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“O petróleo é inofensivo...” Assim começa um poema de Fayadh, o saudita condenado à morte

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Ashraf Fayadh tem 35 anos e foi condenado à morte por um tribunal saudita. Poetas, escritores e organizações de Direitos Humanos pedem clemência e a comutação da pena do homem que cantou as “gotas da chuva”

“O petróleo é inofensivo, exceto no rastro de pobreza que deixa para trás”, assim começa um poema de Ashraf Fayadh, 35 anos, poeta de origem palestiniana condenado à morte por apostasia na Arábia Saudita.

O pedido de libertação imediata de Ashraf Fayadh levou o site da associação cultural e literária “Pen International” a dar voz a uma campanha que mobiliza cerca de 200 escritores e poetas em todo o mundo.

“Nós, poetas e escritores de todo o mundo, estamos revoltados com as autoridades sauditas pela condenação à morte do poeta palestino Ashraf Fayadh por apostasia. Não é crime defender uma ideia, mesmo que impopular, nem é crime expressar uma opinião pacificamente. Cada indivíduo tem a liberdade de acreditar ou não acreditar. A liberdade de consciência é um direito humano essencial. A sentença de morte contra Fayadh é o mais recente exemplo de falta de tolerância no reino da Arábia Saudita”, lê-se no texto divulgado pelo Pen.

O “Pen International” pretende mobilizar a atenção internacional para pressionar as autoridades sauditas a comutar a pena de Fayadh, que tem de apresentar recurso da sentença que o condena a morte até 17 de dezembro.

Fayahd diz que tudo começou com uma discussão

A sentença de Fayahd foi proferida a 17 de novembro e na sua origem estão “supostas declarações blasfemas durante uma discussão em grupo e num [dos seus] livros de poesia”, de acordo com a organização de Direitos Humanos “Human Rights Watch” (HRW).

Fayadh tem 30 dias para apresentar recurso a partir da data em que foi proferida a sentença. A campanha internacional da HRW lembra que Fayadh “nega as acusações e declara que um outro homem fez acusações falsas à polícia religiosa” da Arábia Saudita, na sequência de uma “disputa pessoal.”

Uma irmã em Gaza e a tradutora em Brooklyn

No seu blogue, Mona Kareem, que vive em Brooklyn [um dos bairros de Nova Iorque], traduziu para inglês vários poemas de Fayahd.

“Faltam gotas de chuva
que poderiam lavar todos os restos do passado (...)

Talvez Sarah Leah Whitson, responsável da HRW para o Médio Oriente, acredite no poder redentor das gotas de chuva: “A Arábia Saudita deve parar de prender pessoas por causa das suas convicções pessoais”.

De acordo com o jornal britânico “The Guardian”, Fayadh nasceu na Arábia Saudita, apesar de ter origem palestiniana; segundo o “CIA World Factbook” os palestinianos só têm direito a estatuto de residentes legais no país.

Raeda, a irmã do poeta que vive em Gaza, enviou um pedido de clemência ao rei da Arábia Saudita, onde lhe implora perdão para o irmão mais novo: “Rogo ao rei que perdoe o meu irmão. Apelo ao Ministro da Justiça e ao Ministério do Interior, para olhar e verem que não há nenhum caso aqui”, disse Raeda numa entrevista ao jornal “The National”. O Expresso enviou um conjunto de perguntas a Raeda e aguarda resposta.

Por agora, sabemos que escritores e organizações de Direitos Humanos se vão bater pela comutação da pena de Fayad, o poeta que também é membro da plataforma artística “Edge of Arabia”, fundada em 2003 pelo artista britânico Stephen Stapleton em conjunto com colegas sauditas. Resta esperar pelo poder redentor das gotas de chuva na justiça saudita...