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Vitória histórica de Marine Le Pen nas eleições regionais

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JULIEN WARNAND/EPA

Frente Nacional, de Marine le Pen, ganha primeira volta das eleições regionais em França. França em choque: nacionalistas vencem ao nível nacional e podem conquistar presidência de diversas regiões. Cozinha eleitoral tenta travar nova vitória na segunda volta

As primeiras estimativas sobre a primeira volta das eleições regionais francesas apontam para a vitória da Frente Nacional (FN), de Marine le Pen.

De acordo com projeções nacionais sobre os resultados, a FN é agora o primeiro partido de França com 30,6 por cento, seguido por Os Republicanos (27 por cento) e o PS (22,7 por cento).

Nalgumas regiões, como no sudeste e no norte, a FN alcançará mais de 40 por cento dos votos, segundo estimativas que apontam, ainda, para a FN ser o partido mais votado em sete das 13 regiões francesas. A França está em choque esta noite com estes resultados eleitorais.

"Todos contra Marine le Pen" foi a palavra de ordem em França durante a campanha eleitoral. Alguns dos mais significativos setores da sociedade francesa, grande patronato, boa parte da imprensa, artistas, e partidos de direita e de esquerda, fizeram coro para tentar travar o partido (FN) da líder nacionalista francesa, que as sondagens davam como vencedor este domingo, na primeira volta das eleições regionais.

Este 6 de dezembro de 2015 é um dia histórico para Marine le Pen. Esta noite, a direita e a esquerda não sabem o que fazer para a travar e ainda não decidiram se organizam desistências recíprocas ou se constituem listas comuns para a impedir de chegar à presidência de algumas regiões na segunda volta, cuja votação decorre dentro de uma semana. O eventual desentendimento entre os socialistas e a direita vai favorecer a FN, na segunda volta – esquerda e direita têm apenas um par de dias para conseguirem chegar a um acordo.

Mas, mesmo com acordo para a segunda volta entre a direita e a esquerda, o partido de Marine le Pen tem sérias hipóteses de ganhar no próximo domingo a presidência de pelo menos duas das 13 regiões francesas – Norte-Pas-de-Calais-Picardia e Provença-Alpes-Côte d’Azur. O que pode acontecer no próximo dia 13 nestas duas grandes regiões é muito fácil de compreender: a FN pode vir a presidir ao destino de 11 milhões de franceses, ou seja mais do que toda a população residente em Portugal continental.

Refugiados e atentados beneficiaram Marine le Pen

Durante a pré-campanha, Marine Le Pen beneficiou dos efeitos de dois acontecimentos marcantes: a crise dos migrantes às portas da Europa e os atentados terroristas de 13 de novembro. Estes dois assuntos deram novo fôlego aos dois argumentos históricos da FN, partido que sempre foi contra a imigração e a desenvolvimento do islamismo em França.

Com os atentados terroristas, apenas ela e o Presidente da República, François Hollande, cresceram nas sondagens. Mas a subida de Hollande (20 por cento de apoios a mais) é apenas um reflexo de defesa e de unidade dos franceses na guerra contra o terrorismo e não beneficiou o seu partido, o PS.

Os franceses estão de acordo com a declaração de guerra de Hollande ao Daesh (Estado Islâmico), com o estado de emergência no interior do país e com as milhares de rusgas nos meios fundamentalistas islamitas franceses. Mas não votaram pelo PS nas regionais.

O terrorismo e o islamismo radical colocaram em segundo plano os temas tradicionais das eleições regionais que eram antigamente sobretudo a agricultura, os transportes, o turismo, o ensino ou a saúde.

No sudeste, a jovem Marion Maréchal-le Pen, sobrinha de Marine e cabeça de lista regional da FN, falou todos os dias, durante a campanha eleitoral, nas raízes cristãs da França que “nunca foi muçulmana e nunca o será”. A tia, e líder, Marine, candidata no norte, foi mais longe sobre as questões migratórias, identitárias e de segurança e pediu que “nem mais um migrante seja recebido em França porque além do mais vêm terroristas com eles”.

Sem alianças consistentes da parte direita e da esquerda, a neta de Jean-Marie le Pen, fundador da FN, pode ganhar a presidência dessa zona com forte poder económico e que inclui cidades como Marselha, Nice e Cannes, tal como Marine tem fortes hipóteses de vencer no norte, cuja capital é Lille.

Pesadelo e cozinha eleitoral

Mas o cenário, neste domingo de primeira volta, é ainda mais pesado para alguns franceses. É um verdadeiro pesadelo para todos os que chamam “fascistas” aos lepenistas porque a FN pode conquistar ainda mais regiões devido ao facto de Os Republicanos (novo nome da UMP, do ex-presidente, Nicolas Sarkozy) e a esquerda não se entenderem na estratégia da chamada “Frente Republicana” (todos contra a FN, através de desistências e fusões de listas) para a segunda volta, no próximo domigo.

Com efeito, para a segunda volta, na votação decisiva para definir quem vai dirigir as regiões, no caso de se verificarem “triangulares” com listas autónomas da FN, dos Republicanos e da Esquerda, os lepenistas surgem em posição muito favorável em pelo menos mais quatro regiões.

Nicolas Sarkozy, chefe de Os Republicanos, radicalizou o discurso durante a campanha, abraçou teses da FN, mas os seus candidatos Republicanos não conseguiram fazer na primeira volta deste domingo a diferença.

O PS, através do presidente Hollande e do primeiro-ministro, Manuel Valls, também sublinharam as suas políticas marciais contra os radicais islâmicos: intensificaram ataques na Síria e no Iraque, fecharam mesquitas, prenderam centenas de pessoas depois dos atentados de novembro e pretendem mesmo retirar a nacionalidade francesa aos jiadistas.

Marine le Pen já vencera as últimas eleições europeias e apenas foi contida nas eleições autárquicas e departamentais que se seguiram em França pelo sistema eleitoral maioritário a duas voltas que penaliza os partidos que não conseguem concretizar alianças entre a primeira e a segunda voltas.

A partir desta noite, o debate em França vai ser este: como impedir a FN de conquistar a presidência de algumas das 13 regiões francesas? Apenas será possível se a esquerda e a direita se entenderem para constituírem a chamada “Frente Republicana contra a extrema-direita”.

Mas, mesmo nessa eventualidade, será preciso que os respetivos eleitores sigam à letra as orientações dos estados-maiores partidários. Para travar a FN, a tradicional cozinha eleitoral francesa, sempre original devido à lei eleitoral, vai ter resultar numa estratégia clara que evite a cacofonia nas diversas regiões.

Nestas eleições regionais, apenas votaram metade dos eleitores franceses, apesar de tudo mais quase cinco por cento do que nas anteriores eleições.

Foi um escrutínio especial, porque decorreu sob o estado de emergência: devido aos terríveis atentados de há três semanas, os eleitores votaram com polícias e militares armados junto às assembleias de voto, exatamente como acontece em alguns países envolvidos em guerras civis.