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Uma mulher identificou-o como violador num sonho. Passou 28 anos na cadeia. Vai ser finalmente libertado

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Uma daquelas histórias que, por onde quer que a vejamos, revela algo de profundamente errado na justiça americana

Luís M. Faria

Jornalista

Um norte-americano que passou os últimos 28 anos na cadeia por um crime de violação deverá ser libertado nos próximos dias após outro homem ter confessado, e a sua alegada vítima ter admitido que o reconheceu originalmente num sonho.

O caso, com aspectos quase surrealistas, é o último de uma longa série a atingir cidadãos negros que se vêm sujeitos à prepotência das autoridades. Clarence Moses-El, atualmente com 60 anos e na prisão desde os 32, nem sequer foi o primeiro homem que a mulher violada identificou. Ela começou por nomear um tal L. Jackson, autor da confissão agora feita. Jackson tinha antecedentes e cometeria uma violação poucos anos depois, pela qual foi condenado. Mas os procuradores, por qualquer motivo, preferiram não o aceitar como culpado pela violação em 1988, e a mulher acabou por referir Moses-El.

Este sempre se declarou a sua inocência, mas múltiplos esforços para a provar ao longo dos anos depararam sempre com a resistência das autoridades, que foram ao ponto de extraviar provas de ADN entretanto recolhidas e que o tribunal tinha mandado preservar. O apoio de organizações humanitárias e da sua família valeu finalmente a Moses-El. Há dias uma juíza em Denver (Colorado) ordenou um novo julgamento, e na próxima semana, se tudo correr como esperado, ele deverá ser libertado mediante o pagamento de uma fiança.

Em quase três décadas de encarceramento, ele perdeu todos os seus irmãos e irmãos e outros próximos. Restam-lhe a mulher e os filhos, com quem só esteve em liberdade quando eram muito pequenos. Com as provas agora apresentadas, espera-se que seja absolvido, embora os procuradores continuem a insistir (como usam fazer em casos semelhantes) na culpabilidade dele. Depois, cabe-lhe decidir se pede uma indemnização pela vida que lhe roubaram. Como disse um familiar, terá de ser uma indemnização que tome conta dele até ao fim da vida.