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“Caro Obama, junte-se a nós para trazer uma refugiada muito especial para a América”

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JIM LO SCALZO / EPA

“Um dia, eu estava a brincar no nosso jardim, ouvi um barulho muito grande e o céu tornou-se vermelho e toda a gente gritou. É difícil descrevê-lo. É como se houvesse sangue no céu.” Assim começa a história de Aya, uma refugiada iraquiana cujo pedido de asilo foi recusado pelos Estados Unidos. A internet não se conformou e pediu ajuda diretamente a Obama

Se é utilizador assíduo do Facebook, é provável que o nome da página “Humans of New York” (também conhecida como HONY) lhe seja familiar. Mesmo que não faça parte das 16.268.312 pessoas que já colocaram gosto na página, se calhar já algum amigo seu comentou ou gostou de uma publicação - e se não foi um amigo seu, Barack Obama já o fez. Desta vez, é a página que retribui e se dirige a Obama, com um pedido muito especial.

Em 2010, Brandon Stanton era um norte-americano de 26 anos, licenciado em História e já com uma carreira falhada na bolsa de Chicago. Nessa altura, decidiu ir para Nova Iorque e perseguir um objetivo bastante diferente: Brandon queria parar aleatoriamente 10 mil pessoas que caminhassem pelas ruas de Nova Iorque e pedir-lhes para tirar uma fotografia, tendo em vista a criação de “um catálogo exaustivo dos nova-iorquinos”.

Com o tempo, começou a interessar-se pelas histórias das pessoas que fotografava e a fazer-lhes perguntas: a um miúdo perguntava qual o maior problema que enfrentava naquele momento, a um casal de idosos pedia um conselho para a vida... Nascia a marca HONY, hoje convertida numa popular página de Facebook em que as pessoas se emocionam, partilham histórias e começam petições para ajudar quem mais precisa, mas também em vários best-sellers que contam algumas das melhores histórias e num pedido recorrente dos fãs para que Brandon receba o Nobel da Paz.

Há um motivo especial para este pedido. Quando a cidade que nunca dorme se começou a tornar pequena para este projeto, Brandon decidiu ir mais além e visitar outros lugares, normalmente com uma característica comum: serem zonas pobres com habitantes carenciados. Este mês, Brandon voltou de uma viagem à Jordânia e à Turquia durante a qual conheceu 12 famílias cujo pedido de estatuto de refugiados foi aceite pelos Estados Unidos e tem estado a partilhar estas histórias, sempre trágicas mas pautadas pela esperança. No entanto, falamos desta viagem para chegar à história de Aya, uma refugiada iraquiana atualmente residente na Turquia cujo pedido de asilo foi recusado pelos Estados Unidos.

Na página de Facebook, a história de vida desta refugiada está a ser contada aos poucos (dos 11 posts prometidos, Brandon ainda só publicou quatro). No entanto, a dimensão da tragédia de Aya já é compreensível: a jovem descreve a sua vida durante a guerra do Iraque como “um filme de terror”, explicando como viu morrer a sua melhor amiga de infância (que vivia numa casa destruída pelos bombardeamentos) e como um dia, quando seguia de carro pelas estradas de Bagdade com o seu pai, uma bomba dizimou tudo quanto se encontrava à sua volta.

“És parte daquilo que torna a América fantástica”

A página conta muitas vezes as histórias de pessoas que não conseguem pagar uma operação médica, que não encontram trabalho, que precisam de um amigo com quem conversar - e quem comenta oferece soluções. No entanto, desta vez é o próprio Brandon que toma uma posição e, depois de ter levado a história de Aya, pela voz da protagonista, à CNN, promove uma petição dirigida ao presidente dos Estados Unidos, na qual se pede que Obama “conheça a história de Aya e empreste a sua voz a esta luta”. No texto, agradecimentos ao presidente norte-americano por “promover a calma durante uma época de crescente ódio e medo” e “insistir no compromisso dos Estados Unidos em receber refugiados”. A petição já reuniu, em dois dias, 143 mil signatários.

Se este número já torna provável a possibilidade de Obama ler por si próprio a história de Aya, o facto de o presidente ser um admirador confesso da página reforça esta hipótese. Há uns dias, quando Brandon relatava a história de um cientista sírio que perdeu parte da família e com ela toda a esperança de poder deixar uma contribuição ao mundo, uma vez que lhe foi diagnosticado um cancro enquanto esperava pela resposta dos Estados Unidos, Obama respondeu com um comentário solidário (que já reuniu mais de 170 mil gostos): “Sim, ainda podes fazer a diferença no mundo, e estamos orgulhosos de que queiras seguir os teus sonhos aqui. Bem-vindo à tua nova casa. És parte daquilo que torna a América fantástica”.