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A neta revolucionária do último MNE do Estado Novo

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O movimento feminista brasileiro tem um papel central na mobilização de rua contra Eduardo Cunha, o ultraconservador presidente do Congresso

CHRISTOPHE SIMON / GETTY IMAGES

A autora do slogan “Mulheres contra Cunha”, que trouxe para a rua milhares de mulheres em várias cidades do Brasil, chama-se Mariana Patrício Fernandes. Nasceu no Rio de Janeiro, tem 34 anos, e é neta de Rui Patrício, que chefiou a diplomacia portuguesa no Governo de Marcello Caetano

Mariana Patrício, 34 anos e mãe de um menino de três anos e meio, ficou indignada com a alteração à lei do aborto que Eduardo Cunha, presidente da Câmara de Deputados do Brasil, fez aprovar a 21 de outubro. No dia seguinte, a filha do homem que Dilma escolheu para coordenar a preparação do Mundial de Futebol de 2014, criou o evento “Mulheres contra Cunha” no Facebook.

Cunha, dois casamentos e quatro filhos, é um político conservador e um homem sem fama de apreciar mulheres que lutam pelos seus direitos. E é provável que ande a sofrer de insónia por ser um dos grandes responsáveis pelo fortalecimento do movimento feminista no Brasil, depois de a Câmara de Deputados (vulgo Congresso) ter aprovado a sua alteração legislativa à lei do aborto.

“Por causa deste Congresso altamente conservador a luta das mulheres está a viver um momento especial”, diz Mariana Patrício ao Expresso. O projeto de lei 5069/13 de Eduardo Cunha - conhecido por PL 5069/13 - quer alterar a Lei de Atendimento às Vítimas de Violência Sexual e põe em causa a toma da pílula do dia seguinte por mulheres que foram vítimas de violação.

Mariana Patrício com o filho na manifestação de 12 de novembro no Rio de Janeiro

Mariana Patrício com o filho na manifestação de 12 de novembro no Rio de Janeiro

Bel Junqueira

Uma violação a cada 11 minutos

O medo de ser vítima de “agressão sexual” atinge 66% da população. Só em 2014, foram violadas 47,6 mil pessoas no Brasil. “Ou seja, a cada 11 minutos, alguém foi violentado no país”, lê-se num artigo da edição de outubro da revista “Exame” brasileira, que divulga dados do 9º Anúario Brasileiro de Segurança Pública. A autora do texto alerta para o facto de este número dramático só levar “em conta os casos que foram registados em boletins de ocorrência”.

O estado de Roraima (a norte da Amazónia) “lidera o ranking com a maior taxa de estupros do país”: 55,5 casos por 100 mil habitantes. No entanto, em “números absolutos”, São Paulo bate todos os recordes; em 2014 há registo de “mais de 10 mil relatos de sexo sem consentimento”, ou seja “mais de um quinto de todos os registos do Brasil”.

A 22 de outubro de 2015, Mariana Patrício escreveu na sua página de Facebook: “Está na hora de formarmos o movimento Mulheres contra Cunha”. De seguida,criou o evento no Facebook e a 28 de outubro, milhares de mulheres ocuparam as ruas do Rio de Janeiro para protestarem contra Eduardo Cunha. O protesto repetiu-se em São Paulo e noutras cidades e vai continuar no Rio

A 22 de outubro de 2015, Mariana Patrício escreveu na sua página de Facebook: “Está na hora de formarmos o movimento Mulheres contra Cunha”. De seguida,criou o evento no Facebook e a 28 de outubro, milhares de mulheres ocuparam as ruas do Rio de Janeiro para protestarem contra Eduardo Cunha. O protesto repetiu-se em São Paulo e noutras cidades e vai continuar no Rio

Captura de écrã

A onda de protestos e os movimentos “Mulheres contra Cunha”, “Fora Cunha” e outros que utilizam o nome do político evangélico, só demonstram que “o sistema político do Brasil está todo em cheque”, explica Mariana. E é por esta razão, mas não só, que o evento “Mulheres contra Cunha” teve 27 mil gostos entre 22 e 28 de outubro, dia em que milhares de mulheres encheram as ruas do Rio de Janeiro.

Para além dos gostos conseguidos em seis dias, “Mulheres contra Cunha” teve réplicas na rede social; por todo o Brasil, nas escolas, nos bairros e nas empresas, surgiram outros grupos de “Mulheres contra Cunha” que querem que o Senado inviabilize a alteração legislativa da Câmara de Deputados. Se o Senado deixar passar, a Presidente pode vetar.

Manifestação de mulheres no Rio de Janeiro

Manifestação de mulheres no Rio de Janeiro

CHRISTOPHE SIMON / GETTY IMAGES

Quinta-feira, 12 de novembro, houve uma segunda manifestação no Rio de Janeiro; para além das “Mulheres contra Cunha” estiverem presentes outras organizações femininas e cidadãos que defendem o “Fora Cunha” por alegadas suspeitas de corrupção. Sexta, 13, dia dos trágicos acontecimentos de Paris, as ruas de São Paulo encheram-se de mulheres em protesto contra a alteração legislativa aprovada a 21 de outubro pelo Congresso brasileiro.

O avô português de Mariana

À sua maneira, a feminista brasileira Mariana Patrício é ‘filha’ do 25 de Abril de 1974. Depois da Revolução, o avô Rui - último ministro dos Negócios Estrangeiros da ditadura - escolheu o Brasil como país de exílio.... e é no Rio que continua a viver aos 83 anos.

Aluno brilhante da Faculdade de Direito de Lisboa, Rui Manuel de Medeiros d' Espiney Patrício, foi subsecretário de Estado do Fomento Ultramarino de Oliveira Salazar, que o nomeou para o cargo em 1965.

Rui Patrício, avô materno de Mariana, quando era ministro dos Negócios Estrangeiros do Governo de Marcello Caetano

Rui Patrício, avô materno de Mariana, quando era ministro dos Negócios Estrangeiros do Governo de Marcello Caetano

ARQUIVO A CAPITAL

Em 1970, o então chefe do Governo Marcello Caetano, indigitou o avô materno de Mariana para o cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros da ditadura; Caetano, que fora professor de Rui Patrício na Faculdade de Direito, confiou-lhe a quase impossível tarefa de defender a política colonial portuguesa perante a comunidade internacional.

Com o 25 de Abril de 1974, os dois homens que partilhavam o dia de aniversário natalício (embora Caetano tivesse mais 26 anos), escolheram o Brasil como país de exílio.

“Eu rio porque tenho medo”

Mariana é trineta do poeta, escritor e diplomata António Patrício, autor do poema “De que me rio eu?”. Num dos versos desse poema, António Patrício, que morreu em Macau três meses depois de ter sido nomeado embaixador de Portugal em Pequim - a 4 de junho de 1930 - escreveu: “Eu rio porque tenho medo”.

Fortemente influenciado pelo Simbolismo, licenciou-se em Medicina pela Universidade do Porto, mas nunca exerceu. “Oceano”, o seu primeiro livro, foi publicado em 1905. Foi colaborador das revistas “Águia” e “Contemporânea”.

Estão disponíveis em edição digital alguns títulos do trisavô de Mariana, cujo filho se chama António em homenagem a este poeta e diplomata.

O poeta e diplomata António Patrício, trisavô de Mariana, morreu em Macau com 52 anos

O poeta e diplomata António Patrício, trisavô de Mariana, morreu em Macau com 52 anos

DR

A importância de Cunha

No Brasil, a legislação em vigor só autoriza a interrupção da gravidez em caso de risco de vida da mãe, anencefalia do feto, e violação. Se o projeto de lei de Eduardo Cunha for em frente, as mulheres que ficarem grávidas na sequência de sexo não consentido, são obrigadas a prosseguir com a gravidez. A alternativa é o aborto ilegal, em condições que põe em risco a própria vida das mulheres.

“O Congresso tem 513 deputados eleitos por 26 estados a que se junta o Distrito Federal [Brasília]”, explicou ao Expresso a politóloga e ativista do Movimento Feminista Debora Thome. O problema, é que Cunha, eleito pelo PMDB pelo estado do Rio de Janeiro, “tem uma rede de contactos” que lhe permite mobilizar cerca de 100 deputados. No Brasil, até se ironiza que Cunha tem bancada própria....

Mais do que isso, Cunha, na qualidade de presidente do Congresso, tem o controlo sobre a abertura do processo de impeachment da Presidente Dilma, o que lhe dá poder de pressão sobre o PT no poder, e o PSDB que é o maior partido da oposição.

Eduardo Cunha, presidente da Câmara de Deputados do Brasil, suspeito de alegada corrupção, é o grande responsável pela alteração legislativa que inviabiliza a toma da pílula do dia seguinte em caso de violação

Eduardo Cunha, presidente da Câmara de Deputados do Brasil, suspeito de alegada corrupção, é o grande responsável pela alteração legislativa que inviabiliza a toma da pílula do dia seguinte em caso de violação

© UESLEI MARCELINO / REUTERS

A primavera das mulheres

“No caso dos protestos contra Cunha, foi fundamental o apoio de grupos de Mães que participaram nos protestos contra o PL 5069”, diz a politóloga Debora Thomé. Uma dessas mães é a fotógrafa Bel Junqueira - autora da foto de Mariana Patrício que está neste texto.

Bel tem 29 anos e um filho de três, e é uma das mulheres que fundou o grupo “Mães e Crias Contra Cunha”, que esteve presente nas duas manifestações que se realizaram no Rio de Janeiro.

O “Movimento Feminista no Brasil está a crescer”, diz a politólga Debora Thomé: “A campanha ‘Primeiro Assédio’ consciencializou muitas mulheres; há uma nova geração que integra um movimento anticonservador, ligado ao corpo, que reage às ideias de Cunha sobre [interrupção da gravidez e] a família; para ele família é só homem e mulher e filho... não há lugar para mais nenhuma forma de família”.

No início de novembro, as revistas “Época” e “Isto É” fizeram capa com a luta das mulheres brasileiras

No início de novembro, as revistas “Época” e “Isto É” fizeram capa com a luta das mulheres brasileiras

DR

Na edição da última semana, a “Época“ - segunda revista com maior tiragem do Brasil - fez capa com a Primavera das Mulheres. A “Isto É” também deu capa a este novo fôlego do movimento feminista, que coloca o centro do debate no direito ao próprio ao corpo, que inclui o direito de decidir sobre a continuação de uma gravidez e o direito de não ser objeto de assédio.

Em 2012, o jornal “O Globo” fez este título: “Luís Fernandes, ligado a Dilma, é novo xerife da Copa de 2014”. A autora deste texto nunca misturaria o mundial de futebol com a primavera das mulheres brasileiras, se Luís Fernandes, amigo e homem de confiança do ex-ministro do Desporto e depois da Ciência e Tecnologia Aldo Rebelo, não fosse o pai de Mariana Patrício Fernandes.

No próximo Dia Internacional de Luta contra a Violência sobre a Mulher, 25 de novembro, a neta feminista e revolucionária do último ministro dos Negócios Estrangeiros da ditadura portuguesa vai voltar a marchar nas ruas do Rio de Janeiro para defender os direitos das mulheres do país onde nasceu.