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Rússia abandona coligação contra o Estado Islâmico se voltar a ser atacada pela Turquia

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O presidente russo também criticou os Estados Unidos, a cujas forças explicara o trajeto que o caça russo abatido pela Turquia planeava seguir

Alexander Zemlianichenko/ Reuters

Em conferência de imprensa com o homólogo francês, o Presidente russo esclareceu os termos do entendimento com França e com a coligação liderada pelos EUA para combater o Daesh. Mas impôs condições: se o abate do caça russo efetuado por aviões turcos se repetir, a Rússia não vai cooperar com “nenhum país e nenhuma coligação”

A Rússia vai continuar e até intensificar os bombardeamentos que visam atingir posições do autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) na Síria, mas só na condição de a Turquia, que integra a coligação internacional que combate o Daesh, não voltar a abater aviões russos envolvidos na operação, como aconteceu na passada terça-feira. A garantia foi dada pelo Presidente russo após o encontro desta quinta-feira com o seu homólogo francês, François Hollande, em Moscovo.

“Estamos prontos para cooperar com a coligação liderada pelos Estados Unidos. Mas incidentes como a destruição do nosso avião militar e mortes dos nossos agentes são completamente inaceitáveis”, esclareceu Vladimir Putin, reforçando que a Rússia está a “supor que isto não se vai repetir, caso contrário não cooperará com ninguém, nenhuma coligação, nenhum país”.

Na conferência de imprensa em que falou ao lado de Hollande, Putin esclareceu ainda que a cooperação com França, intensificada depois o Daesh ter feito cair um avião comercial russo na Pensínsula do Sinai, no Egito, vai assentar em vários pilares: “Acordámos os moldes da nossa cooperação no futuro próximo, numa base bilateral e no contexto da coligação internacional. Estamos a falar da designação de territórios que devemos atacar, da troca de informação relativa a várias temáticas, e da coordenação das nossas ações no chamado terreno”, explicou.

No entanto, o chefe de Estado russo também deixou críticas aos Estados Unidos, líderes da coligação que combate o Daesh. Putin revelou que, no contexto da cooperação com o país de Obama, a Rússia terá dado informações relativas ao trajeto que o caça russo que foi abatido na terça-feira iria fazer. Para Putin, o abate do aparelho, efetuado pelas forças turcas com o argumento de que estaria em espaço aéreo turco, só pode ter duas explicações: “Ou os americanos não controlam as ações dos seus próprios aliados ou estão a divulgar amplamente estas informações”, acusou.

Neste ponto, as versões avançadas por Rússia e Túrquia voltam a não bater certo. É que se Putin põe a hipótese de ter havido uma fuga de informação pela qual responsabiliza os Estados Unidos, a Turquia já veio dizer que não tinha conhecimento de que o avião em causa fosse russo. “Se soubéssemos que o caça era russo talvez o tivéssemos avisado de outra forma”, explicou o Presidente turco Recep Erdogan, em declarações dadas à estação televisiva francesa France 24 esta quinta-feira. Erdogan adiantou ainda que tentou contactar Putin por telefone após o incidente, mas o seu hómologo não terá atendido a chamada.

Abate afetou “profundamente” relações entre Rússia e Turquia

As relações entre Rússia e Turquia sofreram um forte abalo depois do abate do caça russo que supostamente se encontraria no espaço aéreo turco, embora ainda não estejam apuradas as circunstâncias exatas em que tudo aconteceu, uma vez que se as forças turcas garantem ter emitido “dez avisos em cinco minutos” ao avião militar, o piloto que sobreviveu assegura não ter recebido qualquer alerta.

Na quarta-feira, o ministro dos Negócios Estrangeiros russo Sergey Lavrov esclareceu que o seu país “não está a planear uma guerra contra a Turquia”. No entanto, Lavrov aproveitou para deixar claro que o abate do caça russo, comparado por Putin a “uma facada nas costas”, terá consequências: “As relações entre os dois países serão profundamente revistas à luz do ataque ao nosso avião”.