Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Comunidade internacional condena declarações de Donald Trump

  • 333

DARREN HAUCK / Reuters

Na segunda-feira, o candidato às eleições presidenciais norte-americanas partilhou um comunicado na sua conta no Twitter em que defendia um bloqueio “completo e total” à entrada de muçulmanos nos EUA, tanto a imigrantes como a turistas

Helena Bento

Jornalista

Donald Trump disse que todos os muçulmanos devem ser total e imediatamente impedidos de entrar nos Estados Unidos e as reações às suas palavras não se fizeram tardar. Líderes internacionais, instituições religiosas, jornalistas e editores, cidadãos, políticos, refugiados e organizações não-governamentais já condenaram as declarações polémicas feitas na segunda-feira pelo candidato às eleições presidenciais norte-americanas.

O primeiro-ministro britânico, David Cameron, fez saber, através de um porta-voz, que "discorda completamente" das declarações de Trump, que considera "inúteis" e "fruto de equívocos". "O primeiro-ministro foi muito claro ao dizer que aquilo que os políticos precisam de fazer é encontrar formar de aproximar as comunidades e deixar claro que estes terroristas não representam o Islão. O que eles estão a fazer, na verdade, é uma perversão do Islão", afirmou o porta-voz.

Também o primeiro-ministro francês, Manuel Valls, condenou as declarações de Trump e escreveu na sua conta do Twitter que o magnata, "tal como outros, alimenta o ódio" e os mal-entendidos. "O nosso único inimigo é o islamismo radical".

A palavra "único" aparece escrita em letras maiúsculas. Annie Gowe, jornalista do "Washington Post", escreve que Manuel Valls quis, além de atingir Trump, deixar uma crítica a Marine Le Pen e à Frente Nacional (FN), que na primeira volta das eleições regionais, realizada no domingo passado, mostrou que o mapa político de França pode vir a mudar de forma radical. A FN ficou à frente em seis das 13 regiões e foi o partido mais votado. Annie Gowe diz que Marine Le Pen se aproveitou do medo que as pessoas sentem em relação aos muçulmanos e ao terrorismo para vincar opiniões que se traduziram em votos no domingo, "ainda que as principais vozes tenham promovido a moderação".

Também a Casa Branca já se pronunciou sobre os declarações polémica de Trump. Fê-lo esta terça-feira, considerando que são "moralmente repreensíveis" e que terão "consequências" para a segurança norte-americana. Além disso, desqualificam Trump como candidato à presidência norte-americana. "O que Donald Trump disse desqualifica-o para ser presidente", afirmou Josh Earnest, porta-voz de Barack Obama. Apesar das declarações polémicas, ou graças a elas, Trump continua a liderar as sondagens na corrida do Partido Republicano.

Na segunda-feira, o magnata partilhou um comunicado na sua conta no Twitter que dizia: "Donald J. Trump apela a uma total e completa interdição da entrada de muçulmanos nos Estados Unidos até que os representantes do nosso país consigam perceber o que está a acontecer". A veracidade do comunicado foi confirmada por um representante da campanha do magnata ao jornal "The New York Times". E o responsável pela campanha, Corey Lewandowski, disse à Associated Press que a proibição defendida pelo candidato seria aplicada "a toda a gente", tanto a imigrantes como a turistas.

Mais à frente, no comunicado, lê-se: "Até que consigamos perceber este problema, e a perigosa ameaça que ele apresenta, o nosso país não pode ser vítima de ataques horríveis lançados por pessoas que apenas acreditam na jihad, e que não têm qualquer respeito pela vida humana." No mesmo dia, horas depois, Trump leu o documento durante um comício em Charleston, na Carolina do Sul, perante uma audiência submissa e entusiasta, que o aplaudiu com euforia, conta o "Washington Post".

Declarações de Trump preocupam refugiados

Melissa Fleming, porta-voz da Agência das Nações Unidas para Refugiados, mostrou-se preocupada com as declarações. Teme que venham a pôr em causa os processos em curso relativos ao acolhimento de refugiados, refere a Reuters. É que apesar de terem sido endereçadas a uma "população inteira", afetam particularmente os refugiados, sublinhou.

Os próprios refugiados também já mostraram a sua preocupação. Num dos campos localizados no Vale de Bekka, no Líbano, que David Cameron e o seu colega libanês, Tamam Salam, visitaram em setembro deste ano, teme-se que conseguir asílio nos Estados Unidos deixe de ser uma possibilidade.

"Como é que um país que sempre falou sobre os direitos humanos e a liberdade faz isto ou até considera isto?", questiona Bourhan Salem, 32 anos, que deixou a Síria para escapar à violência e encontra-se agora instalada naquele campo. "Será que eles sabem o que nós já sofremos?", diz, citada pelo "Washington Post".

Donald Trump é esperado em Israel no final deste mês, mas também lá as suas declarações já tiveram eco. Chemi Shalev, colunista israelita do "Haaretz", escreve que a multidão a aplaudir Trump "faz lembrar os primeiros dias do nazismo na Alemanha".

"A alguns judeus, os milhares de apoiantes que agitam os punhos com raiva, enquanto Trump incita ao ódio contra os muçulmanos e defende que eles sejam totalmente impedidos de entrar nos Estados Unidos, podem fazer-lhes lembrar os salões de cerveja em Munique, há um século".