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“Um país difícil de governar”. Jornais espanhóis de olho em Portugal

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O Podemos de Pablo Iglesias foi apontado como o principal vencedor de umas eleições que deixaram tudo em aberto

FERNANDO VILLAR

A ida do eleitorado espanhol às urnas resultou, como se esperava, numa soma de dúvidas. Só há uma certeza: o bipartidarismo está “morto e enterrado” e os partidos vão ter de negociar, possivelmente “à portuguesa”

“Nada será o que era”. Os espanhóis acordaram com a “sombra da ingovernabilidade” a pairar sobre as suas cabeças e os jornais do país vizinho refletem esse estado de espírito. Há um aspeto comum: têm os olhos postos em Portugal e nos inéditos acordos à esquerda promovidos por António Costa depois das últimas eleições legislativas, numa altura em que se desenha o fim do bipartidarismo que tem marcado toda a História da democracia espanhola.

Rajoy ganhou, mas não se sabe o quê; Sánchez ganhou em relação às sondagens, mas registou o pior resultado de sempre do PSOE; o Podemos superou-se, deixando Pablo Iglesias no centro das decisões; e Albert Rivera, do Ciudadanos, conquistou menos eleitores do que o esperado mas pode ainda ser uma peça importante nos acordos pós-eleitorais.

O “El País” fala da nova composição parlamentar como “um puzzle com mais peças do que antes, difíceis de encaixar por serem incompatíveis”. Embora noticie “a sombra da ingovernabilidade”, o editorial deste diário é o mais otimista, destacando a necessidade de “negociar com espírito construtivo” e “retomar a via da negociação para resolver os problemas do país”, “depois de quatro anos em que o diálogo político esteve ausente”. E “esta é a melhor maneira” de colmatar essa ausência”, defende o matutino.

“PSOE estaria a cometer suicídio”

“Uma vitória insuficiente, um país difícil de governar”: esta é a descrição que o “El Mundo” faz no rescaldo das eleições. No editorial desta segunda-feira, o jornal defende que este é um resultado “agridoce” para Rajoy, que diz ter “ganho em condições adversas”. De acordo com o “El Mundo“, “seria desejável que o Ciudadanos apoiasse Rajoy como primeiro-ministro”, uma vez que o matutino não hesita em classificar um possível acordo à esquerda como “uma amálgama de formações heterogéneas, condenada de início ao fracasso e difícil de justificar perante o eleitorado”.

O jornal vai mais longe e assegura que, a encabeçar um acordo semelhante ao assinado em Portugal, “o PSOE estaria a cometer suicídio”. Fica no ar a hipótese de uma “repetição” da ida às urnas, se ninguém conseguir formar uma solução governativa.

“Um pacto à portuguesa”

Já o “La Razón” segue a mesma linha, defendendo que a oposição espanhola “capitalizou eleitoralmente quatro anos de esforço e de políticas reformistas que marcaram o caminho para a recuperação económica”. No editorial, o jornal refere que “o objetivo [dos partidos de esquerda] é tirar o PP do poder, a qualquer preço”, destacando que uma fórmula semelhante àquela encontrada por António Costa é “instável e oportunista”.

O jornal adianta ainda que os bons resultados registados pelo Podemos podem fazer com que o partido passe de ser “um perigo para uma salvação” para os socialistas, que assegura só poderem aspirar a governar tendo em vista “um pacto à portuguesa”.

Uma “profunda mudança política”

O diário “La Vanguardia” destaca “a profunda mudança política” que o eleitorado espanhol mostrou desejar, tendo como resultado “uma situação muito complexa em que a aritmética não basta”. O jornal prevê que os passos seguintes para a formação de Governo tragam uma suavização do discurso dos novos partidos, afirmando que a hipótese de acordo entre PP e PSOE é desejada pelas forças internacionais mas “nada faz prever” que se concretize.

“Preço pode ser a ingovernabilidade”

Por seu lado, o ABC é claro: “o xadrez político mudou, mas o preço pode ser a ingovernabilidade”, num cenário em que “os pactos mais prováveis não são suficientes”. O jornal, que afirma que o líder socialista registou uma “queda demolidora” e não conseguiu superar a herança dos seus antecessores, destaca, no entanto, que o facto de o PSOE se ter mantido como a principal força de esquerda “evita a sombra do PASOK grego”.

Para o jornal, resta uma certeza: “O verdadeiro vencedor das eleições foi o caos, o bloqueio, a ingovernabilidade e a Espanha politicamente invertebrada”.