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Estado Islâmico. “Esse exército de fanáticos será destruído”?

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Reuters

O Daesh está a ser bombardeado pelos americanos há um ano e meio; pelos russos e pelos franceses há dois meses. Mas a estratégia baseada em ataques aéreos não conseguiu (ainda?) destruir o inimigo declarado. Será necessário invadir o território do Estado Islâmico com tropas terrestres? E a que custo?

Helena Bento

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Jornalista

Cristina Pombo

Cristina Pombo

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Sofia Miguel Rosa

Sofia Miguel Rosa

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Carlos Paes

Carlos Paes

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Esse exército de fanáticos será destruído”, garante Hollande. “A qualquer custo”, reforça Putin. Mas “será uma campanha longa”, previne Obama. O inimigo comum é o Daesh, o autodenominado Estado Islâmico. Mas as forças que os bombardeiam não são uma coligação, ainda que o Presidente francês o deseje – e pressione. A estratégia de ataque (primeiro dos Estados Unidos, depois da Rússia, e finalmente de França) tem sido pelo ar, mas a eficácia dessa opção tem sido questionada, sobretudo depois dos atentados de Paris. A geografia das possíveis alianças e o método de ataque estão num momento de transição. Assim como reforçar a ofensiva com mais tropas terrestres.

Há ataques aéreos diários, tropas especiais no terreno a identificar alvos e forças a dar treino a grupos rebeldes ditos moderados. A Rússia, os Estados Unidos e países como a França, que fazem parte da coligação liderada pelos norte-americanos, têm feito tentativas de coordenação, e depois dos atentados de Paris de 13 de novembro, que causaram a morte a 130 pessoas, intensificaram os bombardeamentos em curso contra os alvos jiadistas e reafirmaram o seu apoio às forças locais que estão no terreno. "A França está em guerra", disse na altura o Presidente francês, François Hollande.

Apesar disso, o debate sobre a real eficácia dos bombardeamentos na Síria mantém-se. Continua a discutir-se a natureza dos alvos atingidos, as verdadeiras intenções e motivações dos países envolvidos no combate, se a campanha aérea e a operação terrestre são suficientes para eliminar o autoproclamado Estado Islâmico.

Como o Estado Islâmico está a ser bombardeado

Luís Tomé, professor do departamento de Relações Internacionais da Universidade Autónoma de Lisboa, diz que os resultados dos bombardeamentos são "incertos" e "insuficientes", e que há informações "contraditórias". Os Estados Unidos garantem que, desde que começaram a bombardear a Síria, no verão de 2014, o Estado Islâmico "já recuou cerca de 30%", tanto por via dos ataques aéreos, como das forças aliadas no terreno”, explica o também coordenador científico do Observare - Observatório de Relações Exteriores, centro de estudos da universidade onde leciona.

Também Lamis Andoni, especialista e comentadora da estação de televisão Al-Jazeera para os assuntos do Médio Oriente, e uma das fundadoras do site de notícias "Al-Araby Al-Jadeed", defende que "não é certo que o ISIS [abreviatura em inglês de Estado Islâmico do Iraque e do Levante] esteja agora mais fraco". "A força do ISIS não se mede apenas através dos seus ganhos territoriais, mas também pela expansão das suas operações e também daquelas que inspira. Estamos a assistir a mais explosões, incluindo em Tunes [Tunísia] e todos os países estão em alerta", explica.

A comentadora palestiniana considera mesmo que o facto de a campanha aérea não ter conseguido ainda alcançar os resultados previstos (não evitou, por exemplo, que os jiadistas conquistassem a totalidade da Ramadi, capital da província iraquiana de Anbar, e pouco tempo depois entrassem na cidade síria de Palmira) levanta a suspeita "de que o ocidente quis enfraquecer o grupo mas só até conseguir manter um 'caos controlável' na Síria, fazendo do país um Estado fraco e prevenindo a emergência de um líder credível".

Já Alex Vatanka, investigador do Middle East Institute, em Washington (EUA), não tem dúvidas de que os ataques aéreos estão a ter "impacto militar e psicológico no Daesh", e Luís Valença Pinto, ex-chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, e um dos chefes militares que mais de perto acompanhou a participação portuguesa no conflito do Afeganistão, lembra que o Daesh, "no máximo do seu apogeu, ocupou uma área desde Alepo até Bagdade, e teve 10 milhões de pessoas sob a sua ação".

Agora essa área "está cortada de um terço a um quarto, precisamente por causa dos ataques aéreos". A "população a viver nas cidades ocupadas pelos jiadistas será hoje de cerca de oito milhões", acrescenta. Por isso, acredita que a campanha aérea, apoiada pelos militares e outros grupos no local, tem tido "alguma eficácia seja para destruir seletivamente recursos como até para eliminar alguns líderes".

"É obrigatório não diabolizar já o senhor Assad"

Em final de setembro, o governo de Moscovo autorizou os primeiros bombardeamentos sobre território sírio. O primeiro ataque aéreo, levado a cabo numa quarta-feira, visou alvos em três regiões do noroeste sírio. Outros ataques seguiram-se, tendo sobretudo como alvos grupos de rebeldes que combatem o Exército sírio de Bashar al-Assad (responsável pela morte de cerca de oito mil sírios entre janeiro e julho deste ano, segundo dados recentes da Rede Síria para os Direitos Humanos), o que viria a suscitar dúvidas sobre as verdadeiras motivações de Moscovo.

A palestiniana Lamis Andoni não tem dúvidas de que a Rússia está genuinamente preocupada com o extremismo islâmico, sobretudo na região do Cáucaso, mas acredita que a intervenção russa na Síria é "só mais uma oportunidade para Moscovo se afirmar como uma força de peso na região e ter êxito enquanto tal".

Também Luís Valença Pinto lembra que a Rússia tem um "interesse direto" no assunto por causa da sua "longa e escaldante fronteira com o mundo muçulmano e dos terríveis problemas de islamismo radical que enfrenta dentro de portas". Por isso, considera que qualquer plano que venha a ser estabelecido para a Síria tem de incluir obrigatoriamente a Rússia, mesmo que isso implique manter Bashar al-Assad no Governo, pelo menos provisoriamente. "Há uma coisa que é obrigatória, que é não diabolizar já o senhor Assad. Ainda não sabemos o que queremos dele e o que queremos fazer com ele. A presença dele acaba até por garantir alguma estabilidade", acrescenta o ex-chefe do Estado-Maior general das Forças Armadas.

A posição dos Estados Unidos em relação ao assunto é conhecida. Washington insiste que só cooperará militarmente com a Rússia se Moscovo assumir um papel "construtivo" numa solução política para a Síria, aceitando o afastamento de Bashar al-Assad, e deixar de bombardear os inimigos do Presidente sírio, muitos deles apoiados pelas forças da coligação.

Luís Valença Pinto acredita, no entanto, que Barack Obama vai acabar por ceder. "É tudo um jogo de vantagens e inconvenientes. O que é preferível? Julgar e condenar Assad ou permitir que ele vá para um exílio dourado e discreto e que a Síria possa ser recuperada com a ajuda internacional? Se perguntarmos aos sírios, eles irão certamente dizer que preferem a segunda hipótese, porque será mais estabilizadora para a região", diz.

"É difícil não suspeitar que muitos edifícios civis são atingidos de propósito"

Luís Tomé diz que uma das principais fragilidades da campanha aérea é a "falta de rigor e credibilidade das informações que chegam do terreno", devido à natureza e modus operandi do Daesh e à atual situação da Síria, que é "caótica". "O Daesh, embora tenha aspetos de exército convencional, não o é, não se rege pelas convenções internacionais. Além disso, não tem quartéis típicos e mistura-se com grande facilidade com a população local", tornando-se camuflado, o que dificulta ataques aéreos precisos e bem calibrados, explica Luís Tomé.

No terreno estão também forças "com capacidades totalmente distintas", tratando-se por isso de um "conflito assimétrico". Um estudo de 2013 de Charles Lister, especialista em terrorismo e segurança da Brookings Institution, em Washington, citado num relatório anual da Universidade de Oxford sobre o conflito armado na Síria, revela que existem cerca de mil grupos rebeldes a combater em território sírio.

Informações erradas ou adulteradas podem provocar "uma tragédia colateral em larga escala", diz Luís. O Observatório Sírio dos Direitos Humanos (SOHR, na sigla em inglês) disse recentemente que os ataques aéreos que a Rússia vem conduzindo desde setembro já provocaram a morte de cerca de 400 civis. E apesar de os Estados Unidos garantirem que os seus bombardeamentos são os "mais precisos e disciplinados da história da guerra aérea", há indicações claras de que muitas centenas de civis foram mortos pela coligação no primeiro ano de ataques aéreos. Segundo um relatório publicado em agosto deste ano pela Airwars, organização independente e sem fins lucrativos que monitoriza a guerra na Síria e no Iraque, mais de 450 civis morreram desde o início da guerra aérea.

Os especialistas entrevistados têm uma opinião diferente sobre os efeitos colaterais da guerra na Síria. Luís Valença Pinto diz que "todas as campanhas aéreas contêm danos colaterais” ainda que ninguém as queira causar, sendo até difícil, no caso da Síria, "identificar quem é civil e quem não o é". Já a palestiniana Lamis Andoni diz que, "dada a tecnologia sofisticada que estas forças militares usam, é difícil não suspeitar de que muitos edifícios civis são atingidos de propósito". "Em algumas doutrinas militares, é normal instalar o medo nas populações para que elas se tornem a base social do inimigo", acrescenta a comentadora, que já num artigo publicado no site da Al-Jazeera comparara a ofensiva militar em curso na Síria à intervenção norte-americana no Afeganistão e no Iraque após a queda das Torres Gémeas, em Nova Iorque.

"Depois do 11 de setembro, os Estados Unidos exploraram descaradamente o medo e o sofrimento das pessoas para levar a cabo a sua própria campanha de terror sofisticada, repleta de tudo o que aquela tecnologia militar podia oferecer, e providenciando uma cobertura 'civilizada' para o que foram essencialmente assassínios em massa de populações inocentes no Afeganistão, Iraque e Paquistão", lê-se no texto.

Resposta tem "sido curta"

Apesar de considerar que a campanha aérea tem tido "alguma eficácia", Luís Valença Pinto reconhece que o combate ao Daesh tem sido "insuficiente" e que a resposta tem sido "curta e com muitas falhas". "Fomos talvez surpreendidos pela dimensão e virulência do processo. Só percebemos essa virulência quando vimos jiadistas a decapitar pessoas". Dados do Observatório Sírio para os Direitos Humanos dizem-nos que o autoproclamado Estado Islâmico executou desde junho de 2014 mais de 10 mil homens, mulheres e crianças na Síria e no Iraque.

Para o ex-chefe do Estado-Maior general das Forças Armadas, é preciso uma melhor articulação entre os serviços de informações dos vários países que combatem o Daesh, ultrapassando esse "grande tabu que existe em todo o lado, particularmente na Europa e em Portugal, onde ainda se associa muito os serviços de informação à PIDE", e "trazer os sunitas que estão reféns dos jiadistas para a primeira linha de combate". "O problema que o islamismo está a causar hoje ao mundo só se resolve com os muçulmanos. Só eles é que o podem resolver. Nós podemos e devemos estimular, apoiar, ajudá-los a ter eco e ser parceiros no que toca à segurança. Mas não podemos fazer nós o guião. Têm de ser eles a fazê-lo", diz Luís Valença Pinto.

Sobre a possibilidade de enviar mais tropas para o terreno, Valença Pinto diz que o "desejável é que a resposta seja muito muçulmana" e que a presença de outras forças militares é uma "questão em aberto". "Eu não consideraria uma entrada naquela região como se entrou no Iraque e no Afeganistão, mas entre isso e uma presença qualquer vai um mundo de distância", acrescenta.

Também Luís Tomé descarta a hipótese de ocupar a Síria com militares. "Sou dos que acha que não justifica fazer operações terrestres se for possível conciliar os atores externos, como a Rússia, os países árabes, EUA e Europa. É preferível ter esta convergência do que introduzir dinâmicas de escalada que criam novos níveis de insegurança e novos dilemas", diz.

O especialista do Middle East Institute, Alex Vatanka, acredita que o autoproclamado Estado Islâmico "só poderá ser derrotado se a comunidade internacional e os poderes regionais concordarem em [partilhar] algum tipo de quadro político mínimo em que os atores locais possam vir a ocupar o espaço que o Daesh deixará inevitavelmente em aberto quando for eliminado". "Os números falam por si. O Daesh tem cerca de 30.000 combatentes, 15.000 dos quais são mercenários vindos de fora, e a Síria tem uma população de 22 milhões de pessoas. É fácil perceber que não terá apoio suficiente assim que houver uma frente internacional genuína a combatê-lo", explica.

"França tem sido dos países mais permissivos"

O facto de os recentes atentados de Paris terem sido o segundo ataque na cidade este ano foi justificado por alguns especialistas com fatores como a discriminação, o isolamento e sentimentos de exclusão vividos pelos muçulmanos residentes nos seus subúrbios, em parte promovidos por políticas como a proibição das burcas. Um artigo publicado em agosto na revista "New Yorker", e republicado após os atentados em Paris, assinado por George Packer, dá conta de vários casos de discriminação contra muçulmanos na capital francesa.

Uma das mulheres entrevistadas, Fanta Ba, filha de imigrantes senegaleses, conta que para concorrer a um emprego tem de identificar-se pelo seu nome do meio, "France", afrancesando o seu apelido ("Bas"), porque se não o fizer nunca conseguirá um trabalho. Outro muçulmano, Brahim Aniba, de Bobigny, um bairro nos "banlieues" (subúrbios) de Paris, conta que num encontro com um consultor na área do trabalho foi aconselhado a dar uma morada falsa, algures no centro de Paris, e a identificar-se como "B." e não "Brahim", pelas mesmas razões.

Luís Valença Pinto considera que França tem sido "um dos países mais permissivos em relação aos muçulmanos", com políticas de integração "altamente generosas". Da parte dos muçulmanos, o que há é uma "grande tentação de viver do estado social", diz, dando como exemplo o caso de um político que se perpetuou como burgomestre de Molenbeek, em Bruxelas, "mediante concessões absurdas e ilegítimas às comunidades muçulmanas". "É um trade off absolutamente intolerável, é como ceder às máfias ou outra coisa parecida".

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