Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

“E se fizéssemos desaparecer o muro pintando nele um céu?”

  • 333

O “muro da vergonha” que ao longo de dez quilómetros separa bairros ricos e pobres na capital peruana é o espelho da segregação e divisões raciais, sociais e económicas que assolam o país. Um grupo de crianças de um destes bairros humildes, incentivadas por adultos, decidiram pintar o muro para esconder o cimento e lutar contra as desigualdades. Eis a “Brigada Muralista”

De um lado fica a opulência e a comodidade, do outro a pobreza e condições miseráveis. De um lado existem casas que podem chegar aos cinco milhões de dólares (4,6 milhões de euros), no outro nem água ou luz existe - e a maioria das casas é de madeira e plástico. De um lado fica a urbanização Las Casuarinas, um bairro rico criado nos anos 50 na colina de San Francisco, distrito de Surco. Do outro vemos a pobreza de Pamplona Alta, distrito de San Juan de Miraflores, conhecido por ser o mais inseguro da capital.

No meio das duas, dez quilómetros de cimento entre as localidades de San Juan de Miraflores, Surco e La Molina. O “muro da vergonha”. Em Lima, Peru, no século XXI: o espelho das desigualdades e divisões entre ricos e pobres, cuja construção teve início nos anos 80 para “proteger” a propriedade privada Las Casuarinas dos roubos e delinquência - e que foi sendo ampliado ao ritmo do crescimento de bairros mais humildes.

A segregação social, racial e económica no Peru é sentida pelos mais novos. Foi por isso que crianças do povoamento de Fronteras Unidas, incentivados por grupos de cidadãos, decidiram pintar o céu no cimento: “E se fizéssemos desaparecer o muro pintando nele um céu?” E resgatar frases de escritores peruanos, como aquela de Sebastián Salazar Bondy, “meu país é teu, meu país é meu, meu país é de todos.”

Contra as desigualdades pintar, pintar

Durante três anos, grupos de crianças pintaram 150 murais na capital do Peru, acrescentando-lhes citações inspiradoras, em locais de pobreza ou mais descuidados, nos primeiros dois sábados de cada mês. No último, conta o “El País”, decidiram fazer o mesmo para esconder o “muro da vergonha”. Juntos, constituem a “Brigada Muralista”.

O projeto faz parte da escola comunitária de pedagogia livre localizada no povoamento de Fronteras Unidas, onde vivem cerca de 200 famílias. O responsável pelo projeto, o psicólogo Pedro Elías, disse ao jornal espanhol que em quase um ano não se vê delinquência nesse povoamento.

O (re)aparecimento do “muro da vergonha” nos meios de comunicação social, a propósito destas pinturas dos mais novos, volta a chamar a atenção para o problema da segregação racial, social e económica no Peru.