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Os planos do Daesh para construir um estado

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Documento foi publicado pelo “The Guardian” - jornal sublinha que o Daesh “já é muito mais do que a soma dos seus combatentes”. Em simultâneo, foi divulgado um estudo que revela que o Daesh arrecada 75 milhões de euros por mês nos territórios que controla na Síria e no Iraque, mas “começou a perder dinheiro” desde verão do ano passado

Um texto revelado pelo jornal britânico “The Guardian” esta segunda-feira mostra os planos do autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) para construir um estado entre a Síria e o Iraque. No documento, intitulado “Princípios da administração do Estado Islâmico”, é estabelecido o modelo para as relações internacionais diplomáticas, propaganda, controlo centralizado de petróleo, gás e outras partes vitais da economia.

O documento secreto, assinado pelo egípcio Abu Abdullah e escrito entre julho e outubro do ano passado, chegou às mãos do “The Guardian” por um empresário que estaria a negociar com o Daesh, via Aymenn al-Tamimi, um investigador académico que tem dedicado parte do seu trabalho a estudar a forma de financiamento do grupo radical islâmico.

Ao longo de 24 páginas são descritos planos para áreas como a saúde, educação, comércio, recursos naturais, indústria, relações públicas e diplomáticas, campos militares, comunicação e emprego. Como escreve “The Guardian”, o Daesh “já é muito mais do que a soma dos seus combatentes”.

No caso dos campos militares, são dados detalhes sobre os treinos das tropas regulares e dos veteranos. Estes últimos só deverão assistir anualmente - ao longo 15 dias - a um curso de atualização, onde haverá explicações sobre as armas mais recentes e “informação detalhada sobre as tecnologias” do inimigo.

Outras das revelações passa pela utilização de crianças na guerra. Esta é a primeira vez, segundo “The Guardian”, que o Daesh clarifica que sempre teve a intenção de treinar crianças. No texto é estabelecido que os mais novos receberão “treinos sobre manuseamento de armas”, dos quais serão selecionados os melhores para integrarem patrulhas e postos de controlo.

O texto sublinha ainda a procura pelo Daesh de uma cultura unificada, abrangendo nativos e estrangeiros, bem como a necessidade de autossuficiência com a criação de “fábricas para produção militar e comida”.

As perdas militares das últimas semana e alguns árabes sunitas de Raqqa avançam que o plano poderá ser melhor no papel que na prática. Já Aymenn al-Tamimi, o académico que fez chegar o documento ao jornal britânico, refere que os mais de 300 documentos que analisou no último ano mostram o objetivo de contruir um país com raízes fundamentalistas. “É um projeto que aspira a ter um governo. Não é o caso em que o único fim é uma batalha interminável”, explica o investigador.

75 milhões por mês, mas dificuldades financeiras

Um estudo publicado esta segunda-feira, em Londres, avança que o Daesh arrecada 75 milhões de euros por mês nos territórios que controla na Síria e no Iraque, mas regista dificuldades financeiras. De acordo com o IHS, um instituto de análise e monitorização de conflitos com sede em Londres, metade destes rendimentos é obtida em taxas e confiscações e 43% com o petróleo e gás, atividades debilitadas pelos bombardeamentos da coligação internacional e da Rússia.

O Daesh tem dificuldade em equilibrar o orçamento e recentemente terá sido obrigado a baixar os salários dos combatentes e a aumentar o preço de serviços como eletricidade, sublinha o IHS. E acrescenta que o grupo extremista sunita procura financiamento alternativo e passou a taxar sistematicamente a população, que procura abandonar o território sob o seu domínio.

O IHS identifica seis fontes de rendimentos do Daesh: “produção e tráfico de petróleo e gás, taxas sobre atividades comerciais nos territórios que controla, confiscação de terras e propriedades, tráfico de drogas e antiguidades, atividades criminosas como assaltos a bancos ou raptos com pedido de resgates, e empresas públicas”.

De acordo com o IHS, o Daesh não depende de contribuições de particulares ricos, nomeadamente do Golfo, como acontece com a rede terrorista Al-Qaeda. “Controla um aparelho estatal (na Síria e no Iraque) e aplica taxas à população, confisca propriedades, cria riqueza com empresas públicas, bem como com o petróleo e gás. Os outros grupos terroristas não têm isto”, explicou à agência noticiosa francesa AFP Columb Strack, analista do IHS.

“Ao mesmo tempo, porque gere um ‘estado’, a maior parte deste dinheiro vai para a gestão deste território. Não é como se conseguissem fazer 75 milhões para gastar em armas e bombas”, sublinhou. Ludovico Carlino, um outro analista do IHS, acrescentou que o grupo extremista “cobra uma taxa de 20% sobre todos os serviços”, como a eletricidade, as redes telemóveis ou indústria.

A coligação internacional e a Rússia atacam o Daesh na carteira quando bombardeiam campos petrolíferos e de gás, principalmente no leste sírio. E, para Strack, “os esforços feitos para atingir as fontes de rendimento do Daesh estão a começar a compensar”, nomeadamente ao conseguirem reduzir a capacidade de transformar estas matérias-primas. Além disso, os acessos à Turquia são reduzidos, o que obriga o Daesh a voltar-se para os mercados sírio e iraquiano para vender petróleo.

Strack afirmou que o apogeu do poderio do Daesh se verificou no verão do ano passado, após a conquista de Mossul, no Iraque. “A partir daí, perderam terreno e começaram a perder dinheiro.”