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Turquia. Jornalistas detidos por revelarem envio de armamento para rebeldes sírios

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Cidadãos turcos a manifestam-se em defesa dos jornalistas detidos

OZAN KOSE / Getty

Vítimas da ira do próprio Presidente Erdogan, que em junho apresentou queixa, os dois repórteres foram agora detidos

Dois jornalistas foram detidos pela polícia turca esta quinta-feira, acusados de espionagem e de terrorismo. Can Dündar e Erdem Gül, do diário turco Cumhuriyet, foram responsabilizados pela publicação de um artigo em que foi revelado o envolvimento de membros da Agência de Inteligência Nacional (AIN), os serviços secretos turcos, no envio de armamento para grupos rebeldes sírios.

Os factos remontam ao início de 2014 e foram publicados no dia 29 de maio deste ano. Além de fotografias, o diário turco disponibilizou vídeos em que uma coluna de camiões é alvo de buscas junto à fronteira da Turquia com a Síria. Vários polícias e militares turcos são observados a inspecionar o conteúdo das caixas, confirmando tratar-se de armas. O Cumhuriyet acrescenta que esse armamento foi posteriormente enviado para rebeldes sírios turcomanos que combatem o regime de Bashar al-Assad.

O incidente já levou à prisão de vinte e seis militares envolvidos nas buscas, por alegadamente terem interferido numa operação da AIN, que a lei isenta de qualquer busca.

A queixa contra os jornalistas foi feita pelo próprio Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, no dia 2 de junho, tendo afirmado na altura que a história “incluía imagens e informação que não era factual” e que “quem a escreveu rira pagar muito caro”.

No dia 24, dois dias antes da prisão dos dois jornalistas, Erdogan voltou a referir-se ao caso dizendo ser irrelevante se os camiões transportavam ou não armamento: “Que diferença faria os camiões transportarem armas?”, concluindo que a publicação da história é uma “traição” que visou criar a perceção de que a Turquia está a apoiar grupos terroristas.

Erdogan acusa os jornalistas de “tentarem manipular a justiça” com material fabricado e de “violarem a confidencialidade” ao publicar a história. Segundo Presidente, os camiões entregaram material humanitário aos turcomanos sírios e os jornalistas são cúmplices na “sabotagem” dessa ajuda com o propósito de prejudicar a imagem a sua e a do seu partido.

A detenção dos jornalistas já levou ao protesto dos partidos da oposição. Várias pessoas juntaram-se também nas imediações da redação do Cumhuriyet para prestar o seu apoio aos dois jornalistas. Figen Yuksekdag, do partido HDP, descreveu a prisão como um “massacre da lei” e que “ninguém está a salvo num país em que a verdade não pode ser expressada de forma livre”.

O incidente ganha particular relevância após um caça F-16 da força aérea turca ter abatido um bombardeiro SU-24 russo na terça-feira dia 24. O confronto aconteceu após um aumento de tensão entre a Turquia e a Rússia, precisamente devido aos intensos ataques que a aviação russa tem realizado contra grupos rebeldes sírios de etnia turcomana, e que levaram à convocação do embaixador russo no dia 20. Na altura o Ministério dos Negócios Estrangeiros turco advertiu o embaixador para as “sérias consequências” que poderiam ocorrer caso a Rússia prosseguisse os ataques contra aldeias turcomanas.