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Mauricio Macri derrota kirchnerismo na Argentina

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DAVID FERNANDEZ / EPA

Na segunda volta das presidenciais, o candidato da direita venceu Daniel Scioli, favorito da Presidente cessante Cristina Kirchner

Antigo presidente do clube de futebol Boca Juniors e amigo do empresariado, Mauricio Macri será o novo Presidente da Argentina a partir de 10 de dezembro e promete uma nova era “maravilhosa”. Os resultados da segunda volta das presidenciais, disputadas ontem, são uma derrota importante de Cristina Kirchner. Macri, da coligação Mudemos, obteve 51,4% dos votos, contra 48,6% para Daniel Scioli (Partido Justicialista), o favorito da Chefe de Estado cessante.

Desde os anos 1990 que a terceira maior economia da América Latina – com 42 milhões de habitantes – não tinha à frente alguém tão liberal. “É um dia histórico”, considerou o próprio, que rejeita quaisquer “vinganças ou ajustes de contas” com o kirchnerismo, corrente que governou o país desde 2003, primeiro com Néstor (Presidente até 2007 , morreu em 2010), depois com a esposa. Mas é também o virar de página em relação ao peronismo, que dominou os últimos 70 anos da política argentina e de que os Kirchner eram herdeiros.

Facilitar o investimento externo e levantar as restrições à circulação de dólares são prioridades de Macri, de 56 anos, que promete ainda combater a pobreza e o narcotráfico e preocupar-se com a qualidade da democracia. Uma das maiores críticas ao regime kirchnerista era a crescente tendência para o populismo autoritário, que terá ajudado à vitória surpresa de Macri na primeira volta, a 25 de outubro.

É de esperar que Macri faça por remendar as relações de Buenos Aires com Londres ou Washington. Cristina Kirchner ressuscitou o nunca encerrado conflito das Malvinas/Falkland com o Reino Unido e teve contendas com os fundos credores da Argentina, que processaram o país, na sequência da crise económica de 2001, em tribunais dos Estados Unidos. A Presidente qualificou-os de “abutres”.

Cativante e polémico

Já com os vizinhos esquerdistas – Venezuela, Equador, Bolívia – pode haver mais tensões. Macri celebrou a vitória ladeado por Lilian Tintori, mulher do preso político venezuelano Leopoldo López, e crê-se que irá pedir a suspensão do país de Nicolás Maduro do Mercosur na próxima cimeira, a 21 de dezembro, por défice democrático. Recorde-se que a Venezuela tem eleições gerais marcadas para 6 de dezembro e a oposição lidera as sondagens.

O casal Kirchner conseguiu erguer o país após o colapso financeiro, que incluiu um resgate pelo Fundo Monetário Internacional, mas o crescimento tem abrandado e a inflação é de mais de 20%. A direita responsabiliza o protecionismo e as políticas sociais do Governo cessante pela instabilidade económica.

Nascido em Tandil, na zona agrária do leste do país, a família abastada, Macri é socialmente conservador: opõe-se ao casamento homossexual e à legalização do aborto e é favorável a controlos à imigração. Foi presidente da Câmara de Buenos Aires e é casado com a modelo Juliana Awada, com quem tem uma filha, além de dois filhos de um casamento anterior.

Personagem tão cativante como polémica, tem o reverso do profundo olhar azul numa série de episódios controversos. Em 1991, passou duas semanas sequestrado, tendo sido libertado contra resgate de seis milhões de dólares. Há foi acusado – mas sempre ilibado – de contrabando, espionagem e ligações a grupos de hooligans na sua etapa futebolística.

Eleito para o cargo máximo, Macri parte para a nova etapa, contudo, com vantagem curta num país dividido e em situação delicada. Está, além disso, em minoria no Congresso e no Senado, pelo que a arte da negociação vai ser indispensável. “Muitas famílias humildes estão preocupadas. Quero dizer-lhes que não têm nada que temer”, prometeu a vice-presidente eleita, Gabriela Michetti, ciente da fama liberalizante do seu chefe. Este apela à união e garante que não se julga “um iluminado que tem todas as soluções”.