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Medo e coragem: os dias que mexeram com o nosso modo de vida

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“Não tenhamos medo”: uma mensagem valente nas paredes de Paris

CHARLES PLATIAU

É a partir desta observação que arrancamos: “Nas sociedades ocidentais não costumamos associar os momentos de lazer - ir a uma esplanada, a um concerto, a um jogo de futebol - ao risco”. Paris transformou-nos e transformou esta percepção. Reflexão sobre uma semana que nos mudou: abriu com medo na sexta 13 e tem prosseguido com coragem - “não tenhamos medo”, lê-se num mural na capital francesa

Quando os irmãos Kouachi entraram a 7 de janeiro na redação do Charlie Hebdo, vestidos de negro e armados com kalashnikovs, matando jornalistas e funcionários da publicação satírica, o mundo discutiu a liberdade de expressão. O autodenominado Estado Islâmico (Daesh) queria matar essa liberdade, diziam uns. A liberdade de expressão tem limites, defendiam outros. Esta não pode ser derrubada, argumentavam ainda alguns. Dez meses depois e após os seis atentados em várias zonas da capital francesa ocorridos há uma semana, já não é de liberdade que se fala (ou pelo menos não é este o foco central das discussões dentro e fora de França). Agora fala-se de segurança - “não há liberdade sem segurança”, proclamaram esta semana vários líderes políticos franceses. E fala-se sobre o nosso modo de vida, atacado simbolicamente pelos terroristas - visaram restaurantes, concertos, jogos de futebol; atingiram a cultura, o desporto, o prazer de uma refeição. O alvo foi claro: a nossa forma de viver, aprender e conviver.

Há um medo latente - no discurso público ou no silêncio individual. O medo de sermos nós os próximos num restaurante, num concerto, num jogo de futebol. Numa cidade. Numa rua. E com o medo veio a coragem (mas já lá vamos). “Os atentados ao Charlie Hebdo foram resultado de um terrorismo seletivo”, diz João Rucha Pereira, consultor de segurança e membro do conselho consultivo do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo. “Os terroristas tinham alvos específicos, levavam uma lista de pessoas específicas a atingir. [Os atentados de há uma semana] foram ataques indiscriminados, contra pessoas absolutamente aleatórias.” Mais: “Este é um ataque ao nosso modo de vida”. Mas será que tem a capacidade de mudar a nossa forma de viver?

Uma imagem simbólica: esplanadas de um restaurante em Paris vazias uma semana depois dos atentados. Parte dos ataques visou precisamente espaços deste género, na altura repletos

Uma imagem simbólica: esplanadas de um restaurante em Paris vazias uma semana depois dos atentados. Parte dos ataques visou precisamente espaços deste género, na altura repletos

ERIC GAILLARD / Reuters

Olhando para França, não é difícil de adivinhar as alterações no dia-a-dia dos residentes do país: grandes eventos foram cancelados (o Festival das Luzes, em Lyon, foi um deles), a segurança foi reforçada (o que implica que as pessoas possam ser revistadas em pontos de maior concentração de multidões, como metros e estações de comboio) e, regra geral, os ajuntamentos de pessoas são proibidos na cidade. E o país entra num período de pelo menos três meses em que estará em estado de emergência - facto já aprovado no Parlamento.

“As pessoas sentem-se ameaçadas, inseguras, há pessoas que não sentem segurança a sair de casa, outras que não querem deslocar-se a espetáculos ou eventos que juntem multidões, outras que não querem viajar para determinados países”, afirma João Rucha Pereira. E esta é uma realidade que extravasa as próprias fronteiras de França. O jogo de futebol em Hanôver entre a Alemanha e a Holanda foi cancelado e o estádio evacuado por razões de segurança, na sequência de ter sido encontrado um objeto suspeito. Em Portugal, sabe-se que locais como a Torre de Belém, CCB e Mosteiro dos Jerónimos irão ter segurança reforçada.

“Ainda esta semana uma senhora que conheço me perguntou se deveria cancelar a viagem que tinha para a Alemanha, com receio que lá houvesse um ataque”, acrescenta Rucha Pereira. “E várias pessoas da comunidade francesa em Portugal, com as quais jantei, adiaram os seus compromissos com receio de viajar para França.” Vidas em suspenso?

Álvaro Covões, fundador da Everything is New (que organiza o festival Alive, entre outros eventos), considera que não. “Não podemos deixar de viver o nosso dia a dia, de ir aos sítios que frequentávamos antes... Senão a vida não continua.” Os festivais deverão, por isso, manter-se, da mesma forma que eventos como o Euro 2016 deverão realizar-se, como foi esta semana declarado pelo ministro francês do Desporto, Patrick Kanner: “O Euro 2016 será realizado com as condições de segurança máxima, reforçadas depois dos acontecimentos recentes”. É um primeiro triunfo sobre o terror.

Sobre este assunto - o da segurança - Álvaro Covões não se pronuncia naquilo que diz respeito aos eventos que a Everything is New organiza. “Nós nunca discutimos segurança na praça pública. O nível de segurança é determinado pelas autoridades portuguesas e europeias - as autoridades determinam e as entidades que organizam os eventos aplicam.” Já João Rucha Pereira explica: “Neste momento, a posição que se assume em relação a isso é não desmarcar [os eventos previstos]”. Ao desmarcá-los, “estaremos a fazer exatamente o que eles querem: a alterar o nosso modo de vida”. É a coragem de continuar a viver como sempre.

RAMINDER PAL SINGH / EPA

Independentemente das alterações concretas e reais que os atentados em Paris possam ou não provocar, uma coisa é certa: “Este tipo de ataques faz com que a perceção de risco que temos da nossa vida fique alterada”, evidencia o psicólogo social Rui Pedro Ângelo, da Autoridade Nacional de Proteção Civil, especializado em stresse e bem-estar em contexto adversos. “Nas sociedades ocidentais não costumamos associar os momentos de lazer - ir a uma esplanada, a um concerto, a um jogo de futebol - ao risco.” Ao contrário do que, por exemplo, vemos em países como o Iraque e a Síria. “O facto de este tipo de atentados ter ocorrido aqui, na Europa, faz aumentar a nossa perceção de risco, em situações que antes considerávamos de grande segurança.”

Na base de acontecimentos como este há um vírus que alastra por pessoas, países, culturas comuns: o medo. Mas este provoca reações consoante aqueles que os sentem: “Pode pôr em causa a maneira como vemos o mundo ou pode provocar alterações concretas no dia-a-dia, levando-nos a deixar de ir a determinados locais ou eventos, realizar determinadas viagens, etc.” Por vezes, mesmo as pessoas que não deixam de viver o seu dia a dia, “continuam a fazer o que faziam antes, mas com um grau de ansiedade muito superior.”

Rui Pedro Ângelo dá o exemplo da ameaça de bomba que esta quinta-feira alarmou os alunos, professores e funcionários do Liceu Francês - bem como as autoridades. Tudo não passou de um falso alarme, mas autoridades e cidadãos estavam mais alerta. “Há uma semana ninguém teria prestado importância a isso. Depois dos atentados em Paris, esse incidente foi sobrevalorizado.” Será sempre assim? À medida que o tempo passa, “o medo vai-se desvanecendo. A grande questão é o facto de nós termos 'gatilhos de memória', estímulos que fazem prolongar a sensação de medo.” Se, por exemplo, os telejornais “deixarem de centrar os primeiros 30 minutos no terrorismo, acabamos por não ser tão estimulados e o medo tende a desaparecer.”

Obama abriu o caminho logo na noite dos ataques. “Paris representa os valores intemporais do progresso humano. Aqueles que pensam que podem aterrorizar o povo francês ou os valores pelos quais este se bate estão errados.” Liberdade, igualdade, fraternidade. Coragem: “Não tenhamos medo”.

ETIENNE LAURENT / EPA