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Bruxelas. “Não há de acontecer nada se Deus quiser”

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STEPHANIE LECOCQ

O medo existe? Sim. O pânico? Não. Bruxelas em alerta máximo traduz-se num reforço enorme de polícias e militares nas ruas. A movimentação das sirenes por toda a cidade deixa claro que a investigação prossegue para desmantelar redes terroristas e evitar possíveis ataques

No Parque do Cinquentenário, perto das instituições europeias, Aurienne corre mas apenas porque é a hora do exercício físico. “Todos os fins-de-semana vou fazer desporto, já estava previsto”, conta ao Expresso.

Esta jovem belga tenta manter alguma normalidade na agenda de fim-de-semana porque tudo o resto teve de ser alterado. “Esta manhã tinha previsto fazer um brunch com amigos, que não vieram porque não havia metro. À noite tinha também um jantar com amigos que moram fora de Bruxelas, que não ousaram vir e por isso o jantar ficou sem efeito”.

Nos planos de fim-de-semana estava ainda um concerto que foi cancelado. Aurianne recusa-se, no entanto, a entrar “em paranoia”, diz que é “preciso continuar a viver, sem comprometer a segurança”. E não é a única a pensar assim.

Francis Bernet já passou a casa dos 70 e aproveita o sábado para dar um passeio no parque. À pergunta sobre a inquietação que sente responde quase sem hesitar que não está preocupado. Explica que a situação de ameaça iminente somada aos atentados da semana passada em Paris não o deixam “feliz”, mas mantém a calma como pedem as autoridades. “Somos prisioneiros, na nossa própria casa!”, diz em tom de ironia e de resignação.

Do Cinquentenário à Estação Central de Bruxelas vão três quilómetros. Num dia sem alertas bastariam dez minutos e quatro estações de metro. Mas os transportes públicos subterrâneos estão encerrados. Nenhuma linha de metro em toda a cidade funciona. É preciso ir de carro.

O trânsito flui muito rápido. Em dez minutos chega-se ao centro. É o sinal de que muitos carros ficaram na garagem. Já o exterior da Estação Central está particularmente agitado. Vários carros verdes blindados do exército fazem fila e há militares de metralhadora na mão a vigiar as entradas.

“Quando se chega aqui e se encontra centenas de militares e de carros quase de combate é sempre uma sensação um pouco mais estranha”, confessa Orlando Borges, acabado de chegar do aeroporto.

Antes de apanhar o avião em Lisboa, ouviu a notícia de que o nível de alerta em Bruxelas tinha subido para quatro, passando de “possível e provável” para “sério e eminente”. Mas a viagem já estava marcada e não quis deixar de fazê-la, até porque este é um fim-de-semana para rever a filha que está a estudar em Londres.

“Tentaremos seguir aquilo que são as recomendações adequadas nestas circunstâncias mas não podemos alterar a nossa vida”, conta, ao mesmo tempo que admite que o aparato policial dá uma “certa sensação de segurança.”

Rui Roque e Margarida Casado estão de acordo. Saíram de Albufeira sabendo que podiam encontrar militares nas ruas de Bruxelas, mas não tantos como acabaram por constatar. “Viemos cá passar uns dias. Não estamos assustados nem estamos com medo. E com esta segurança toda também é uma segurança para nós”, diz Rui Roque. “Não há de acontecer nada se Deus quiser”, conclui.

O casal de portugueses admite que não vai alterar o que já tinha programado, ainda que reconheça que pode haver restrições. Os grandes concertos e espetáculos foram cancelados e muitas exposições fecharam portas durante o fim-de-semana.

Árvore de Natal nasce na Grand Place

As iluminações de Natal juntam-se às luzes das sirenes da polícia na capital belga. Na Grand Place, o sábado serviu para montar uma Árvore de Natal gigante: bem no meio da praça. Um grupo de turistas passa e tira fotos. Três jovens que visitam a cidade viram a câmara do telefone de forma a que o enorme pinheiro apareça nas suas costas. Sorriem e disparam o flash.
Polícias e militares estão atentos. Na Grand Place e em todas as ruas paralelas e perpendiculares. Ao contrário de outras zonas da cidade, muitas lojas e cafés estão abertos. Muitas pessoas passeiam de um lado para o outro mas não se pode falar em multidão. Não se sentem as cotoveladas habituais das ruas cheias de sábado à tarde.

“Para um sábado está extremamente calmo. Há menos pessoas a passear. Faltam principalmente as famílias e também há menos turistas”, conta ao Expresso Giacomo Ricci. Este jovem, de origem italiana mas que viveu “toda a vida na Bélgica”, trabalha no “Gaufre de Bruxelles”. O café está a meio gás. No entanto, não há qualquer previsão de fechar portas por estes dias. A tranquilidade com que Giacomo dá entrevistas explica-se com a segurança que diz sentir com a presença das forças policiais e militares na rua du Marché aux Herbes.

Não muito longe, na Rue Neuve, o cenário é inédito para um sábado. Na rua pedonal – uma das mais importantes zonas comerciais de Bruxelas – o centro comercial está fechado, bem como todas as lojas de roupa, sapatarias, farmácias e afins. O encerramento coletivo aconteceu ao final da manhã, após as declarações do primeiro-ministro. Charles Michel não escondeu que a ameaça é “séria e eminente” e que há motivos – armas e explosivos foram encontrados – para se passar para alerta máximo.

“Os eventos atuais assustam-me um bocado”, confessa André Stas enquanto arruma a “pequena casa de madeira” onde deverá vender “poulet aux chicons et aux champignons” durante o Mercado de Natal. O evento deverá começa na próxima sexta-feira na baixa, em torno do edifício da Bolsa e estendendo-se até à praça de Saint-Catherine.

“Já vivemos um alerta “quatro” de ameaça terrorista em 2007, durante o Mercado de Natal. Mas apesar de tudo continuámos”, recorda. A expectativa é que este ano possam também manter a tradição desta época festiva e vender muito “frango com endívias e com cogumelos . No entanto, este fim-de-semana, todos os mercados de rua foram cancelados.

“O Organismo que faz a análise das ameaças está a fazer o seu trabalho e sabemos que o fazem de forma séria”, continua André Stas, reconhecendo que as perturbações atuais podem significar “grandes perdas económicas”. Tem, por isso, esperança que “a vida continue” e que belgas e estrangeiros venham provar as especialidades gastronómicas.

“Mas se houver mais militares do que clientes na rua, eles que venham provar os meus cogumelos”, diz, animado, André Stas. “Os militares belgas têm feito um bom trabalho no mundo inteiro. Também vão fazê-lo aqui”, conclui.