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Aquilo que ele achava que tinha de ser feito

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Tim Boyle / Getty

Naquele dia, Frank Stack, um antigo combatente e fervoroso adepto dos Green Bay Packers, um clube de futebol americano, saiu de casa, pegou no carro e dirigiu-se ao centro onde o filho de 48 anos residia. Uma hora depois, foi buscar a filha. Os dois sofriam de deficiência profunda. Depois, dirigiu-se a casa, em Elmhurst. O que aconteceu depois nunca ninguém saberá ao certo - mas é uma tragédia e chamam-lhe “homicídio por misericórdia”

Helena Bento

Jornalista

Frank Stack, 82 anos, era um pai muito dedicado. Visitava o filho, Francis, pelo menos uma vez por semana, no centro para pessoas com necessidades especiais onde ele vivia, em Chicago. Os dois iam passear de carro. Às vezes, o pai levava-o a jantar lá a casa. Outra vezes, dava-lhe um bolo e dizia-lhe que partilhasse com as pessoas que trabalhavam no centro e com os outros residentes, seis no total, todos eles homens.

Essa dedicação ao filho era de tal modo intensa que às vezes se confundia com obsessão. Há um exemplo que ilustra bem isto. A certa altura, a visão de Francis, ou Frankie, como lhe chamavam habitualmente, começara a deteriorar-se progressivamente. O médico dissera que a falta de visão estava associada a um problema na retina, mas Frank recusara-se a acreditar nisso. Dizia que o filho estava assim porque uma das assistentes do centro lhe tinha batido na cabeça. "Frank tinha um lado que tu não irias querer conhecer. Tenho a certeza de que naquele dia desancou o pessoal da Ray Graham [associação que supervisiona o centro]. Frank nunca estava feliz. Nunca estava satisfeito com nada", disse Bill Mueller, uma vizinha sua, a Jeff Himmelman, jornalista do "New York Times" que conta a história em detalhe num artigo publicado no jornal. Os dias após a operação do filho foram particularmente desgastantes para Frank. Andava inquieto. Metera na cabeça que a sala de estar no centro onde Francis passava muito tempo não era suficientemente iluminada e que ele não iria recuperar da cirurgia.

Mas Francis (48 anos) não era o único membro da família com deficiência. Mary, uma das suas três irmãs (as outras eram Gloria e Barbara), de 57 anos, também residia num centro para pessoas com necessidades especiais em Woodridge, também no estado do Illinois (EUA). Mary gostava muito de olhar para revistas. Era assim que passava os seus dias no centro, sentada numa cadeira numa das salas mais sossegadas, com vista para o jardim. As suas revistas preferidas eram aquelas que tinham fotografias de bebés.

No dia 30 de agosto de 2014, um sábado, vésperas do Dia do Trabalhador nos Estados Unidos, Frank saiu de casa, em Elmhurst, nos subúrbios de Chicago, pegou no carro e dirigiu-se ao centro onde residia o seu filho. David Clark, o supervisor que se encontrava de serviço, não escondeu a surpresa ao vê-lo ali naquele dia (a sua visita era esperada apenas no dia seguinte, domingo, como sempre acontecera até então). Frank disse que Joan, sua esposa e mãe de Francis, queria ver o filho, e garantiu que o traria de volta ao centro ao final da tarde. Uma hora mais tarde, Frank, já com o filho no carro, dirigiu-se ao centro onde estava a filha e apresentou uma justificação semelhante. A mãe estava doente e queria ver a filha.

Francis e Mary sofriam de deficiência profunda. Francis não conseguia falar, tinha convulsões frequentemente e precisava de ajuda para ir à casa de banho. Mary conseguia dizer algumas palavras, poucas e a grande custo, mas também precisava de atenção constante e ajuda para desempenhar tarefas como vestir-se e comer. Durante muito tempo foram os pais que tomaram conta de Francis e Mary, mas quando eles próprios começaram a envelhecer e a ficar mais frágeis (Joan, também com 82 anos, sofria de uma doença extremamente debilitadora), tiveram de colocar os filhos em instituições capazes de lhes prestar os cuidados necessários.

Nesse mesmo dia, e depois de as assistentes encarregadas de tomar conta de Joan terem ido embora, Frank telefonou a David Clark, o supervisor. Eram 18h33. "Preciso que me faças um favor", disse-lhe Frank. "Peço-te que telefones à minha filha Gloria, que está em Wisconsin, e lhe digas que estão quatro pessoas mortas cá em casa", continuou. "Acabei de matar Francis, Mary e Joan, e estou prestes a matar-me a mim também". O supervisor implorou-lhe que não o fizesse, mas Frank limitou-se a dizer que ia fazer "aquilo que tinha de ser feito". Depois, desligou. David Clark ainda tentou ligar novamente para casa, mas ninguém atendeu. Deixou uma mensagem no atendedor de chamadas, que Frank nunca chegaria a ouvir. Quando a polícia chegou ao local, encontrou três corpos - o de Frank, Joan e Francis - num quarto no rés-do-chão da casa. Mary estava na sala de estar, sentada numa cadeira. Tinha uma revista no colo.

Frank Stack era um homem corpulento. Combatera na guerra da Coreia e era um fervoroso adepto dos Green Bay Packers, um clube de futebol americano. Os vizinhos descreveram-no ao jornalista do "New York Times" como uma espécie de patriarca, muito gentil, sempre disposto a ajudar o próximo. Às vezes também conseguia ser muito teimoso e temperamental, mas todos achavam que fazia parte do seu charme. Joan não lhe ficava atrás. Católica devota, "uma santa", dedicava-se com esmero às lides da casa e não havia um dia que não cozinhasse para o marido. Tinha uma saúde muito frágil, mas conseguia esquecer-se facilmente dos seus problemas para se preocupar apenas com os dos outros.

Peter Berns, presidente de um dos maiores grupos de advogados do país especialistas em casos envolvendo pessoas com deficiência, explicou ao jornalista que há muitos pais e outros cuidadores que matam aqueles que estão ao seu cuidado. É o chamado "homicídio por misericórdia". Os pais estão certos de que quando morrerem não haverá quem cuide dos filhos, e, sobretudo, não haverá quem o faça tão bem quanto eles o fizeram, mesmo que os filhos sejam entregues a instituições especializadas. Acham que a morte é preferível à vida. Por isso, fazem "aquilo que tem de ser feito". Mas isso não vale como justificação, segundo Peter Berns. "Quem comete estes atos são pessoas com problemas mentais. Pessoas criminosas. Independentemente do tipo de desafios que estes pais enfrentam, não há nada que justifique isto". Donna Cohen, psicóloga e professora na University of South Florida, tem a mesma opinião. "Não se trata de um ato de amor. Trata-se de um ato de desespero e depressão", disse.

Tanto Gloria como Barbara, as outras filhas do casal, recusaram-se a falar ao jornalista, mas na noite dos homicídios Gloria disse a um polícia que o pai era um "santo". No dia seguinte, em conversa com um vizinho, disse que ele tinha sido "o homem mais corajoso do mundo". Alguns dias depois, enviou um comunicado aos meios de comunicação garantindo que as ações do pai, naquele fatídico 30 de agosto, tinham vindo "de um lugar de amor". O próprio David Clark, que atendera o telefone naquele dia, não condena os atos de Frank Stack. "Eles eram uma família amável, e é essa a imagem que devemos passar. Ninguém sabe porque é que aquilo aconteceu. As pessoas que realmente sabem já cá não estão para contar."