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EUA cedem à Rússia e aceitam que Assad continue no poder

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John Kerry e Sergei Lavrov, durante a conferência de imprensa que se seguiu ao encontro no Kremlin, na terça-feira

SERGEI KARPUKHIN/REUTERS

Barack Obama chegou a defender, alto e bom som, que “Assad tem de partir”. A paralisação do processo de paz para a Síria e o aumento da ameaça jiadista obrigaram Washington a rever a sua posição, cedendo às exigências da Rússia

Margarida Mota

Jornalista

O futuro de Bashar al-Assad será determinado pelo povo sírio. Esta tem sido uma intransigência da Rússia relativamente ao conflito na Síria que, esta terça-feira, os Estados Unidos aceitaram.

“Os Estados Unidos e os seus parceiros não procuram uma alteração de regime”, afirmou o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, em Moscovo, após um encontro com o Presidente Vladimir Putin. Esta posição representa uma inversão relativamente à política seguida pelos EUA desde o verão de 2011, altura em que o Presidente Barack Obama defendeu: “Assad tem de sair” do poder.

A cedência norte-americana surge na sequência de “um grande dia de negociações”, como o qualificou Sergei Lavrov, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, país que tem sido um aliado consistente do Presidente da Síria. Kerry afirmou que, neste momento, o foco não deve incidir sobre as diferenças bilaterais sobre o futuro imediato de Assad, mas antes na facilitação de um processo de paz que leve os sírios “a tomar decisões sobre o futuro da Síria”.

O chefe da diplomacia norte-americana anunciou a realização de uma conferência sobre a Síria no final desta semana, em Nova Iorque. “Ninguém deveria ser forçado a escolher entre um ditador e ser atormentado por terroristas”, referindo-se ao autodenominado Estado Islâmico (Daesh). Contudo, a exigência da oposição síria de que Assad deve deixar o poder mal as conversações de paz comecem não será pré-condição.

Provas autênticas e condenatórias do regime

Horas após o anúncio da nova posição dos Estados Unidos relativamente a Bashar al-Assad, a organização humanitária Human Rights Watch (HRW) divulgou o relatório “If the Dead Could Speak: Mass Deaths and Torture in Syria’s Detention Facilities” (Se os mortos pudessem falar: mortes em massa e tortura nos centros de detenção da Síria), que denuncia “crimes contra a humanidade” realizados pelo Governo sírio.

O relatório resulta de uma análise a 28.707 fotografias que documentam a morte de 6786 detidos às mãos das autoridades de Damasco. Durante a investigação, que durou nove meses, a HRW localizou e entrevistou 33 familiares e amigos de 27 vítimas cujos relatos foram posteriormente confirmados; 37 antigos detidos que testemunharam mortes de presos; e quatro desertores que trabalharam em centros de detenção governamentais ou hospitais militares onde a maioria das fotografias foram tiradas.

“Confirmamos meticulosamente dezenas de histórias e acreditamos que as fotografias de Cesar apresentam provas autênticas — e condenatórias — de crimes contra a humanidade na Síria”, afirmou Nadim Houry, vice diretor da HRW para o Médio Oriente, num comunicado divulgado esta quarta-feira. “Cesar” é o nome de código de um militar sírio desertor que, em agosto de 2013, fez sair da Síria, de forma clandestina, 53.275 fotografias. As imagens foram entregues a um grupo opositor ao regime sírio (Movimento Nacional Sírio) que posteriormente as fez chegar à HRW.

“Os países que se vão encontrar visando possíveis negociações de paz na Síria — incluindo a Rússia, o maior apoiante do Governo sírio — devem fazer do destino de milhares de detidos na Síria uma prioridade”, refere o comunicado da organização humanitária. “Devem insistir para que o Governo sírio dê aos investigadores internacionais acesso imediato a todos os centros de detenção e que os serviços secretos da Síria acabem com os desaparecimentos forçados e a tortura de detidos.”