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“Macri terá de inventar uma fórmula inovadora para cumprir o seu mandato”

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Andrés Malamud é politólogo no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. É um argentino residente em Portugal e um ativo cronista no seu país de origem

Há dias, o “The Guardian” escreveu: “Macri pode vir a perceber que é mais fácil ganhar a chave da Casa Rosada [sede do Governo argentino] do que completar quatro anos de mandato”. Porquê?
Desde 1928, os únicos presidentes democráticos que conseguiram finalizar o seu mandato foram peronistas: os cinco que não o eram tiveram de renunciar ou foram destituídos. Os presidentes não peronistas enfrentam uma maioria peronista no Senado, nas províncias, nos sindicatos e nos movimentos populares. Por isso, Macri terá de inventar uma fórmula inovadora para cumprir o seu mandato constitucional.

Um dos seus principais desafios será estabilizar a economia do país. De que armas dispõe?
A economia argentina enfrenta enormes distorções — de preços e de competitividade. Porém, já está melhor do que estava em 2001, porque hoje temos uma moeda própria e portanto a possibilidade de implementar uma política monetária. Macri conta com um capital inicial de confiança — os mercados celebraram o resultado eleitoral—, recursos naturais que podem atrair investimento, um Estado não endividado — um dos poucos legados positivos do kirchnerismo —, e a garantia de previsibilidade que a sua equipa promete. São todos competentes economistas.

Que aspetos podem levar a uma rutura com a oposição?
Macri prometeu continuar com as políticas progressistas mais representativas do governo anterior, como a AUH (Assignação Universal por Hijo ou Bolsa Família), as pensões não contributivas ou as empresas nacionalizadas. Por isso, é provável que os confrontos sejam desencadeados mais por política do que por políticas. A luta do peronismo pela sucessão pode levar a que cada setor tente mostrar-se mais opositor que os outros, o que prejudicaria a agenda do governo no Congresso [câmara de deputados].

Escreveu no “La Nación” de ontem que “a rua não vai ser amigável com Macri”. Pode-se dizer que o kirchnerismo não acaba com a saída de Cristina Kirchner?
Após uma década com grandes 'commodities' e alta redistribuição de rendas, as expectativas sociais são muito elevadas. No entanto, o estado atual da economia não irá permitir satisfazê-las, pelo que haverá perdedores. Estes vão protestar, e o peronismo costuma aproveitar-se do descontentamento social. É possível que o kirchnerismo comece diminuir com a passagem do tempo, deixando de personificar um ator tão relevante dentro do peronismo.

Macri quer recolocar a Argentina no quadro internacional. Anunciou que a sua primeira visita de Estado será ao Brasil e quer a Venezuela fora do Mercosur. Por quê?
O Brasil é para a Argentina como Espanha é para Portugal: o principal vizinho e sócio comercial. Isto, nenhum governo irá mudar ou ignorar. Macri não fala de expulsar mas de suspender a Venezuela, aplicando a cláusula democrática do Mercosur, a mesma que se utilizou para suspender o Paraguai há uns anos. O argumento é a existência de presos políticos. Mas as decisões no Mercosur tomam-se por unanimidade, pelo que o mais provável é que ocorra uma negociação que termine 'lamentando' as limitações à liberdade na Venezuela e aconselhando as suas autoridades a melhorar, sem se chegar a suspender o país. A ministra de Relações Exteriores designada, atual chefe de gabinete de Ban Ki Moon, é uma multilateralista pragmática que dificilmente cairá na radicalização ideológica.

  • O empresário que derrotou Cristina Kirchner

    Mauricio Macri é o novo Presidente da Argentina e o terceiro não peronista a conquistar o poder desde o fim da ditadura militar, em 1983. A sua não foi uma vitória fácil: tendo ganho as eleições com uma vantagem de apenas quatro pontos, não conta com a maioria de deputados e senadores que lhe permitiriam prescindir da negociação. Esta será a chave do seu mandato num país descontente e dividido