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O empresário que derrotou Cristina Kirchner

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TRANSIÇÃO. Macri representa uma mudança de 360º na política argentina após 12 anos de kirchnerismo

ENRIQUE MARCARIAN/reuters

Mauricio Macri é o novo Presidente da Argentina e o terceiro não peronista a conquistar o poder desde o fim da ditadura militar, em 1983. A sua não foi uma vitória fácil: tendo ganho as eleições com uma vantagem de apenas quatro pontos, não conta com a maioria de deputados e senadores que lhe permitiriam prescindir da negociação. Esta será a chave do seu mandato num país descontente e dividido

Dias antes de ser eleito Presidente da Argentina, no fecho da campanha, Mauricio Macri ouviu do seu rival nas urnas um impropério que não fugia à verdade. Daniel Scioli dizia-lhe: “Os argentinos vão votar entre um arrogante de Barrio Parque e um trabalhador do povo.” Barrio Parque é nada menos que a zona 'bem' de Buenos Aires, um bairro abastado de casas impecáveis e caríssimas, também conhecido por Palermo Chico. E se a comparação soa exagerada, é porém o retrato caricatural de uma eleição que dividiu o país e cujo resultado demonstra isso mesmo: com 51,4% dos votos contra 48,6%, Macri venceu. Mas não venceu apoteoticamente. A sua vitória contém a derrota de não contar com maioria nas Câmaras de deputados e senadores. Como disse há dias o “The Guardian”, “Macri pode vir a perceber que é mais fácil ganhar a chave da Casa Rosada [sede do Governo argentino] do que completar quatro anos de mandato”.

Se o conseguir, será o primeiro Presidente não peronista a fazê-lo desde o fim da ditadura, em 1983. Neste momento, em que todas as hipóteses permanecem em aberto, ele já é o primeiro que, nos últimos 70 anos, não pertence a qualquer dos dois partidos do arco do poder na Argentina — o Partido Peronista ou a União Cívica Radical (UCR) — tendo sido eleito pelo Cambiemos, uma aliança entre a velha UCR e o relativamente novo PRO.

Mauricio Macri é um outsider e representa uma mudança de 360º na orientação política da Argentina, desde logo por querer o contrário do que queria a sua antecessora, Cristina Kirchner, e antes desta Néstor Kirchner, falecido em 2010. Aos 12 anos de kirchnerismo — de raiz peronista e orientação de esquerda, populista para alguns — irá agora contrapor-se uma direita liberal que representa sobretudo a elite do país e uma classe média descontente com o seu rumo político.

“A ideia é governar para todos”, disse porém Macri na sua primeira conferência de imprensa. E este será talvez o seu maior desafio. Desde o início da campanha presidencial que o facto de provir de uma família abastada e teoricamente afastada da realidade de um país com 22% de pobreza não jogou a seu favor, e Macri tudo fez para contrariar esta imagem. Talvez o gesto mais simbólico tenha sido o de fechar a campanha em Jujuy, no norte do país, muito longe da capital cujo Governo chefiou por quase uma década, nos confins de uma Argentina já não branca e rica mas indígena, carente e silenciosa.

Mudança de imagem

Quem o conhece diz que ele mudou. Teve de o fazer para, nos dois meses que separaram a primeira da segunda volta eleitoral, se impor face ao candidato da continuidade. E convencer um eleitorado dividido e um país de novo a braços com uma inflação de dois dígitos e um défice previsto de 7%. Para ganhar, optou menos por eventos de massas do que pelo contacto direto: foram centenas de chamadas telefónicas feitas ao acaso, de visitas à casa das pessoas, de idas a clubes, associações, escolas. Tudo para apagar da sua figura qualquer rescaldo de frieza ou de altivez.

Havia razões para isso. Mauricio Macri nasceu em berço de ouro, em Tandil — pampa argentina, província de Buenos Aires — a 8 de fevereiro de 1959. É o primeiro dos seis filhos de Franco Macri, um imigrante italiano chegado à Argentina aos 18 anos que hoje é um dos grandes magnatas latino-americanos da construção. Formou-se em engenharia civil pela Universidade Católica Argentina, chegando a frequentar a Universidade de Columbia, em Nova Iorque. Trabalhou no Citibank antes de entrar para o negócio familiar, tornando-se vice-presidente da holding SOCMA, que dirigia as empresas do Grupo Macri. Porém, a relação com o pai era demasiado complexa e o filho mais velho cedo tentou sair da sua alçada. Casou-se três vezes e tem quatro filhos, a mais nova de quatro anos, fruto da sua relação com a empresária Juliana Awada. Que também terá sido uma influência positiva na preparação da sua nova imagem.

Sequestrado por... polícias

Em agosto de 1991, Macri foi sequestrado à porta da sua casa em Buenos Aires e levado para uma cave minúscula, onde esteve 12 dias fechado. Mais tarde, soube-se que os sequestradores eram polícias no ativo. A sua libertação custou à família um resgate de seis milhões de dólares. E a ele, a prisão deixou-lhe uma agorafobia com que ainda se debate e outras sequelas que rentabilizou durante a campanha para a presidência, mencionando-as em discursos e debates.

Apesar delas, em 1995 conseguiu ser nomeado presidente do Clube Atlético de Boca Juniors, um dos mais populares do país e berço de jogadores como Diego Maradona. Nessa altura, o futebolista resumiu numa frase o estigma que recaiu sobre Macri desde sempre: “É um menino do papá.” Porém, estava a deixar de o ser. Os 13 anos passados à frente do Boca foram a rampa de lançamento da sua carreira política.

A génese de um Presidente

Esta começou formalmente em 2003, ao fundar, no rescaldo da grave crise económica de 2001, o partido Compromiso para el Cambio e ao apresentar-se como candidato a governador de Buenos Aires, perdendo para o peronista Aníbal Ibarra. Dois anos depois, esteve na origem de Propuesta Republicana, ou PRO, pela qual foi eleito deputado. A sua passagem pelo Parlamento destacou-se pela negativa: Macri ausentava-se quase sempre das sessões. 2007, ano em que protagonizou o recorde de não comparecer a nenhuma, foi também o ano em que venceu finalmente as eleições para chefe do Governo de Buenos Aires, que voltaria a ganhar em 2011. Neste cargo manteve-se até ao passado domingo.

Macri já delineou as primeiras medidas que tenciona pôr em prática quando tomar posse, a 10 de dezembro. Fê-lo numa conferência de imprensa, o que constitui um elemento diferenciador da sua antecessora - Cristina Kirchner recusava-se a dá-las, substituindo-as por 'comunicados'. A lista das mudanças é longa e prioritariamente económica, e inclui a liberalização cambial — e consequente desvalorização do peso —, o ajuste fiscal e o fim paulatino dos subsídios à energia, de que 93% dos habitantes de Buenos Aires usufruem.

Macri quer também agir sobre outras feridas da Argentina, prometendo anular o acordo com o Irão que Kirchner assinou há dois anos, para a colaboração na investigação do atentado à Asociación Mutual Israelita Argentina (AMIA) em 1994. Em janeiro deste ano, o procurador Alberto Nisman, encarregue do caso, acusou a então Presidente de promover este acordo com o objetivo de “fabricar a inocência do Irão” e foi morto pouco depois. Outro ponto 'de honra' para o novo governante é realinhar a Argentina em termos de política internacional, anunciando que o primeiro país a visitar será o Brasil. Por outro lado, na próxima cimeira do Mercosur, em dezembro, defenderá a expulsão da Venezuela, por “perseguição aos opositores” (ver caixa).

Encontro que Cristina “não valeu a pena”

Ontem, Macri reuniu-se com Cristina Kirchner para começar a preparar a transição. Mas saiu dececionado. “Não valeu a pena”, queixou-se aos jornalistas no fim do encontro. A ainda Presidente limitou-se a felicitá-lo e só lhe reservou uns parcos 20 minutos. Recusou-se a ceder-lhe quaisquer informações antes de 10 de dezembro, remetendo para essa data a revelação dos números da sua gestão.

Esta atitude não antecipa um futuro fácil para quem será obrigado a uma constante negociação e diálogo com os seus opositores. E a figura de Cristina promete manter-se bem presente no campo judicial, onde nomeou juízes da sua confiança, e na administração pública, que cresceu exponencialmente sob o seu mandato.