácio verde e branco, junto ao rio Neva, circulam os turistas, chineses em maior número do que ocidentais, que alugam réplicas de coches reais estacionados à porta do Hermitage. A herança da Rússia imperial inspira a mente de Vladimir Putin, que na sua primeira visita a Portugal, em 2004, deixou claro: “Só queria recordar o que o Czar Alexandre III dizia: ‘A Rússia só tem dois aliados, o Exército e a Armada.’” Entre o irritado e o aborrecido, Putin respondia assim às perguntas sobre uma crise política que se vivia na Ucrânia. Mas fez questão de lembrar, na altura a Jorge Sampaio, a histórica distância entre Lisboa e Moscovo: “Como acabei de dizer ao Senhor Presidente, resta-nos lamentar que tenhamos visitado Portugal tão poucas vezes, sendo esta a primeira desde 1779.” A visita foi acompanhada de perto por Manuel Marcelo Curto, na altura embaixador de Portugal em Moscovo. Conhecedor da língua e da cultura russas, este vê em Putin “o autocrata esclarecido que sempre me lembrou o imperador Nicolau I”.

Nesse mesmo ano, José Manuel Durão Barroso iniciava funções como presidente da Comissão Europeia. Ao longo dos dez anos em Bruxelas, Vladimir Putin foi o líder não europeu com quem teve mais contactos, formais e informais. Foram mais de 25 reuniões, algumas muito longas, quase tête-à-tête, mas também ao nível do G8 e do G20. “Cheguei a ir jantar na datcha dele, nos arredores de Moscovo.” O prolongado contacto permitiu a Durão Barroso detetar as diferentes atitudes de Vladimir Putin consoante as circunstâncias. “Num ambiente informal, procura ser simpático, ter humor, faz conversa quebra-gelo, é capaz de falar de futebol ou de contar uma anedota. Como anfitrião, recebia muito bem, pôs-nos sempre à vontade. Mas quando quer afirmar posições políticas não hesita em fazê-lo de forma dura, firme, cáustico e irónico, até agressivo. No estilo, corresponde a essa imagem fria, implacável, que ele cultiva.”

DR

Mente ágil e memória poderosa são traços do miúdo Putin, que cresce na rua, nos anos 50, nas entranhas de uma desfigurada Leninegrado, a braços com os escombros de um conflito que deixara por terra cerca de 800 mil mortos. É rebelde, envolve-se em pancadaria com os rufias do bairro, perde consecutivamente as primeiras aulas da manhã. A mãe inquietava-se com o filho, que gostava de filmes de espiões e queria ser marinheiro ou piloto. A experiência de rua leva-o a interessar-se pelo sambo, uma arte marcial soviética, e depois segue no judo até tornar-se cinturão negro.

Aliás, o desporto foi um interesse constante, paralelo à licenciatura em Direito na Universidade de São Petersburgo. “Ele era uma pessoa sem história, que passava despercebido”, conta Anna, uma conterrânea que não morre de amores pelo Presidente. Esse era o interesse dele, tornar-se invisível, ao escolher como local de trabalho The Big House, a sede do KGB em São Petersburgo, como espião. As pesadas portas de madeira do edifício compacto são hoje cruzadas por gente que mantém o mesmo ofício. “Para o KGB eram admitidos os melhores entre os melhores, aliás dizia-se que os primeiros vão para o KGB e os outros, logo a seguir, seguem para o corpo diplomático”, sublinha Manuel Marcelo Curto, que passou largos períodos em Moscovo nos anos 70, 80 e 90 do século passado e na primeira década de 2000.

CHEGADA AO PODER

Muito antes, a cidade de São Petersburgo foi habitada por Fiódor Dostoiévski, que saltava de apartamento em apartamento por falta de dinheiro, numa zona junto ao mercado. Por ali recolheu moradas verdadeiras para incluir no seu “Crime e Castigo”. Na capital cultural da Rússia, o jovem espião Putin conhece numa noite de teatro uma hospedeira da Aeroflot, Ludmilla, com quem casa em 1983. Vivem-se os anos cinzentos da Guerra Fria, ele aprende alemão, especializa-se em contrainteligência e é enviado para o gabinete soviético dos serviços secretos em Dresden, na Alemanha Oriental, em 1985, com responsabilidades no serviço de fronteiras. Segue com a mulher e a primeira filha, Maria, e um ano depois nasce a segunda filha, Katerina.

A queda do Muro de Berlim em 1989 esvazia-lhe as funções, e em 1990 é forçado a regressar a casa, a São Petersburgo, com a sua jovem família. À medida que testemunha o colapso da União Soviética, percebe que há oportunidades para se envolver na política. Torna-se conselheiro do presidente da Câmara da cidade na área das relações internacionais. Mas quer voar mais alto e muda-se para Moscovo em 1996. Dois anos depois tem por missão reorganizar o KGB, modernizar a polícia secreta, fazer a transição para o FSB, Serviço Federal de Segurança da Federação Russa, que passa a dirigir. “Quando desaparece o Partido Comunista da União Soviética e a sua estrutura, que era quem mandava na Rússia, o Estado colapsa”, recorda Manuel Marcelo Curto. “As estruturas são mantidas pelos serviços de segurança.”

Ao longo dos anos 90, a Rússia sofre o choque da passagem de uma economia centralizada controlada pelo Estado para o capitalismo selvagem. Instala-se uma grave crise, com o desemprego e a inflação a subirem em flecha. Os preços dos bens disparavam da noite para o dia. 35% dos russos enfrentam uma severa pobreza, instala-se uma violência urbana protagonizada por máfias, os oligarcas criam impérios a partir do saque da economia. O Ocidente passa a olhar para a Rússia como uma potência pobre, domesticada. “Houve da parte dos Estados Unidos humilhações desnecessárias à Rússia depois do colapso da União Soviética. Não se deve humilhar fracos, muito menos quando foram fortes. É muito arriscado”, considera Durão Barroso, para quem “a Rússia tem falhado sistematicamente nos encontros com a modernidade, apesar de ter grandes potencialidades, um povo com uma resiliência notável e ter dado ao mundo grandes criadores na arte e na ciência”. Numa pequena sala de Moscovo, o antigo general Leonid Ivashov, atual presidente da Academia de Estudos Geopolíticos, é pragmático: “Eu sei que temos amigos no Ocidente, mas em geral os nossos Estados são geopoliticamente concorrentes. O Ocidente sempre viu na Rússia a origem do mal.”

IMAGEM. A propaganda é uma arma decisiva na estratégia de Putin

IMAGEM. A propaganda é uma arma decisiva na estratégia de Putin

DMITRY ASTAKHOV/AFP/Getty Images

Nas cinzas de uma década de caos social e corrupção generalizada, o então Presidente Boris Ieltsin chama Vladimir Putin ao Kremlin e faz dele primeiro-ministro no verão de 1999. Mas inesperadamente, no último dia do século XX, Ieltsin demite-se e passa as funções de Presidente da Federação Russa ao antigo espião. “Vi Putin pela primeira vez na televisão no Ano Novo. Ele sentou-se à beirinha da cadeira, como se estivesse ali apenas por um minutinho. Falou de uma forma tímida, baixava os olhos, mas eu apercebi-me imediatamente de que ele estava ali para ficar para sempre.” Desde a infância que Margarita Sharapova sabe reconhecer este tipo de pessoas, já que é filha de antigos agentes do KGB. “Até fiquei um bocadinho contente, porque era alguém que vinha de um ambiente que me era familiar.” Mas a opinião da escritora Margarita Sharapova mudou radicalmente. “Putin é o Führer do novo tempo e anseia colocar o planeta a seus pés.” Entretanto, Margarita teve de sair da Rússia e vive agora exilada em Portugal.

Hoje, Putin enfrenta uma crise económica, a fazer lembrar a que existia no país quando, na primavera de 2000, entra solenemente pelas portas douradas do Salão São Jorge, no Grande Palácio do Kremlin, erguido por Nicolau I, para tomar posse, pela primeira vez, como Presidente da Federação Russa, depois de vencer as eleições de março. Então, levantam-se todas as interrogações sobre quem era Putin, quer dentro da extensa Rússia quer no resto do mundo.

Garry Kasparov era profissional de xadrez e ainda vivia em Moscovo. “Não tive reação imediata, só depois vi as suas primeiras ações para tentar restaurar a grandeza russa.” Kasparov acaba por abandonar o país, deixar o xadrez e dedicar-se à política e à escrita. “Eu nasci e cresci na URSS, fui provavelmente o atleta soviético com mais medalhas de ouro em Jogos Olímpicos e Campeonatos do Mundo, mas percebi que ficar na Rússia com as minhas ideias políticas e com a oposição à ditadura de Putin poderia ser muito perigoso.” Kasparov viu tombar um dos melhores amigos, o político Boris Nemtsov, com quatro tiros nas costas, junto ao Kremlin, em fevereiro de 2015.

GUERRA AOS MEDIA

No início deste século, embalado pelo aumento do preço do petróleo, Vladimir Putin opta por começar a estabilizar o país, concentrando o poder em si próprio. Mostra aos oligarcas quem manda e desfaz a companhia petrolífera Yukos, liderada por Mikhail Khodorkovski. Ele era um dos homens mais ricos da Rússia, mas é acusado de fraude e condenado a dez anos de prisão. Acaba por sair do país e hoje vive exilado na Suíça. “Os apoiantes de Putin consideram Kasparov e Khodorkovski traidores, pessoas pouco dignas de ficarem no país. Os restantes russos admitem que ambos tiveram razões para sair, porque aqui em Moscovo estavam a ser alvo de ameaças”, diz Rinat Valliulin.

O jornalista, tal como a mulher Ksenia Larina, trabalha na rádio Echo de Moscovo há 25 anos. Pelos estúdios já passaram vozes tão distintas como Bill Clinton, Angela Merkel, Benjamin Netanyahu, Liza Minelli e o próprio Vladimir Putin. Aliás, ao longo do extenso corredor da rádio, a vasta galeria de retratos é disso testemunho. “A primeira coisa que Putin fez, ao chegar ao poder, foi declarar guerra aos órgãos de informação independentes”, sublinha Ksenia. Eles têm sentido na pele uma pressão cada vez maior, que passa por “um nível de propaganda sem precedentes. Nós somos pessoas nascidas na era soviética e nem nesses tempos aconteciam estas coisas”. As ameaças de morte aos jornalistas são uma constante.

Sempre que a Rússia se envolve numa ação militar, os jornalistas são alvo de maior escrutínio. Quando Putin chega ao Kremlin, lança-se de imediato numa ofensiva contra os separatistas da Tchetchénia, como se acreditasse que o seu poder e a paz interna pudessem alimentar-se de um conflito no exterior. “Nós últimos 15 anos construímos um sistema em que 140 milhões de russos dependem da vontade de uma única pessoa. Se ele quer começar uma guerra na Síria, avança, se quer avançar para a Ucrânia, segue o seu rumo. Ninguém o impede.” O jornalista Roman Anin solta estas palavras depois de mil desculpas pelo atraso no encontro que tínhamos marcado.

Entrar no “Novaya Gazeta” é uma experiência. Há toda a envolvência de resistência ao regime. Na entrada do prédio onde está instalado o jornal há um alto-relevo na parede com o rosto de uma mulher de óculos e flores frescas. Anna Politkovskaya, a jornalista do alto-relevo, andou por aqui, pelos corredores frios e despojados. Na pior altura da guerra na Tchetchénia abundavam as ameaças. Chegaram a tentar impedi-la de continuar a viajar para as zonas de conflito, mas nunca desistiu, até que a mataram, não no campo de batalha.

A 7 de outubro de 2006, dia em que Putin fazia 54 anos, Anna Politkovskaya chegava a casa, em Moscovo, ao fim do dia, quando foi alvejada. No “Novaya Gazeta” há uma vitrina repleta de memórias e troféus, muitos deles de Politkovskaya. Ela mudou a vida de Roman Anin, que atualmente, com 28 anos, se tornou editor de investigação no jornal. Quando se cruzava com Anna Politkovskaya era jornalista de desporto. O jornal vive com grandes dificuldades. A propriedade é detida em 76% pelos próprios jornalistas, em 14% por um banqueiro e em 10% por Mikhail Gorbachev. Mantêm o rumo da investigação, e Roman Anin tem explicações para a sobrevivência da “Novaya Gazeta”, seja porque “o Kremlin quer ter feedback de outras zonas da sociedade ou porque, quando surgem críticas sobre a falta de liberdade de expressão, a ‘Novaya Gazeta’ é uma ótima bandeira para ser exibida, é um trunfo para mostrar ao Ocidente”.

ORGULHO RUSSO

O comboio de alta velocidade entre Moscovo e São Petersburgo dá por algumas horas uma pequena noção de um país que se estende por dois continentes, Europa e Ásia. A Rússia é o país mais vasto do mundo, atravessa nove fusos horários e está repleto de contrastes. A realidade das duas grandes cidades é muito diferente da da província, onde as oportunidades são menores, as condições de vida mais duras,o nível de vida mais baixo.

Mas o poder de Putin faz-se sentir de forma vertical. Ao longo dos primeiros dois mandatos consegue subir os salários, aumentar o nível de vida. Em 2008, por imperativos constitucionais, passa a primeiro-ministro e faz subir um seu aliado, Dmitri Medvedev, a Presidente da Federação Russa. Mas em 2012 regressa ao Salão São Jorge do Kremlin para, perante milhares de convidados, tomar de novo posse como Presidente. A coreografia repete-se. Putin apresenta-se como um homem só, com um poder que é para ser exercido sem limites, único. O Czar. Tem a bênção da Igreja Ortodoxa Russa, que voltou a servir o desígnio da grande pátria, a popularidade em alta e uma vaga patriótica de novo orgulho na nação russa. Mas a moldura não enquadra a família. A primeira-dama não tem lugar na nova Rússia, tal como não tinha na URSS. Aliás, a vida privada de Putin é segredo de Estado que alimenta os mais variados rumores.

Em 2008, falou-se de uma ligação com uma ginasta olímpica medalhada, Alina Kabaeva. O caso foi desmentido pelo próprio numa villa italiana durante uma conferência de imprensa ao lado de Silvio Berlusconi. Na altura, fez rasgados elogios à beleza das mulheres russas, mas deixou claro que a vida privada era um limite inultrapassável. Aliás, o jornal russo que ousou colocar a questão foi pouco depois encerrado por alegadas dificuldades financeiras. O tabu de um casamento moribundo só foi quebrado em junho de 2013. Ludmilla Putina surge ao lado do marido, em Moscovo, para assistir ao bailado “La Esmeralda”. No final do primeiro ato são questionados pela televisão estatal sobre os rumores de que não vivem juntos, dadas as escassas aparições públicas. Vladimir Putin admite que há uma decisão conjunta, e Ludmilla acrescenta que o casamento de 30 anos acabou, porque praticamente nunca se veem um ao outro. O divórcio consuma-se.

CIDADE MISTERIOSA

Moscovo tem uma névoa de mistério intrigante, desafiante. Tudo é grande, tudo é em grande. O bailado, a literatura, a música, o crime, a corrupção, a classe, a subtileza, o medo, o poder... É a praça financeira por onde circulam os magnatas com poder de compra para a oferta de luxo, para os Mazeratis ou Ferraris que se apresentam nas montras, a dois passos da sede do antigo KGB. Mas o nível do consumo já não é o que era. A queda no preço do petróleo, a forte desvalorização do rublo, a fuga de capitais arrastaram a Rússia para a recessão. A esta situação somam-se as sanções económicas aplicadas pelo Ocidente após a intervenção russa na Ucrânia. Em 2014, Kiev ensaiou uma aproximação à União Europeia não tolerada por Putin. Aos olhos de Moscovo, a UE é quase uma low-cost da NATO. “É muito importante que o bloco militar da NATO compreenda que não pode avançar mais, porque depois irrita, porque militar é militar”, sustenta Alexander Romanovich, deputado do partido Rússia Justa.

Para se chegar à fala com o deputado da Duma é preciso ultrapassar as diversas fases de controlo. Já dentro do edifício, há que apresentar os documentos de identificação num guiché de espelhos, ou seja, a alguém que não vemos mas que nos vê. O afável Alexander Romanovich nasceu poucos dias depois de Putin e é seu apoiante incondicional, apesar de estar na oposição parlamentar. Fala português e tem boas memórias dos anos 80, quando passou por Angola, Moçambique e São Tomé e Príncipe como tradutor de militares russos que davam apoio às ex-colónias portuguesas. Sentiu de uma forma particular o conflito na Ucrânia, onde nasceu a própria mãe; aliás, herdou um apartamento em Kiev, onde paga impostos. “Esta é a situação de 10 milhões de russos que têm parentes na Ucrânia.” O palco do conflito ucraniano já foi visitado várias vezes por Elena Kostyuchenko. A jornalista e ativista russa deparou-se com momentos de suspense — teve de seguir militares em passo rápido por caminhos cruzados por rastilhos que se fossem pisados fariam explodir engenhos. “A artilharia muda tudo. Eu pensei que indo lá compreenderia. Mas não. Só vi muita gente armada, pessoas assassinadas, lixo, pó, cães pelas ruas, sem sentido, sem qualquer ideia. A guerra é muito aborrecida.” Elena dedica-se a temas sociais no seu país, mas os riscos que corre não são menores — já foi várias vezes espancada sem perceber se é por ser jornalista ou ativista dos direitos dos homossexuais. Por isso, não é nada meiga em relação a Putin. “Penso que ele cometeu muitos crimes, começou muitas guerras.” Além do envolvimento no Leste da Ucrânia, Vladimir Putin decide “resgatar” a Kiev uma glória russa, a Crimeia, onde estaciona a frota do Mar Negro. A NATO encarou a atitude como uma violação da ordem pós-Guerra Fria, mas em Moscovo foi vista como um motivo para o orgulho patriótico. “Putin adquiriu uma grande experiência no plano internacional e finalmente compreendeu que a Rússia não deve ser uma criada do Ocidente mas sim um Estado forte e independente”, defende o general Leonid Ivashov, que entende que “na Crimeia, e principalmente em Sebastopol, vive o fundo genético da nação russa, por isso é difícil avaliar em dólares ou em euros, pois trata-se da espinha dorsal da Rússia”.

MEMÓRIAS. Ao longo dos dez anos em Bruxelas, Vladimir Putin foi o líder não europeu com quem Durão Barroso teve mais contactos, formais e informais

MEMÓRIAS. Ao longo dos dez anos em Bruxelas, Vladimir Putin foi o líder não europeu com quem Durão Barroso teve mais contactos, formais e informais

Alexey Kudenko/Host Photo Agency/ Getty

Putin define bem as estratégias antes de as colocar em prática. É frio e cerebral. Nada é feito ao acaso ou por impulso imediato. O controlo do Mar Negro e do Mar de Azov desenrolou-se com rapidez e eficácia, através de forças especiais russas. E foi rematado com um referendo que votou a favor da anexação. “A Crimeia foi uma operação bem preparada, a forma como Putin o fez, em duas semanas, significa que foi pensada durante muito tempo. Putin queria-a para destruir a Ucrânia e criar um novo mito sobre o renascimento do império russo”, considera Garry Kasparov, que vê em Putin um ditador. Em 2008, o ex-campeão de xadrez ensaiou uma candidatura presidencial, mas acabou por desistir e chegou a ser preso.

LÓGICA NACIONALISTA

O tempo e o poder têm intensificado a lógica nacionalista e de confronto. “O Vladimir Putin com quem me encontrei em 2004 não é o mesmo de 2014. Em termos políticos, está hoje em maior afirmação, nomeadamente em relação ao Ocidente, contra os Estados Unidos”, sublinha Durão Barroso. E acrescenta: “É alguém que está numa posição de tensão, de braço de ferro em algumas questões, levado por um ressentimento nacionalista pela perda de poder e influência da Rússia.”

Os níveis de popularidade do Presidente russo nunca estiveram tão altos, e para isso concorre o nível da propaganda. Putin é uma constante nos canais da televisão russa, em várias línguas, que se tornaram um instrumento de poder utilizado com eficácia. As operações militares russas na Síria passaram a ser o prato forte da informação. No ecrã, há quase sempre aviões russos a descolarem das bases em velocidade de ataque. “Oficialmente, dizem-nos que o inimigo, o Daesh, está praticamente às portas do Kremlin!”, afirma Ksenia Larina, que vê em Putin o primeiro Presidente russo criado e alimentado pela televisão. “Dizem-nos que somos os maiores, os mais fortes, que vamos acabar com tudo à nossa volta. Nós não temos amigos, só temos inimigos. Agora temos mais um inimigo, que é o Daesh. Antes disso, o nosso maior irmão, que é a Ucrânia, também foi proclamado inimigo”, remata o moscovita Rinat Valliulin.

O apoio ao Governo de Damasco foi o argumento de Moscovo para a intervenção na Síria, que surpreendeu o mundo no outono de 2015. Putin subiu a fasquia, quer colocar a Rússia acima de uma potência regional, e ao mesmo tempo define uma zona de interesse estratégico. Os atentados de Paris, a 13 de novembro, colocaram-no de novo na órbita de uma aliança internacional antiterrorista. Mas Moscovo tem os seus próprios receios, já que cerca de 7000 combatentes do Daesh saíram da Rússia. “O mais terrível não são os combatentes que cortam cabeças, é a ideologia”, sublinha Leonid Ivashov, da Academia de Estudos Geopolíticos de Moscovo, porque “é um tipo de fascismo moderno, e este tipo de fascismo pode agregar grandes grupos de pessoas e organizar grandes guerras como o fascismo hitleriano”.

Esmagar a víbora no próprio ninho faz parte da retórica para atacar o Daesh e impedir o regresso de jiadistas à Rússia, cuja população é 20% muçulmana. “Há muito tempo que Putin tinha posições firmes e claras quanto à ameaça do terrorismo jiadista. Na primeira vez que nos encontrámos, em 2004, a questão inicial que ele colocou foi a relação mundial entre o cristianismo e o islão”, revela Durão Barroso, que deteta em Putin uma posição definida na Síria. “O Ocidente quer a saída do poder do Presidente Assad, mas não apresenta uma alternativa. Putin está em vantagem tática. A política dele é clara, os atores internacionais entendem-no.” Putin colocou Moscovo no xadrez do Médio Oriente, e estarão no seu horizonte condições para eventuais alianças: o levantamento das sanções económicas e manter a Ucrânia na órbita do Kremlin.

Imagina-se o sorriso cáustico de Vladimir Putin ao olhar para a revista americana “Forbes”, que lhe dá, pelo terceiro ano consecutivo, o estatuto de homem mais poderoso do mundo. É esse o caminho que lhe interessa, de preferência colocando a Rússia de novo no altar das potências internacionais. Nunca se sabe qual será a próxima aventura do homem que não tem problema em deixar-se fotografar no gelo, num submarino, num bucólico riacho ou num tapete de judo. Mas, como se diz em Moscovo, na Rússia tudo tem um duplo sentido. Há sempre lados escondidos.

Texto publicado na edição do Expresso de 19 dezembro 2015