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Guantánamo. Ex-detido revela que Tony Blair sabia da tortura e não agiu

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Bob Strong / Reuters

Shaker Aaamer, britânico de 48 anos, foi detido pouco tempo depois dos atentados do 11 de setembro. Esteve preso em Guantánamo até outubro deste ano, sem nunca ter sido formalmente acusado

Helena Bento

Jornalista

Alex Salmond, ex-primeiro-ministro da Escócia, defendeu que Tony Blair e Jack Straw, ex-ministro britânico dos Negócios Estrangeiros, devem relevar aquilo que sabem sobre a alegada tortura e violência de que foi alvo o britânico Shaker Aaamer durante os 14 anos em que esteve detido na prisão de Guantánamo.

Shaker Aaamer, 48 anos, foi detido pouco tempo depois do 11 de setembro por supostas ligações à Al-Qaeda. Da Base Aérea do Exército dos Estados Unidos em Bagram, no Afeganistão, foi enviado para Guantánamo, em 2002. Esteve preso durante 14 anos sem nunca ter sido formalmente acusado. Em outubro deste ano, foi finalmente liberdado, e na sua primeira entrevista na condição de ex-recluso disse que Tony Blair e o ex-ministro britânico Jack Straw sabiam que ele era torturado e nada fizeram para impedir isso.

O também ex-líder do Partido Nacionalista Escocês (PNE), Alex Salmond, disse numa entrevista recente à BBC que as alegações de Shaker Aaamer "não são insensatas", muito pelo contrário, e que merecem uma justificação. "Os Governos têm muitas responsabilidades, mas a responsabilidade principal é manter os seus cidadãos em segurança. Não é suposto os Governos colaboraram em detenções ilegais e na tortura dos seus próprios cidadãos" disse Salmond. Para ele, é muito claro que tanto Blair como Jack Straw "têm de nos dizer exatamente o que sabiam e quando".

O ex-ministro britânico já veio desmentir as acusações. "Passei grande parte do meu tempo enquanto ministro dos Negócios Estrangeiros a insistir com os Estados Unidos para que libertassem os prisioneiros britânicos que estavam detidos em Guantánamo". Tony Blair também já se pronunciou sobre o assunto. Um porta-voz seu garantiu que o antigo primeiro-ministro sempre condenou o uso da tortura, tanto em público como em privado, e que a considera "absolutamente inaceitável".

Um artigo publicado no "Guardian" no mês em que Shaker Aaamer foi libertado, descrevia a sua detenção como "um dos episódios mais vergonhos e feios da história dos serviços de segurança britânicos", precisamente porque havia informações de que Blair e o seu ministro estavam à par do que acontecera Shaker Aaamer - desde que foi capturado no Afeganistão pelos chamados "caçadores de recompensas", sem que houvesse qualquer indício de que integrava realmente a Al-Qaeda, até ser entregue às forças norte-americanas e enviado, posteriormente para Guantánamo, onde foi, tal como muitos outros prisioneiros, violentado, torturado e humilhado.

Alex Salmond foi o último dos 16 prisioneiros britânicos ou residentes no Reino Unido que estiveram detidos em Guantánamo a ser libertado. Nenhum deles foi alguma vez formalmente acusado. A maior parte saiu em 2005. Em 2010, aos que ainda restavam foi-lhes oferecida uma compensação no valor de um milhão de dólares (cerca de um milhão e 300 mil euros em euros) para que retirassem as suas queixas contra os ministros e serviços secretos britânicos. Por causa disso, muitos testemunhos e relatos sobre a cumplicidade entre o Reino Unido e os Estados Unidos durante a chamada "guerra ao terror", após os atentados do 11 de setembro, nunca chegaram a ver a luz do dia.