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Paris, a vida depois das mortes

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MATTHIEU ALEXANDRE/GETTY IMAGES

Há precisamente um mês, depois dos atentados de Paris, o Presidente francês disse que o país estava em guerra. A França ficou de luto e foram várias as homensagens e manifestações de solidariedade. A França chora ainda os seus mortos

Helena Bento

Jornalista

Faz este domingo um mês que três jovens entraram na sala de espetáculos Le Bataclan, em Paris, e abriram fogo indiscriminadamente sobre aqueles que assistiam ao concerto dos Eagles of Death Metal. Morreram 89 pessoas. No mesmo dia, e praticamente à mesma hora, outros dois homens faziam-se explodir junto ao Estadio de França, onde se jogava o amigável França-Alemanha, e outros dois disparavam sobre grupos de amigos e casais que jantavam nos restaurantes Le Belle Equipe e Le Petit Cambodge ou bebiam um copo no bar Le Carrillon. No total, morreram 130 pessoas pessoas nessa noite, uma sexta-feira, 13 de novembro.

Seguiu-se a ‘caça aos homens”. Só há três dias foi identificado o último dos três suspeitos do ataque no Le Bataclan. Tinha 24 anos, e tal como os outros dois, nascera em França. A sua identificação veio confirmar que os atentados foram cometidos por uma maioria de cidadãos franceses e belgas que passaram pela Síria nos últimos anos.

Na Síria, precisamente, a situação é ainda mais infernal do que há um mês. Depois dos atentados, o Presidente francês François Hollande disse que a França estava em guerra e garantiu que os combatentes do autoproclamado Estado Islâmico, a quem chamou de "exército de fanáticos", iriam ser destruídos.

A França pediu ajuda aos Estados Unidos e os Estados Unidos, que estão a bombardear a Síria desde setembro do ano passado, mostraram-se dispostos a ajudar. A França pediu ajuda ao Reino Unido e o Reino Unido, que já tem efetuado ataques aéreos no Iraque, também se mostrou disposto a ajudar. Agiu depressa. Numa quarta-feira, discutia-se se o Governo britânico deveria ou não ser autorizado a bombardear a Síria e na madrugada do dia seguinte já os caças da Força Aérea Britânica estavam a atacar alvos nesse território. O mesmo aconteceu com a Alemanha (recentemente) e com a Rússia, que já lançava ataques aéreos no país deste setembro deste ano, mas comprometeu-se a reforçar a ofensiva militar aérea.

Ao fim de três meses, os Estados Unidos continuam a acusar a Rússia de atacar sobretudo os inimigos do Presidente sírio Bashar al-Assad. No sábado, numa entrevista à Lusa, o embaixador russo em Lisboa negou que apenas 30% dos ataques russos tenham visado alvos do autoproclamado Estado Islâmico desde o início da intervenção militar da Rússia na Síria, como acusaram recentemente os Estados Unidos.

A França foi atacada, quer vingar os seus mortos e evitar mais vítimas, mas os únicos países que podem ajudá-la continuam longe de se entenderem. Entretanto, a Síria está a ser bombardeada por todos os lados e os cidadãos sírios já nem sequer distinguem os aviões russos dos raides dos EUA ou da França. Não distinguem aqueles que, por falta de informação ou coordenação, ou de informações fiáveis, continuam a atacá-los quase todos os dias. O Observatório Sírio dos Direitos Humanos disse recentemente que os ataques aéreos que a Rússia vem conduzindo desde setembro já provocaram a morte de cerca de 400 civis. Também os Estados Unidos têm sido responsáveis pela morte de centenas de civis na Síria, apesar de garantirem que os seus bombardeamentos têm sido "precisos" e "disciplinados".

Os cidadãos sírios têm medo. É por isso que estão a deixar a Síria. Querem ter uma vida digna, longe das bombas e das explosões, longe da morte. Mas não são os únicos. Também os cidadãos franceses têm hoje muito mais medo do que há uns meses. Basta olhar para os resultados da primeira volta das eleições regionais em França, que se realizaram no domingo passado, dia 6 de dezembro. A Frente Nacional (FN), liderada por Marine le Pen, ficou à frente em seis das 13 regiões e foi o partido mais votado. Os atentados de Paris entraram pela campanha e impuseram temas que têm sido bandeiras da FN, como a segurança, o terrorismo e a imigração.

Horas depois destas eleições, Bono, vocalista dos U2, que atuava no lotado AccordHotels Arena, gritava que Paris é a cidade dos amam a liberdade, perante uma audiência emociada, e Patti Smith subia ao palco para homenagear as vítimas do atentado e lembrar que as pessoas têm o poder de sonhar, governar e redimir o trabalho dos "idiotas", em "People have the power". As homenagens aos mortos preencheram, aliás, muitos destes 30 dias que passaram sobre a data fatídica.

A segunda volta das eleições realiza-se este domingo. Os franceses vão novamente votar e Marine Le Pen tem sérias hipóteses de ganhar a presidência de pelo menos duas regiões - Norte-Pas-de-Calais-Picardia e Provence-Alpes-Côte d'Azur.