Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Uma pequena história a propósito de uma década

  • 333

MICHAEL DALDER / Reuters

Como muitas mulheres alemãs da sua geração, não tem filhos. Foi empregada de bar, entrou tarde na política - já depois dos 30. Kohl chamava-lhe a “minha menina”, mas a menina dele acabou por se distanciar. Foi criticada pela austeridade, é elogiada pela solidariedade - com os refugiados. Escreve-se que vai parar à ONU. Este domingo assinala-se 10 anos de Merkel - o tempo que leva à frente da chancelaria da Alemanha, conquista que pode prolongar-se por mais quatro anos. Contamos Merkel em 629 palavras - parece muito, mas é uma pequena história

Angela Dorothea Merkel, a mais velha de três filhos de um pastor luterano, nasceu em 1954 na Alemanha ocidental, em Hamburgo, mas cresceu em Templin na antiga República Democrática Alemã (RDA). Doutorou-se em Física e trabalhou no Instituto de Química da Academia de Ciências de Berlim até se iniciar na política em 1989. Durante os anos de estudante universitária trabalhou como empregada do bar de uma discoteca.

Angela Merkel, que disse uma vez que gostaria de ter sido professora, entrou para a política aos 35 anos, envolvendo-se com grupos pró-democracia durante as contestações que precederam a queda do muro de Berlim. Com o fim da Guerra Fria, junta-se ao partido de centro-direita União Democrata-Cristã (CDU), que ainda lidera, e em 1990, nas primeiras eleições gerais livres após a reunificação alemã, garante um lugar no parlamento alemão.

Apesar das dificuldades em afirmar-se enquanto mulher num partido conservador, Merkel consegue o seu primeiro ministério durante o mandato de Helmut Kohl, como ministra da Família, da Mulher e Juventude. Quatro anos mais tarde, torna-se ministra do Ambiente e da Segurança Nuclear.

Com a derrota de Kohl em 1998 e com um escândalo de corrupção que abalou fortemente o partido em 2000, Merkel tem a oportunidade de avançar para a liderança da CDU. A crise envolvia o antigo chanceler, Helmut Kohl, que, apesar de negar as acusações de corrupção, acabou por ser afastado da presidência da CDU. Angela Merkel, vista como uma protegida de Kohl, a "minha menina", como era por ele apelidada, distanciou-se do ex-chanceler durante o escândalo.

Nas eleições federais de 2002, Merkel cede a candidatura ao cargo de chanceler a Edmund Stoiber, da União Social Cristã (CSU), o partido-irmão no estado da Baviera, que acabou por não ser eleito. É no sufrágio de 2005 que Merkel derrota Gerhard Schroeder e chega à chancelaria. Com a falta de uma maioria, a líder acaba por se coligar ao partido rival, a fação Social-Democrata (SPD) de centro-esquerda, tornando-se a primeira mulher eleita chanceler na Alemanha.

Está em curso o terceiro mandato de Angela Merkel, que é vista pela sociedade alemã como confiante, reservada, pragmática e confiável, a que se junta a reputação internacional de líder firme, tendo sido eleita a personalidade do ano pela revista britânica Time em 2014 e considerada a mulher mais poderosa do mundo pela revista norte-americana Forbes em 2008.

A chanceler, que como muitas mulheres alemãs da sua geração não tem filhos, conta com vários momentos-chave que estabeleceram a sua liderança no país e na Europa, como a crise financeira da UE e a defesa da moeda única. A imposição de medidas de austeridade e reformas em países como a Grécia, Irlanda, Itália, Espanha e Portugal trouxe-lhe muito apoio dos contribuintes alemães, tornando-a num símbolo de autoridade e supervisão fiscal e económica na Europa.

A mudança súbita da política energética em 2011 também marcou o percurso da chanceler, que mandou encerrar oito centrais nucleares na Alemanha logo após o acidente nuclear em Fukushima, levando o país a apostar fortemente nas energias renováveis. A decisão mostrou uma mudança drástica de direção de Merkel, que até então defendia o investimento na energia nuclear.

A recente crise dos refugiados na Europa é o novo desafio da líder alemã, que vê a sua popularidade decrescer na opinião pública, enfrentando oposição dentro do seu próprio partido. Ainda assim, Angela Merkel tem merecido os aplausos da comunidade internacional pela forma como tem lidado com a crise humanitária.

Perante a falta de candidatos à sua sucessão, Angela Merkel pode voltar a entrar na corrida à chancelaria em 2017, mas existem rumores de que pretende renunciar antes do final do mandato, podendo seguir-se um cargo de secretária-geral das Nações Unidas. Merkel não confirma qualquer especulação e, colocando as mãos em forma de diamante, mantém-se silenciosa e prudente.