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“A cultura tem de estar na primeira linha do combate ao terrorismo”

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IR À LUTA. Emmanuel Demarcy-Mota: “Não se pode capitular, a cultura é fundamental para bater o terrorismo e para os povos continuarem a dialogar”

JOÃO CARLOS SANTOS

Doze dias depois dos atentados, museus, cinemas e teatros de Paris regressam lentamente a alguma normalidade, mas com segurança extrema. O luso-francês Emmanuel Demarcy-Mota, diretor dos teatros de la Ville, des Abesses e do Festival do Outono, explica ao Expresso porque é que “é imperioso” manter esses locais abertos

Desde as chacinas de sexta-feira 13 numa sala de espetáculos (Bataclan) e em várias esplanadas de Paris, numa zona muito frequentada pela juventude, o conceituado diretor e encenador luso-francês Emmanuel Demarcy-Mota não pára de trabalhar. No seu amplo gabinete, no centro da capital, lança apelos à mobilização dos agentes culturais parisienses, chama os colaboradores para sucessivas reuniões, com uma única preocupação: manter a todo o custo os seus espetáculos em cena.

Tem vários neste momento em Paris, nos dois teatros que dirige (Théatre de la Ville e Théatre des Abesses) e em mais sete salas associadas da região da capital, no quadro do Festival do Outono. “Ganhei a batalha da reabertura, as autoridades obrigaram-nos a fechar no sábado e domingo, 14 e 15, mas na segunda-feira reabrimos, foi uma luta enorme, porque tive de garantir à prefeitura da polícia e ao Governo a segurança de todo o pessoal do teatro, dos artistas e do público, o que fiz”, diz ao Expresso.

Muitos teatros, cinemas e museus parisienses fecharam vários dias logo a seguir aos atentados, mas Emmanuel mexeu-se, contratou seguranças suplementares – 14 em permanência para o Théatre de la Ville, seis para o de Abesses – e falou até com a Presidência da República francesa.

Ao Eliseu pediu, designadamente, que as fronteiras francesas continuassem abertas para deixar passar os artistas e os camiões carregados com o material necessário e urgente para as representações programadas para os seus teatros, nesses dias de intranquilidade e de medo na cidade luz. Conseguiu desse modo que a companhia Schaubuhne de Berlim, vinda da Alemanha, tivesse em Paris todo o material a tempo para a produção da peça “Oedipe Tyran”, encenada por Romeo Castelluci, e que estreou na conhecida sala da praça do Chatelet, como previsto, na passada sexta-feira, dia 20.

O teatro mais internacional de Paris

“Somos o teatro mais internacional de Paris, o que acolhe anualmente mais companhias estrangeiras de teatro, de dança ou de música, tivemos também que garantir a segurança dos artistas na capital, dos alemães, e também do Mali e da China, que tinham espetáculos programados nas nossas salas nessa altura; por precaução até mudámos os artistas de hotel”, acrescenta o português.

“Não podemos parar, a cultura, que foi visada pelos terroristas, tem de estar na primeira linha do combate contra os fundamentalismos, para favorecer o diálogo entre os povos, para as pessoas continuarem a sonhar, para garantir a democracia cultural e lutar pela liberdade de movimento de todos, para, sem autocensura, realizar o futuro; não se pode ficar à espera, a vida tem de renascer, como renasce sempre, mesmo nos lugares mais perigosos do planeta, Paris não é o único sítio onde acontecem atrocidades como esta”, exclama.

Emmanuel sabe que nem todos os diretores de salas parisienses de espetáculos reagiram da mesma forma, que as reaberturas estão a ser mais tímidas em muitos deles, devido a receios, por vezes fundados, a problemas com a segurança, e porque muitos artistas estrangeiros e até franceses cancelaram digressões e representações.

Diz que, no seu caso, depois dos atentados, apenas teve, desde segunda-feira 16, um total de cinco por cento de desistências da parte do público. Noutras salas de Paris que também reabriram durante a semana passada, elas chegaram a atingir 80 por cento. “As desistências no Théatre de la Ville têm a ver sobretudo com os grupos de alunos das escolas e liceus, nós trabalhamos muito com as escolas ,e vamos continuar a fazê-lo, apesar de tudo: como os alunos agora não podem sair em grupo devido ao estado de emergência, vamos nós ter com eles, os nossos artistas vão deslocar-se às escolas, já temos isso programado, e acho que outros teatros deveriam fazer o mesmo”, acrescenta.

Um dia de concertos contra o terror

Muito ativo, o encenador - aplaudido em França e um pouco por todo o mundo pelos seus trabalhos com peças de Pirandello ou de Ionesco -, que é filho do autor francês de teatro Richard Demarcy e da atriz portuguesa Teresa Mota, vai lançar nos próximos dias um apelo a que todas as salas parisienses reabram normalmente e que organizem num dos próximos dias, todas à mesma hora, concertos contra o terror. “Vai ser uma iniciativa pela liberdade de movimento, a liberdade do pensamento e do desejo, pela paz, pela liberdade da crítica em relação aos outros e em relação a nós próprios”, explica.

A ideia dele é que toda a cidade, que é uma das maiores capitais culturais do mundo, ouça à mesma hora, possivelmente com espetáculos gratuitos, poemas e canções pela paz e pela liberdade, contra os fascismos, como por exemplo temas de Joan Baez, David Bowie, Renaud, José Afonso… “Vamos ouvir a Grândola Vila Morena em Paris!”, anuncia.

“A vida cosmopolita da insubmissa Paris não pode morrer, a arte não pode morrer, não podemos baixar os braços – estou de acordo com o Presidente François Hollande quando ele contrapõe o Pacto Anti-Terrorista ao de Estabilidade, mas eu acrescento que também deve ser lançada a necessidade de um Pacto da Cultura, um Pacto da Juventude, sector fundamental contra quem nos quer oprimir e censurar, sobretudo nestes dias negros que correm”, acrescenta.

Com o cancelamento, durante dois dias, dos diversos espetáculos programados, com a contratação de seguranças e outras despesas não previstas, Emmanuel Demacy-Mota diz que avalia os prejuízos totais nos seus teatros em 155 mil euros, até ao fim do ano.

Mas o diretor e encenador, mesmo colocado sob forte tensão, acredita no mundo e na força da criação. A sua encenação de “Rinoceronte”, de Ionesco, criada em 2005, está agora em Tóquio, depois de ter percorrido 34 países. Mostra um jornal japonês, onde um crítico realça a atualidade da peça: a resistência, nem que seja de uma pessoa, à entrada de alguém, um monstro totalitário, em sua casa.