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Reino Unido. Cameron entre a espada e a parede

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LAURENT DUBRULE/ EPA

Primeiro-ministro britânico sai do Conselho Europeu em Bruxelas sem garantias. Eurocéticos sobem nas sondagens

O jantar-reunião do Conselho Europeu de quinta-feira para discutir as reformas exigidas pelo Reino Unido para permanecer na UE estendeu-se noite dentro mas nem por isso se encontraram consensos: David Cameron, primeiro-ministro britânico, reiterou a intenção de limitar o acesso de novos imigrantes a alguns benefícios sociais que, por serem generosos, considera, contribuem para atrair mais imigrantes.

Angela Merkel, chanceler alemã, e Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu, comprometeram-se a encontrar uma solução para acomodar as exigências de Cameron mas deixaram claro o que era inegociável: a não-discriminação entre cidadãos da UE, o que inviabiliza que Cameron possa limitar os subsídios sociais a europeus sem que essa medida afete também cidadãos britânicos.

“Cameron deu um tiro no pé com a questão dos subsídios: não há provas que a redução destes trave a imigração, não há benefícios económicos tangíveis, e politicamente não servirá para estancar a onda eurocética que se está a apoderar do partido conservador”, disse ao Expresso Susi Dennison, presidente do grupo de investigação so- bre a Europa do Conselho Eu- ropeu de Relações Internacionais.

Segundo a analista, este afunilamento do debate só atrasa a necessária remodelação das instituições europeias: “O debate está unicamente centrado na imigração e a culpa é do Governo que não se preocupou em explicar o potencial das restantes medidas, como a redução da burocracia para as empresas e o travão à ideia de uma Europa cada vez mais unificada. Os britânicos estão pouco informados sobre a UE e a imigração é dos únicos temas com os quais se conseguem relacionar.”

Duas sondagens recentes sobre o referendo à permanência na UE que Cameron quer realizar este verão mostram divisão entre “In” e “Out” (42% para cada lado com 16% de indecisos). A empresa ICM foi mais longe e tentou prever o comportamento do eleitorado caso Cameron não consiga qualquer renegociação na controversa matéria dos benefícios sociais: aí a vantagem dos eurocéticos dilata: 46% votariam para sair; só 40% pela manutenção.

Conservadores insatisfeitos

A questão da Europa, culpada, em parte, pelo declínio de Margaret Thatcher e John Major, reabre feridas no partido conservador. Ativistas antieuropa calculam que perto de 180 deputados — mais de metade da bancada — possam fazer campanha pela saída da UE.

Cameron disse no fim da reunião do Conselho Europeu que as negociações são “difíceis” e que será preciso “trabalhar muito” para conseguir um acordo na próxima cimeira, em fevereiro. “Chegou, viu e foi esmagado”, disse Nigel Farage, o líder dos eurofóbicos UKIP (Partido para a Independência do Reino Unido) comentando o resultado das negociações. Já o deputado europeu pelo partido conservador Daniel Hannan disse que “Cameron não está a bater-se por verdadeiras mudanças que devolvam ao Reino Unido a sua soberania, em vez disso tem lutado por pequenas mudanças que lhe permitam dizer que alcançou vitórias”. Também o ex-ministro do Ambiente, Owen Patterson, disse que o Governo prometeu “uma mudança total da relação do Reino Unido com a UE” mas que Cameron parecia andar “a baloiçar de um lado para outro, ao sabor dos ventos do Canal da Mancha”.

Para Susi Dennison, conseguir uma qualquer mudança seria uma prova que o Reino Unido “ainda pode modificar a UE” mas mesmo que nada se consiga, o Governo, diz Dennison, deve lutar para ficar na União porque “mesmo as análises mais otimistas traçam um cenário de grande incerteza, tanto para os cidadãos como para as empresas em caso de Brexit”.