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“Washington Post” deixa redação onde denunciou o Watergate

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KAREN BLEIER / AFP / Getty Images

Mudaram de morada mas levaram consigo as memórias, as “cachas” de primeira página, a dedicação e o enorme legado jornalístico: as coisas mais importantes não pesam coisa nenhuma e nem sequer precisam de caixotes

Esta segunda-feira, o diário norte-americano “Washington Post” já não foi escrito na redação situada junto da interseção da 15ª rua com a rua L de Washington DC, onde Carl Bernstein e Bob Woodward esculpiram a história que havia de fazer cair, pela primeira, e até ver única. vez um Presidente dos Estados Unidos. Mas o jornal vai continuar ao virar de uma esquina, na 13ª com a K, número um de Franklin Square.

Foi em 1973 que os dois jornalistas receberam anonimamente uma pista que colocava em dúvida as verdadeiras razões por trás do assalto à sede do Partido Democrata, no edifício Watergate. Hoje sabe-se que a quadrilha tinha sido instruída pelo Partido Republicano a colocar escutas nos escritórios da oposição e que Richard Nixon, na altura Presidente dos EUA, tinha autorizado a operação.

“Há qualquer coisa de sagrado neste sítio e naquilo que aqui se produz. Mas o lugar não é o mais importante. O que se faz sim, e isso continuará a ser feito. Não é um dia para tristezas, é um dia para celebrar a entrada numa nova era nesta instuituição que representa tudo o que de bom tem a profissão de jornalista e sinto-me honrado de aqui estar", disse Bernstein na festa de despedida organizada ainda na antiga redação na semana passada.

Mas se a missão do jornal não mudou, o assalto das novas tecnologias alteraram dramaticamente os processos de produção e difusão de informação e a indústria. A redação antiga, de tetos baixos, candeeiros de secretária e rotativas que faziam tremer o chão não serve a voragem informativa dos dias de hoje.

As imagens e os vídeos publicados pelos repórteres do jornal, quer na página oficial do “Washington Post” quer nas redes sociais, mostram uma redação organizada, onde quase toda a mobilia é branca e de plástico, à exceção das enormes cadeiras escuras e ergonómicas. Ao fundo um amontado de paralelepípedos: 21 televisores plasma e em HD, de onde saltam notícias em direto de todo o mundo e onde os jornalistas podem acompanhar em tempo real o tráfico que a página do jornal está a gerar. E não é preciso ter medo de olhar. A circulação do diário decresceu acentuadamente de um mihão de cópias, o seu pico, para menos de 400.000 na atualidade, mas a edição online atinge 67 milhões de leitores em todo o mundo, tendo recentemente ultrapassando o seu rival direto, o “The New York Times”.

Em 2013, o negócio que tinha permanecido no seio da família Graham durante mais de um século foi vendido a Jeff Bezos, fundador da Amazon, por 250 milhões de dólares (227,6 milhões de euros). Durante uns meses foi o pânico, mas Bezos trouxe uma nova perspetiva - e alguns milhões de dólares mais - consigo e em vez de despedimentos foram contratadas 150 pessoas.

Marty Baron, director-executivo do “Washington Post”, considerado por muitos um guru nos tempos dificeis que os jornais atravessam, diz que “ainda não descodificou a fórmula para salvar os jornais” mas considera que a investigação do Watergate poderia ter acontecido agora: “Bernstein e Woodward podiam ter feito essa investigação hoje, e tê-la-iam feito sem dúvida porque o que fizeram é a base do que aqui se faz sempre: sair do escritório, ir bater à porta das pessoas, falar com elas na rua, analisar documentos, ir ler relatórios da polícia. Ainda o fazemos mas devíamos fazê-lo mais”.

O segredo do sucesso, afinal, não mudou: “É um erro pensar que podemos cobrir acontecimentos em todo o mundo sentados numa cadeira de escritório. Temos de ser testemunhas para o que está a acontecer, temos de sair da zona de conforto”, disse Baron na mesma festa de despedida à imprensa.