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Dos céus para as redações. Como um avião abatido provoca uma guerra de notícias

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ALEXEY NIKOLSKY / SPUTNIK / KREMLIN POOL

Dois dias depois do abate de um caça russo por uma parelha de F-16 turcos, os principais combates registam-se em terra com os media controlados por Moscovo e Ancara a sustentarem versões antagónicas de uma história onde a verdade será o que menos interessa

“Claro que ainda estamos a aguardar explicações sensatas da parte da Turquia”. 48 horas depois, o Kremlin continua à espera que Ancara diga porque razão abateu um caça russo Su-24, lembrou esta quinta-feira em Moscovo o porta-voz do Presidente Vladimir Putin.

“Antes de mais, olhámos para os dados objetivos de que dispomos e vêmos que este ataque criminoso contra um avião russo ocorreu em espaço aéreo sírio”, disse aos jornalistas Dmitry Peskov.

Mas as certezas de Moscovo colidem com a versão turca que dá como certa a violação do espaço aéreo, apesar de múltiplos avisos. Dos céus a batalha passou para os media, com os órgãos estatais russos e turcos a darem destaque às versões oficiais de cada país e a corrobora-las com a opinião de peritos.

A agência turca Anadoulou, dá conta da visita de dois altos chefes militares russos ao Estado-Maior-General das Forças Armadas da Turquia aos quais teriam sido prestados todos os esclarecimentos e apresentadas provas: imagens de radar.

Voz aos peritos

Em grande destaque no site da agência estavam esta manhã dois artigos onde peritos garantiam que os turcos tinham cumprido a práticas internacionalmente estabelecidas e que Putin só se poderia queixar de si próprio.

Na primeira, Mehmet Dalar, professor de Relações Internacionais na Universidade Abant Izzet Baysal, em Bolu, afirma que “se um país identificar uma ameaça à sua segurança [como por exemplo a violação do seu espaço aéreo] poderá intervir” lembrando ainda que a Turquia tem a obrigação de proteger o seu território e as fronteiras com áreas em conflito ainda que não esteja em guerra com esses países.

Já para o professor de Direito Internacional da Universidade de Ancara, Yasin Poyraz, “a violação do espaço aéreo, apesar dos dez avisos, justifica a ação turca que exerceu o seu legítimo direito à autodefesa”, tal como prevê o artigo 51.º da Carta das Nações Unidas.

Acontece que o artigo referido por este especialista garante “o direito inerente de legítima defesa individual ou coletiva” mas apenas no caso de “um ataque armado” e não consta que os russos tenham disparado. Mais dispõe o artigo 51.º da Carta das Nações Unidas que “as medidas tomadas pelos membros no exercício desse direito de legítima defesa serão comunicadas imediatamente ao Conselho de Segurança”.

Num outro artigo, ao final da manhã destacado em manchete no site da Anadoulou com foto do Presidente russo circunspecto, a agência de notícias turca foi uma pouco mais além e contactou em Londres um diretor adjunto do Fórum para a Defesa do Reino Unido (The UK Defense Forum), um espaço de reflexão e debate. Ora, para Nick Watts, “o que aconteceu na terça-feira é o efeito de uma política russa de afronta deliberada às fronteiras da NATO”, a Organização do Tratado do Atlântico Norte, sobretudo a partir de 2014, ano da anexação da Crimeia.

Russos contra-atacam

Na tarde desta terça-feira, os órgãos de comunicação estatais russos (e posteriormente os media internacionais) noticiaram amplamente as declarações do co-piloto que sobreviveu à queda do aparelho. O capitão Konstantin Murakhtin disse que não violou o espaço aéreo turco e que não recebeu “qualquer tipo de aviso, nem via rádio, nem visualmente”. Garantiu ainda numa entrevista gravada em vídeo mas onde o militar russo não mostra o rosto, que o míssil disparado por um dos F-16 turcos que patrulhavam a fronteira atingiu o Su-24 “de um momento para o outro”. Ora, importa sublinhar que estes aparelhos estão equipados com radares capazes de detetar com antecedência o disparo de um míssil feito por outra aeronave que se encontre nas proximidades.

A Turquia respondeu de imediato com um alegado registo áudio dos avisos feitos aos pilotos russos. “Está a aproximar-se do espaço aéreo da Turquia. Siga para sul imediatamente”, ouve-se uma voz dizer.

A Rússia ainda não comentou o áudio. A guerra da informação segue dentro de momentos.