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“Já ninguém pára as sauditas”

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Ensaf Haidar com uma foto de Raif Badawi, Prémio Sakharov

VINCENT KESSLER/ Reuters

Ativista que abriu caminho às eleições municipais e outras mulheres falam ao Expresso

Margarida Santos Lopes

Há pelo menos uma década que a historiadora, académica e escritora Hatoon al-Fassi esperava um dia assim. Ver as mulheres concorrerem e votarem em eleições. O resultado superou as expectativas: 18 eleitas para conselhos municipais, com a “bênção” do rei Salman e a ira dos líderes religiosos.

“Eu e o meu marido celebrámos, no domingo, ao pequeno-almoço, os esforços dos últimos anos, sobretudo o início, em 2004, quando comecei a tentar convencer o Estado e a sociedade a respeitar os nossos direitos”, conta Hatoon al-Fassi, numa entrevista ao Expresso, por e-mail. “Nessa altura, coloquei em risco a minha primeira gravidez. Tive de ser hospitalizada devido ao stresse intenso. Estou, agora, naturalmente, muito entusiasmada.”

Se há alguém que pode reivindicar crédito pelo escrutínio do passado fim de semana é esta professora universitária em Riade — a capital e uma das cidades mais conservadoras da Arábia Saudita. Foi ela quem, em 2014, herdou de Fowziyah al Hani a liderança da Iniciativa Baladi, que formou e apoiou muitas mulheres neste “processo histórico”.

Surpresa no feminino

Hatoon al-Fassi explica porque ficou surpreendida — com o número de eleitos e a afluência (a das mulheres superou, em algumas regiões, os 80%, contra 50% dos homens). “Esperava o mínimo porque o ministério responsável fez o mínimo dos esforços e, como sociedade civil, a nossa capacidade de organização é limitada. As mulheres enfrentaram obstáculos permanentes a cada etapa eleitoral. Os resultados mostraram como as sauditas são determinadas. Já ninguém as pode parar.”

De uma família descendente de Maomé, profeta do Islão, mas seguindo uma escola sufi progressista e não retrógrada como a corrente wahabita dominante no país, Hatoon al-Fassi lamenta que alguns candidatos tenham recorrido a “termos religiosos fora de contexto para desencorajar os eleitores a votarem em mulheres”.
Nem todos lhes deram ouvidos e os sinais parecem encorajadores: “Mulheres que são membros do Shura [conselho consultivo] foram insultadas por condenarem leis discriminatórias. Os caluniadores foram processados judicialmente. As queixosas recebem cada vez mais apoio de outras mulheres que vão ganhando maior consciência.”

Os próximos desafios, adianta Hatoon al-Fassi, serão “abolir o sistema do guardião masculino, mudar o código de família, pôr fim à interdição de conduzir e nomeações para cargos de decisão, a nível ministerial, em particular”. A saudita para quem outras olham como fonte de inspiração diz que não se importaria de seguir uma carreira política, mas admite que não tem muitas opções. “Decidimos dividir as tarefas entres grupos de mulheres. Por enquanto, estamos a festejar, mas não abdicamos de reclamar todos os nossos direitos.”

Uma das candidatas vencedoras foi Rasha Hefzi, diretora da Think N Link Cooperation, 38 anos, solteira e sem filhos. Vive em Jidá, principal entreposto comercial e “a cidade mais liberal”. A sua empresa fornece vários serviços, designadamente sondagens e campanhas para a promoção do desenvolvimento socioeconómico. Não se estranha, pois, quando diz, em conversa telefónica: “Usámos todos os meios ao nosso dispor: redes sociais, cartazes nas ruas, call centers, e-marketing, porta a porta...”

Mais mulheres a trabalhar

Desde os 15 anos que Rasha Hefzi milita ativamente por causas como o feminismo, o diálogo inter-religioso e a democracia. Membro de várias organizações não-governamentais, como a Assembleia Mundial para a Juventude Muçulmana, ajudou a fundar diversas associações comunitárias. “A minha prioridade é encorajar maior civismo”, declara. “Interessa-me que as pessoas compreendam a importância de participar na vida pública. As mulheres já são ativas em muitas esferas, em particular no sector privado. Na Câmara de Comércio de Jidá, são figuras notáveis, embora discretas.”

A segregação de sexos permanece uma realidade, mas Rasha Hefzi prefere valorizar o número crescente de mulheres no mercado de trabalho. “Fui eleita graças aos votos de muitos homens, muitos dos quais empresários”, garante. “Há indicadores de mudança e quero contribuir para dar mais poder às mulheres, através do conhecimento e da experiência. Os direitos vão-se conquistando. A Arábia Saudita não é um Estado monolítico. Cada região tem as suas especificidades.”

Aplicar um plano diretor que garanta ordenamento urbano foi uma das promessas eleitorais de Rasha Hefzi, uma das maiores críticas do sistema de saneamento quando, em novembro, chuvas intensas causaram cheias que romperam condutas de esgotos em Jidá matando dez pessoas. Entre os que lhe deram o voto está Reem Asaad, conselheira financeira na Saudi Fransi Capital Corporation, aclamada pela “Arabian Business Magazine” como uma das “100 mulheres árabes mais influentes” (no 3º lugar).

Licenciada em Ciência, com um mestrado em Química e pós-graduação em Investimento, Reem Asaad foi uma das primeiras mulheres em cargos outrora ocupados só por homens no poderoso National Commerce Bank. Na manhã das eleições, fez-se acompanhar pela sua filha de cinco anos para ser ela a fazer “deslizar o boletim de voto” na urna. “Acredito que o meu país avança no sentido de ‘normas’ mais universais”, exulta, por e-mail. “Haverá momentos sombrios mas o sol brilhará. Assim se faz história.” Num tweet que se tornou viral, Reem Asaad escreveu: “Votei! Pela primeira vez na minha vida adulta na #Arábia Saudita. Podem rir-se, mas é um começo.”

Prémio Sakharov

Embora por razões diferentes acabou por caber, também, a uma mulher receber o Prémio Sakharov deste ano. Foi o que fez Ensaf Haidar, mulher do blogger saudita Raif Badawi a cumprir pena de prisão. Não podendo Badawi estar presente em Estrasburgo, no Parlamento Europeu para receber a distinção atribuída, foi portanto Ensaf Haidar a estar presente na cerimónia, na passada quarta-feira (dia 16) exibindo, simbolicamente, uma fotografia do marido.

O ano passado, Badawi foi condenado a dez anos de cadeia, multa e mil chicotadas que, a terem sido aplicadas, lhe teriam custado a vida. É acusado de insultos à religião, crime informático e desobediência ao seu pai. Crimes e castigo dizem-nos algo sobre a Arábia Saudita.