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Internacional

Intervenção saudita no Iémen pode gerar novo “efeito Síria”

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Local da explosão do carro-bomba que, no dia 6, matou Jaafar Mohammed Saad, governador de Aden

FOTO EPA

Coligação sunita faz recuar os rebeldes houthis, mas vazio de poder abre a porta ao Daesh

A intervenção militar no Iémen liderada pelos sauditas está a ter duas consequências perversas: por um lado, consome cada vez mais recursos, desviando meios aéreos das missões na Síria e Iraque contra o Daesh; por outro, desestabilizou o Iémen e criou um vazio de policiamento e de autoridade aproveitado pelos ultrajiadistas para reforçarem a sua presença, caso tanto da Al-Qaeda na Península Arábica como do próprio Daesh. É a repetição noutro país do Médio Oriente do processo que levou à fragmentação da Síria e do Iraque e na sua transformação parcial num jiadistão.

Na quinta-feira, forças da coligação saudita tomaram as ilhas Hanish, à entrada do Mar Vermelho, importante centro de contrabando de armas. A conquista ocorre após semanas de intensos bombardeamentos aeronavais e é um passo importante para isolar os rebeldes houthis (pró-xiitas) que continuam a resistir no interior do país. A vitória em Hanish é ensombrada pelas contínuas emboscadas às colunas sunitas. E sobretudo pelo atentado que no passado dia 6 vitimou o governador de Aden. O Daesh já reivindicou a autoria da explosão que matou o general Jaafar Mohammed Saad e cinco guarda-costas, o que mostra o crescente poder do grupo no Iémen e a insegurança nos territórios pretensamente conquistados pela coligação liderada pela Arábia Saudita.

Na Síria, onde a situação continua indefinida, uma inédita trégua entre rebeldes moderados e exército lealista permitiu a saída pacífica da oposição armada de Homs, o berço da revolução. Os russos estão a deslocar material para uma base aérea vizinha o que, segundo os analistas, poderá prenunciar a reconquista da cidade-património de Palmira perdida para o Daesh a 20 de maio.

Em Raqqa, capital do “califado”, nada de novo. Sendo uma cidade árabe, os curdos não desejam perder soldados fora do seu território natural. As milícias árabes e cristãs ainda são demasiado fracas para enfrentar o Daesh e os ataques aéreos norte-americanos ainda não demoliram as defesas ultrajiadistas. Os curdos são a chave para o coração do “califado”, mas as divisões étnicas continuam a ser um entrave quase tão grande como o próprio Daesh.

Ainda a braços com as consequências do abate do jato russo no fim de novembro, a Turquia mergulhou numa nova crise diplomática quando, no passado fim de semana, enviou 300 homens e 20 blindados para uma base em Bashiqa, perto de Mossul (ainda sob controlo do Daesh). Bagdade reagiu com firmeza: “É um ataque à soberania do Iraque”, repetiu um indignado Al-Haider Abadi, o primeiro-ministro, que deu aos turcos 48 horas para retirar.

Crise turco-iraquiana

A Turquia já tinha presença nesta base desde março, quando 80 soldados começaram a treinar milícias sunitas, fiéis ao ex-governador da província de Nínive, Atheel al-Nujaifi, aliado de Ancara. Se contarmos com outros pequenos destacamentos militares turcos estacionados no curdistão iraquiano, ao abrigo de programas de treino dos peshmergas, a Turquia terá 3000 homens no Iraque, o terceiro contingente estrangeiro depois dos EUA e do Irão.

Com pouco espaço de manobra na Síria, muitos questionam os verdadeiros motivos da operação militar turca. Com o Daesh cercado em Mossul, a segunda cidade do Iraque, há quem veja aqui uma tentativa de fortalecer as milícias sunitas, que competem com curdos e xiitas num Iraque cada vez mais sectário.

“É uma forma de Ancara se afirmar no tabuleiro do Médio Oriente”, escreveu o analista político Fehim Tastekin. Outros sugerem que Ancara pretende contrabalançar a crescente influência iraniana em Bagdade e conter os separatistas curdos do PKK, cada vez mais ativos na vizinha Síria.

Entretanto, em Ramadi, a oeste de Bagdade, perdida para o Daesh a 17 de maio, tropas iraquianas e milícias xiitas estão perto do centro da cidade.

A conquista da “ponte palestina”, sobre o Eufrates, abre caminho para os bairros de Albu Thiab e Albu Faraj, cuja conquista é fundamental para dominar o norte da cidade.

Entretanto, aviões norte-americanos largaram panfletos a alertar a população para o assalto iminente e intensificam-se os combates em torno das pontes Omar, Haouz e Qassim, que garantem acesso ao centro onde o Daesh quer resistir até ao fim.