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O regresso da Irlanda

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Símbolo. Um grupo 
de estudantes do ensino secundário, onde todos 
os alunos andam de farda, 
à saída de uma visita à biblioteca histórica do Trinity College Dublin, a universidade mais antiga da Irlanda

Catarina Larcher

A Irlanda voltou a crescer como dantes. Mas debaixo da nova vaga de otimismo há uma parte do país que continua a afundar

Micael Pereira (texto) Catarina Larcher (fotografias)

Mary apareceu no pub com o irmão, Bernard. Se há uma tradição de que os irlandeses gostam é de conversar em frente a uma pint. Às 17h30 já era noite escura no bairro de típicas moradias de tijolo burro de Kilmainham, fora do centro de Dublin. Estávamos no The Patriot’s Inn, um velho pub de esquina, com vários balcões de madeira distribuídos por três salas e longos sofás de pele cor de vinho a acompanharem as paredes. Um estabelecimento “mais próximo do pulsar da história irlandesa do que qualquer bar contemporâneo”, de acordo com o que os donos inscreveram numa placa junto a uma das entradas. Nos televisores por cima das prateleiras das garrafas, atrás dos balcões, o Real Madrid jogava em casa com o Barcelona, deixando vazias as mesas da sala do canto onde nos encontrávamos. Tínhamos trocado alguns e-mails com Mary nas semanas anteriores. Era colega de um engenheiro de software português numa start-up local que nos pusera em contacto. Tinha 26 anos e encaixava no perfil que procurávamos: um jovem que tivesse voltado à Irlanda para começar a vida de novo.

Havia uma razão para andarmos à procura de alguém como Mary. O saldo entre os que partem e os que chegam à Irlanda atingiu o seu valor mais baixo desde 2009 e o Governo espera que venha a ser zero em 2016. O número de emigrantes continua a ser bastante alto — houve mais de 80 mil pessoas que saíram do país em 2015, numa população de 4,6 milhões de habitantes — mas são cada vez mais os que regressam. Ou os que vêm de outros países, atraídos pelo reaquecimento da economia.

As perspetivas oficiais são boas. Dois anos depois de ter concluído, a 11 de dezembro de 2013, o programa de resgate negociado com o FMI, o BCE e a Comissão Europeia, o Governo de coligação do partido de direita Fine Gael e dos socialistas do Labour Party prevê que o PIB irá aumentar 6% em 2015, fazendo da Irlanda a economia que mais cresce na União Europeia pelo segundo ano consecutivo. O desemprego, agora nos 8,9%, passou a estar abaixo da média europeia, recuando a níveis de 2008.

Mary veio no início da nova torrente de otimismo, precisamente há dois anos. Olhando para os irmãos Plunkett, sentados à mesa em frente às suas pints, dava para sentir que Mary parecia feliz, mas Bernard nem tanto. Tinham versões diferentes sobre o que se estava a passar. Ela, que podia ser espanhola, com os seus longos cabelos castanhos e olhos escuros, contou-nos como conseguiu um bom emprego na plataforma Homestay, uma espécie de Airbnb de origem irlandesa lançada em 2013 em que os anfitriões dos alojamentos são sempre famílias. Foi contratada ao fim de três meses de ter regressado a Dublin, e depois de ter passado de forma fugaz por um estágio numa agência de publicidade. Estava a receber 16 euros por hora, 28 mil euros por ano.

A curta diáspora de Mary no Reino Unido, o destino de emigração preferido dos jovens irlandeses, foi providencial. Apesar de se ter licenciado em 2012 na melhor universidade do país, a Trinity College Dublin, formara-se em línguas, na variante de espanhol e francês, uma escolha pouco promissora. Mas logo a seguir foi para Londres tirar um master em Estudos Europeus e arranjou trabalho numa empresa a fazer pesquisas de marketing para grandes clientes tecnológicos, como a Microsoft e a Samsung, e foi esse cruzamento de línguas com a experiência em marketing que lhe valeu o lugar na start-up onde estava agora.

Mary entrou para o quadro da empresa e dentro de dias ia mudar-se de casa dos pais para um apartamento alugado a meias com outra rapariga, passando a poder ir a pé até ao escritório, estrategicamente localizado no coração da cidade, junto ao jardim de Stephen’s Green e à Graffon Street, uma área pedonal de lojas caras e músicos de rua. “Estou entusiasmada.”

Dois anos mais novo do que a irmã, Bernard, louro e com a magreza baça de um intelectual, não chegou a sair para lado nenhum. A sua licenciatura em História concluída em 2013 na University College Dublin, a mais forte concorrente de Trinity nos rankings internacionais, não deu mais do que para um trabalho precário como guia turístico. Trabalhava na Kilmainham Gaol, uma antiga prisão situada a dois passos do The Patriot’s Inn onde estávamos a conversar, reaberta nos anos 70 como museu em homenagem aos revolucionários que ali foram executados em 1916 durante o Easter Rising, a revolta fracassada contra a ocupação britânica que seria o embrião para os irlandeses conquistarem a independência em 1921.

“Gosto do que faço, mas as condições de trabalho são ridículas”, lamentou Bernard. O Estado congelou as admissões de pessoal e, por isso, o mais novo dos Plunkett teve de se contentar com contratos de sete meses obtidos através de uma entidade externa. “Este já é o meu terceiro contrato. Em janeiro estarei outra vez desempregado e, segundo as regras, tenho de parar dois meses até poder ser readmitido novamente. E para isso devo fazer as mesmas entrevistas que fiz da primeira vez.”

Bernard recebia 10,20 euros à hora, pouco mais do que o salário mínimo. Embora bastante mais alto do que em Portugal, rondando os 1400 euros por mês, o salário mínimo na Irlanda está longe de ser suficiente para alguém se aguentar condignamente em Dublin, onde os custos de vida estão muito inflacionados. Com as eleições legislativas a aproximarem-se, o Governo decidiu que vai subir o valor de 8,65 para 9,15 euros por hora a partir de janeiro. Será o primeiro aumento a ser introduzido desde 2007. Segundo os especialistas, no entanto, seriam precisos 11,50 euros à hora para se ultrapassar o limiar da sobrevivência em Dublin. “Só do meu passe de comboio, pago 91 euros por semana”, contou Bernard. Para agravar o cenário, a mulher, Aimee, sua antiga colega na universidade, estava apenas com um estágio no Museu Nacional da Irlanda. E, apesar de novos, já tinham dois filhos para cuidar. “Não vejo como é que saímos da crise. E como eu, estão muitos irlandeses.”

A diferença entre os irmãos Plunkett é um sintoma de como a crise dividiu a sorte dos irlandeses e de como a recuperação económica pende quase toda para um dos lados: a indústria tecnológica e digital, marcada pelo ritmo das multinacionais norte-americanas que escolheram Dublin para sede de operações na Europa. De acordo com Seamus Coffey, um economista da University College Cork, há neste momento cerca de mil empresas no país que vieram dos Estados Unidos, empregando diretamente 100 mil pessoas, a quem pagam seis mil milhões de euros em salários por ano, e contribuindo com dois mil milhões de euros em impostos.

É esse lado do país que prospera nas Silicon Docks, uma antiga área portuária de Dublin que foi rebatizada informalmente com esse nome em 2011, roubando-o a Silicon Valley, depois de a Google ter montado aqui a sua sede europeia. Na margem esquerda do rio Liffey, em frente a uma ponte pedonal a 20 minutos a pé do complexo de edifícios da Google, Patrick Walsh, um antigo consultor da KPMG nomeado em 2013 pelo jornal “Irish Sunday Independent” como um dos 30 empreendedores sub-30 mais promissores no país, abriu em fevereiro deste ano os Dogpatch Labs, um espaço de co-working. A intenção era juntar empresas norte-americanas acabadas de aterrar em Dublin com start-ups locais, na esperança de provocar um efeito de contágio.

Os Dogpatch Labs ocupam um open space com 1200 metros quadrados num dos cantos de um enorme complexo envidraçado à beira rio, o CHQ. “O Governo enterrou 50 milhões de euros na recuperação deste edifício histórico em 2005 com o objetivo de o transformar num centro comercial, mas veio a crise e ficou tudo vazio”, contou Patrick, enquanto nos conduzia num passeio guiado à cave do co-working, inaugurada dias antes da nossa visita como um espaço extra para eventos e reuniões. “O CHG tornou-se um símbolo da nossa estupidez financeira. A visão do Governo era trazer para aqui lojas da Prada e da Gucci... Foi um desastre total.” Em 2013, a perder um milhão de euros ao ano só com despesas de manutenção, o Estado vendeu o edifício por 10 milhões a um ex-diretor-geral da Coca-Cola, o irlandês Neville Isdell, o atual senhorio de Patrick.

A cave dos Dogpatch Labs, que chegou a funcionar há dois séculos como um armazém para os uísques irlandeses exportados a partir do porto de Dublin, tinha agora recantos com poltronas de couro envelhecido e paredes de vidro a separar salas de reuniões, ao longo de um comprido corredor de arcos abaulados, com as estruturas de tijolo-burro deixadas intactas. Patrick estava orgulhoso. Fez a obra com um milhão de euros de financiamento do Ulster Bank, um dos dois parceiros no negócio, a par com o Google. “Nós não precisamos de estradas neste país. Uma economia digital como a Irlanda precisa é de infraestruturas como esta. E não é o Estado que as está a fazer.”

No open space por cima da cave, meia dúzia de companhias tecnológicas norte-americanas estão a estrear-se este ano na Europa, como a Twilio, a NuoDB ou a academia de ensino online Udemy, e partilham as mesas corridas do bar e os pufes para momentos de chill out com microempresas criadas por uma ou duas pessoas. Numa das paredes junto ao bar, concentrada em duas secretárias viradas uma para a outra, a Coindrum é uma dessas start-ups em plena fase inicial, fundada por um alemão de 27 anos, Lukas Decker.

Apesar de não ser irlandês, Lukas também entrou, tal como Patrick, para o top 30 dos empreendedores sub-30 mais promissores da Irlanda, na edição de 2015 do “Independent”. Há dez anos fora de Hamburgo, chegou em 2012 à Irlanda para fazer um mestrado em gestão na University College Dublin. “Confesso que só vim porque me deram uma bolsa de estudo. Foi uma decisão controversa. Toda a gente a ir-se embora para a Alemanha e eu a vir no sentido contrário.”

Lukas só conhecia a Irlanda dos anúncios a uma marca de manteiga e imaginava paisagens muito verdes. Mas sabia, pelas notícias, o que se passava com a crise financeira. Que os bancos precisaram de um injeção de 64 milhões de euros, levando a que o próprio Estado recorresse, por contágio, a um resgate do FMI, do BCE e da União Europeia. “Mas saímos disso há dois anos”, sublinhou, usando a primeira pessoa do plural, como um irlandês, na entrevista que nos deu.

A verdade é que todas essas circunstâncias nem sempre têm um impacto negativo no empreendedorismo. “Quando os tipos grandes estão em guerra, às vezes surgem oportunidades para os tipos pequenos”, explicou Lukas. “Se precisares de um designer se calhar os designers não estão tão ocupados como poderiam estar e estão dispostos a fazer acordos, acabando por ficar mais baratos. Para mim o impacto foi sempre limitado, para ser honesto”, disse-nos, rindo, ao mesmo tempo que admitia concordar com Angela Merkel, quando a chanceler alemã descreveu a recuperação irlandesa nos últimos dois anos como “uma tremenda história de sucesso”.

Depois de ter ficado em primeiro lugar num concurso de ideias de negócios organizado pela universidade, Lukas chamou a atenção de um dos jurados, Declan Ryan, filho de Tony Ryan, o tycoon que em 1985 fundou a Ryanair, a companhia aérea que mais passageiros transporta na Europa.

Em 2013, Declan Ryan tornou-se o financiador da Coindrum, cuja ideia de negócio era simples: disponibilizar máquinas nos aeroportos para receberem as moedas que as casas de câmbio não aceitam e, em troca, imprimirem vouchers que os passageiros só poderiam gastar nas lojas de duty free, mas que vinham com 10% de bónus. “Pusemos uma máquina a funcionar no aeroporto de Dublin e os estudos métricos que temos estado a fazer têm mostrado resultados impressionantes, impulsionando a venda nas lojas. Vamos agora avançar para a fase seguinte: alargar o negócio a todos os aeroportos.”

Google Docks. Sede europeia da Google, na Barrow Street, em Dublin, onde trabalham mais de 2500 colaboradores, distribuídos por vários edifícios, incluindo o prédio mais alto 
da capital irlandesa, o Montevetro, com 15 pisos

Google Docks. Sede europeia da Google, na Barrow Street, em Dublin, onde trabalham mais de 2500 colaboradores, distribuídos por vários edifícios, incluindo o prédio mais alto 
da capital irlandesa, o Montevetro, com 15 pisos

Mas a euforia das Silicon Docks tem um alcance limitado. Num dos edifícios centrais do campus verdejante que a University College Dublin possui em Belfied, a meia hora de autocarro do centro da cidade, o sociólogo Kieran Allen aceitou receber-nos no seu gabinete apertado. Kieran, um homem de cabelo grisalho, estava vestido no estilo de Alexis Tsipras, com um blazer escuro e camisa branca, sem gravata. Especialista em marxismo e considerado um dos teóricos do Socialist Workers Party, Kieran publicou em 2013 um livro a meias com o economista Brian O’Boyle sobre a austeridade no país e “o falhanço do capitalismo irlandês”.

“Há muita propaganda sobre a Fénix Celta, depois do Tigre Celta dos anos 90”, ironizou Kieran, esclarecendo que o indicador mais importante da economia irlandesa não é o PIB mas o PNB, o produto nacional bruto: a riqueza gerada apenas pelos contribuintes nacionais do país. “As multinacionais têm uma estratégia de declarar grandes lucros na Irlanda e depois transferirem esses lucros para fora. Ao todo, há 25 a 30 mil milhões de euros em lucros que são retirados do país anualmente. O que significa que há um fosso gigante entre o PIB e o PNB.” A taxa de imposto para as empresas é de 12,5%, quase metade do que em Portugal e três vezes menos do que nos Estados Unidos. “E na realidade, com todos os buracos na lei que os conselheiros fiscais lhes arranjam, pagam muito menos do esses 12,5%.”

O sociólogo pediu-nos para nos aproximarmos do ecrã do computador para percebemos do que estava a falar: “Veem aqui os números? Em 2007, mesmo antes do crash financeiro, o PNB era de 160 mil milhões de euros. Depois tivemos uma recessão prolongada, até ao final de 2013, e em 2014 o PNB cresceu menos de 1%.” Em contraste com um aumento de 5,2% do PIB.

Durante os três anos de medidas de ajustamento impostas pela troika, a austeridade implicou um corte médio de 17% nos salários do sector público, um agravamento acentuado do IRS (cujo peso nas receitas do Estado passou de 29% em 2007 para 42% a partir de 2013) e um aumento da idade mínima de reforma para os 68 anos, além de o país ter assistido ao êxodo de centenas de milhares de jovens para o Reino Unido, a Austrália ou os Estados Unidos. “Isso reduziu os números oficiais do desemprego, com o contributo adicional do Job Bridge, um programa que atualmente mantém ocupadas 70 mil pessoas em trabalhos que dão direito a um acréscimo de 200 euros por mês ao subsídio que recebem.”

Kieran chamou-nos a atenção ainda para outra coisa. Era um assunto em que já tínhamos tropeçado várias vezes desde o nosso primeiro dia em Dublin: o problema da habitação. Bernard, o mais novo dos irmãos Plunkett, tinha-se queixado à mesa do bar sobre como ele e a mulher foram obrigados a instalarem-se numa casa a uma hora de comboio da cidade por causa da escalada dos preços nas rendas. Estavam a pagar 750 euros por mês por um apartamento com três quartos. Se fosse em Dublin, disse-nos, “o custo seria entre 1600 e dois mil euros”. Estava em linha com o que nosso anfitrião do apartamento Airbnb onde ficámos a dormir, Ciaran, também nos tinha dito sobre a sua própria situação. Pagava uma renda de 1800 euros por um T4 em Kilmainham que estava longe de ter acabamentos de luxo ou áreas desafogadas. A solução foi subalugar a turistas.

A febre das rendas parecia ter uma explicação óbvia. Com o colapso dos bancos, obter empréstimos ficara mais dificultado, com a exigência de um mínimo de 20% de capital para qualquer crédito à habitação. Com isso as pessoas viraram-se para o mercado de arrendamento, sujeitando-se ao facto de na Irlanda não haver limites para o aumento dos alugueres. Os senhorios podem fazê-lo apenas uma vez por ano, mas são livres de os subirem justificando-se com “os valores de mercado”.

Nos últimos quatro meses houve 73 famílias por mês a serem despejadas de casa em Dublin por falta de pagamento. Em 2012, essa média era dez vezes mais baixa. Em outubro, existiam 750 famílias com filhos a morar em quartos de hotel ou nos alojamentos do Airbnb. Segundo os dados mais recentes das autoridades locais, as crianças sem-abrigo na cidade duplicaram para 1400 só no último ano.

No norte de Dublin, num bairro onde os corredores a céu aberto dos blocos de habitação social foram sendo pinchados com graffiti, fomos ter com o padre Peter McVerry. Em Berkeley Street, a 20 metros de uma igreja da ordem das Carmelitas, a McVerry Trust, uma conhecida associação de apoio a pessoas sem-abrigo fundada pelo padre Peter, abriu um novo polo para atender pessoas. Decorada com cores claras, a sala de entrada funciona como um café alternativo para quem está farto de ser olhado de lado nos pubs vizinhos. Tradicionalmente, a associação era procurada por toxicodependentes, alcoólicos e doentes mentais. Gente sozinha. Mas isso mudou. Em 2015 o número de sem-abrigo ajudados pela associação foi mais do dobro do que em 2013, saltando de 3500 para 7500. E muitos agora eram famílias inteiras.

Readaptando-se à realidade, o McVerry Trust estava a preparar-se para inaugurar na semana seguinte, já em dezembro, um conjunto de acomodações para 12 famílias, com quartos para as crianças e cozinhas partilhadas.

O padre Peter descreveu-nos o fenómeno como uma tempestade perfeita. “Há uma falta evidente de habitação social. Até à década de 80, o Estado andava a construir sete a oito mil casas por ano. Tínhamos orgulho nisso. Na década de 90 decidiram que a habitação social deveria ser garantida pelo sector privado. Não resultou. Em 2014, foram construídas 214 casas para habitação social em todo o país. E na primeira metade deste ano, apenas 20.”

Há 100 mil agregados na Irlanda, sem rendimentos nem casa própria, na lista de espera para a habitação social. E que estão em apartamentos alugados. O que fez, por sua vez, com que a procura de casas para arrendar ultrapassasse largamente a oferta disponível. Porque essas família têm a concorrência de todos aqueles que, tendo ordenados razoáveis, não têm poupanças suficientes para poderem comprar um apartamento. Com o mercado cada vez mais pressionado, os preços do arrendamento têm vindo a subir e os suplementos de renda atribuídos pelo Estado às famílias carenciadas deixaram de ser suficientes para conter os despejos, depois de terem sofrido um corte de 28% com a crise.

Em breve haverá uma outra inundação no mercado de arrendamento. Numa visita que já tínhamos feito à Irish Mortgage Holders Organisation, uma associação que defende todos os que estão com dificuldades em manter os seus créditos à habitação, o diretor-geral, David Hall, falara-nos de como 33 mil famílias estavam há mais de dois anos sem pagar prestações aos bancos, num universo de 95 mil agregados que têm créditos imobiliários malparados. E que irão parar à rua dentro de dois ou três anos, quando se esgotarem os prazos nos processos postos nos tribunais pelos bancos, para tomarem posse das casas.

Dono de uma empresa de ambulâncias, David ficou tão impressionado com os casos dramáticos à sua volta que resolveu criar a associação em 2012 com advogados seus amigos. No ano passado deram apoio a um quarto de todas as insolvências pessoais na Irlanda. “As pessoas com problemas de dívidas são como os doentes de VIH, não falam. Por isso eu falo por elas. A recuperação económica do país existe mas não é para todos. Uma coisa é o PIB, outra coisa são os seres humanos. A recuperação não trouxe o Walt Disney com ela. Aquelas 33 mil famílias estão com 2,2 mil milhões de euros de pagamentos em atraso. Isso mostra que esta história não vai acabar bem. O risco de se tornarem sem-abrigo é muito grande.” Mas não para já.

Para já, a preocupação mais urgente era do padre Peter. Via-se como estava angustiado. “Conheço uma família em que os pais, os dois rapazes adolescentes e mais três crianças pequenas partilham o mesmo quarto de hotel”, contou. A agência do Estado que ajuda a pagar o alojamento temporário começou a pedir às pessoas para serem elas próprias a procurar um quarto. “Há uma grande falta de camas de hotel em Dublin. Alguns dos hotéis vão fechar durante o período de Natal, enquanto outros estão a dizer às famílias que têm de sair porque há reservas feitas.” O padre Peter parou por dois segundos. Os olhos não precisaram de lacrimejar. Estava sentado numa cadeira, num pequeno gabinete de apoio psicológico aos sem-abrigo. Depois retomou. “Prevejo que muitas famílias vão passar o Natal na rua, em parques públicos ou a bater à porta de esquadras de polícias e de hospitais.” Esta já não era a Irlanda onde parecia termos aterrado.