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Quem perdeu pode ganhar. Surpresas e paradoxos das regionais francesas

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YVES HERMAN/REUTERS

Devido à lei eleitoral, a segunda volta das regionais francesas deste domingo pode traduzir-se numa derrota do partido de Marine le Pen, que ganhou domingo passado, e mesmo levar os socialistas, claramente derrotados na primeira volta, à vitória

Os nacionalistas franceses da Frente Nacional (FN), de Marine le Pen, podem aparecer na noite deste domingo com um sorriso amarelo, apesar de terem vencido as eleições regionais na primeira volta, no domingo passado, que confirmaram a sua ascensão, que já três recentes anteriores eleições – europeias, municipais e departamentais – tinham realçado.

A FN tem hoje um eleitorado consolidado e não foram apenas a crise dos refugiados e os atentados de 2015 que favoreceram a instalação da FN no primeiro plano da cena partidária francesa. O voto nos nacionalistas franceses já é um voto de adesão, não é apenas um voto de protesto, como foi frequentemente no passado.

Mas a FN, que ganhou claramente a primeira volta, pode perder neste domingo, e quem perdeu há oito dias pode agora ganhar.

A participação eleitoral estava em forte alta neste domingo (às 17 horas locais era de 7 pontos a mais do que no domingo passado) e os socialistas contavam com a mobilização dos eleitores de esquerda e de direita para travar a chegada ao poder regional dos nacionalistas, que podiam conquistar, segundo projeções, a presidência do máximo de quatro regiões.

Mas, sem aliados e, por conseguinte, sem reservas de votos essenciais para vencer no sistema eleitoral francês maioritário a duas voltas, a FN pode acabar por não ganhar em nenhuma região.

Marine le Pen sabe isso e sublinhou esta realidade por meias palavras no fim da campanha eleitoral. “A FN está sozinha contra todos, denuncio uma campanha de Estado contra nós”, disse, numa alusão evidente aos apelos ao voto contra ela do primeiro-ministro, Manuel Valls (que chegou a evocar a possibilidade de uma guerra civil se ela chegasse ao poder), e às desistências socialistas a favor da direita nas principais regiões que lhe são favoráveis.

Com efeito, os resultados da segunda volta das regionais poderão parecer paradoxais e de difícil compreensão para as pessoas não iniciadas no sistema político francês.

Os perdedores de domingo passado, designadamente os socialistas, que ficaram em terceiro lugar com apenas 23 por cento dos votos, poderão finalmente ganhar a presidência em mais de meia dúzia de regiões e transformarem-se, deste modo, nos vencedores do escrutínio deste domingo.

Tudo isto porque o PS, que foi claramente sancionado pelos eleitores na primeira volta, tem reservas de votos à esquerda designadamente junto dos comunistas e ecologistas com os quais se aliou para a segunda volta.

O PS pode por isso ganhar este domingo e ultrapassar mesmo Os Republicanos, de Nicolas Sarkozy, que receberam 27 por cento dos votos há uma semana (ficaram em segundo), mas que agora crescerão pouco por terem concorrido desde o início aliados os centristas.

Tal como a FN, Os Republicanos não têm reservas de votos para a votação decisiva desta segunda volta e é por isso que o PS se poderá transformar no vencedor desta noite. No entanto, a vitória socialista será enganadora porque o verdadeiro retrato eleitoral do mapa político francês foi feito na primeira volta.

Os 28 por cento alcançados pela FN há oito dias provocaram ondas de choque no PS e em Os Republicanos, partidos que se encontram cada vez mais divididos. François Hollande e Nicolas Sarkozy, que pretendem ser candidatos às presidenciais em 2017, saíram enfraquecidos destas regionais.

No seu partido, Sarkozy é já contestado abertamente pela ala moderada e já nem sequer foi convidado a discursar nos comícios desta semana pelos seus cabeças de lista na maioria das regiões.

Quanto a Hollande, apesar de ter aumentado o seu prestígio com a recente Cimeira do Clima, bem como a sua popularidade depois dos atentados e com a guerra ao Daesh, resguardou-se e nem sequer falou sobre os resultados eleitorais da primeira volta, que lhe foram muito desfavoráveis.

Abalada pela vitória da FN na primeira volta, a vida política e partidária francesa vai conhecer grandes convulsões nos próximos tempos.

Marine le Pen já avisou que, dentro de menos de ano e meio, decorrem novas eleições – as presidenciais, para as quais as sondagens a continuam a colocar largamente em primeiro lugar, na primeira volta.

Nesta perspetiva, e se esta tendência das sondagens se concretizar na votação para o Eliseu, nessa altura sim, o mundo voltará a olhar espantado e com algum choque para a França.