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Antigo agente infiltrado que dormia com ativistas (que também espiava) é obrigado a demitir-se da universidade onde se tornou professor

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É o último episódio de um escândalo que dura há anos e tem vindo a manchar a reputação da polícia britânica

Luís M. Faria

Jornalista

Uma mulher empenhada no ativismo político e ambiental conhece um homem. Gentil, sincero, com bom aspeto. Ligeiramente mais velho do que ela, mas não menos dedicado às mesmas causas. Uma relação estabelece-se. A mulher começa a pensar que encontrou o homem perfeito. A passagem dos meses, dos anos, confirma a sua paixão. Engravida, têm um filho.

O homem não está presente todos os dias, mas isso tem a ver com a natureza das atividades em que se envolveu - algumas das quais são formas de ação direta (por exemplo, pegar fogo a um armazém, ou destruir quintas onde se cultivam organismos geneticamente modificados) com possíveis consequências penais. Vários camaradas já foram presos, mas ele tem escapado. A certa altura, a polícia aparece lá em casa à sua procura, mas não o apanham. O homem explica, sem dar pormenores, que vai ter que desaparecer por uns tempos. E ela nunca mais o vê.

Este padrão repetiu-se numa série de casos passados em Inglaterra nas últimas duas décadas. Várias das mulheres abandonadas, quando havia um filho, tiveram de o criar sozinho, por vezes com grandes dificuldades materiais. Eventualmente, alimentavam a memória de um momento único, irrepetível, nas suas vidas amorosas. Qual não será o trauma quando de repente descobrem que o seu parceiro ideal era um espião. Um polícia infiltrado, membro de um departamento encarregue de obter informações sobre grupos de esquerda e de extrema-esquerda.

"Violada pelo Estado"

À revelação inicial, feita pelo Greenpeace sobre um desses indivíduos, seguem-se numerosas outras histórias do género. E percebe-se que, embora as regras oficiais proíbam aos polícias ter relações sexuais com as pessoas a quem espiam, na prática isso tornou-se bastante comum, e até encorajado. Após três anos de notícias escandalosas, e ante a ameaça de processos judiciais que poderão levar a descobertas ainda mais profundas sobre o modus operandi da polícia, o Governo começa a pagar. Só numa das situações, a indemnização chega quase ao meio milhão de libras.

Há pelo menos sete mulheres a fazer relatos do género. Uma delas diz que, quando soube a verdade do que lhe tinha acontecido, sentiu que tinha sido "violada pelo Estado". Dois agentes em concreto tornam-se objeto de especial infâmia pública. Um deles chama-se Mark Kennedy e teve recentemente o descaramento de processar ele próprio o Estado por não o ter... impedido de se apaixonar. O outro, Bob Lambert, teve uma carreira tão brilhante como espião que se tornou chefe do departamento em causa, o Special Demonstration Squad (Esquadrão Especial para Manifestações), por acaso criado por um executivo trabalhista no longínquo ano de 1968, quando o radicalismo antissistema estava a atingir o auge.

Denunciado pelo jornal The Guardian, Lambert começa por negar o que fez, mas acaba por admitir, lamentando "os erros sérios de que me devo arrepender e sempre arrependerei". Infelizmente para ele, as suas vítimas e os apoiantes delas não se satisfazem com esse arrependimento pro forma. Quando constatam que ele trocou a carreira policial por uma outra, ainda mais confortável, de académico especialista em contra terrorismo, lançam uma campanha no estabelecimento que o emprega, a respeitabilíssima Universidade de St Andrews, na Escócia.

Outras atividades sujas

A universidade resiste, talvez impressionada pelo MBE de Lambert - a condecoração de Membro da Ordem do Império Britânico, atribuída em 2008 por serviços à polícia. Mas os ativistas insistem, apoiados por conjunto de intelectuais e outras personagens que assinam uma carta pública onde fazem notar que não convém entregar a tarefa de forma mentes jovens a uma pessoa obviamente destituída de sentido moral. Há dias, finalmente, a pressão teve efeito. Formalmente, foi Lambert quem se demitiu, anunciando que vai continuar a prosseguir como investigador independente os seus interesses académicos.

No seu caso, não havia remédio. Pois ele não é apenas acusado por aquilo que fez às mulheres com que se relacionou. Além disso, terá participado em atos indiscutivelmente criminais. Entre eles, o fogo posto nuns armazéns da Debenhams, a cadeia retalhista. Também aqui ele nega, mas vários testemunhos implicam-no. Como o implicam na redação de um famoso panfleto anti-McDonald's que deu origem ao processo por difamação mais longo da história judicial britânica. Ainda mais sinistro, Lambert participou e dirigiu operações secretas especificamente destinadas a arranjar informação que pudesse ser usada contra famílias de pessoas que eram vítimas de violência policial, ou da recusa da polícia em investigar determinados homicídios - por exemplo, o de Stephen Lawrence, um jovem negro morto em 1993 por um grupo de racistas.

Com o sofrimento de vítimas tão diversas nas suas mãos, só faltava Lambert ter feito mal a crianças sob alguma forma. Mas até isso aconteceu, indiretamente. Como outros agentes infiltrados, ele protegia a sua verdadeira identidade usando os nomes de crianças que tinham morrido, obviamente sem as famílias delas saberem ou autorizarem. Era um modo fácil de obter uma identidade e um número de segurança social.

Alguns agentes testemunharam com esses nomes falsos em processos nos quais outros ativistas - estes, autênticos - foram condenados a penas de cadeia. É inevitável que as sentenças sejam agora postas em causa, nos tribunais e fora deles.