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Os dois irmãos de Massamá que trocaram o futebol e o breakdance pelo terror

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Nos anos 90 dominavam as ruas de Massamá a dançar breakdance ou a jogar futebol. Agora, fazem parte da propaganda extremista do Daesh e são peças influentes no tabuleiro do terrorismo

Na Síria são conhecidos pelo seu nome de guerra, Abu Zacarias Andalus e Abu Issa Al-Andalus, peças "influentes" na hierarquia da organização terrorista do Estado Islâmico.

Nos anos 90, porém, tudo era muito diferente. Os dois irmãos de Massamá eram os reis do breakdace na linha de Sintra. "Levavam aquilo muito a sério", conta um amigo a morar atualmente em Londres.

A dedicação ao breakdance levou-os até aos palcos em concursos de dança no Instituto Português da Juventude, em Lisboa e no mesmo centro comercial de Massamá onde se reuniam depois da escola. Na dança tinham os nomes de guerra de Crevitaz e Krebaz (ou Krebastone).

Formaram um grupo de dança, os Elite, e não lhes faltava ambição de se tornarem estrelas da música. Quase conseguiram. No início de 2000, os Elite chegaram a ser convidados e a participar num programa nacional de televisão. "Arrasaram", conta outro amigo da linha de Sintra.

Os dançarinos de Massamá voltaram a dar nas vistas, quinze anos depois daquele momento de glória em frente às câmaras. Abu Issa apareceu num vídeo do YouTube, de cara tapada e AK-47 nas mãos, a apelar à Jihad na Síria, em abril em 2014. Abu Zacarias é um dos guerrilheiros ocidentais mais influentes do autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) e está sob vigilância intensa das secretas ocidentais. Nunca revelou o rosto nas redes sociais.

O breakdance foi uma obsessão na juventude. Mas não a única. Os dois tinham também jeito para o futebol e jogaram no Atlético do Cacém. Um dirigente do clube recorda-se da passagem deles pelas camadas jovens. "Eram bons mas havia outro irmão que era o melhor dos três. Chegou a jogar em clubes da I e II Ligas." Foi esse irmão que os acolheu em Londres quando emigraram para Leyton, bairro da zona leste da capital britânica.

Abu Zacarias saiu de Massamá há uma década e pouco tempo depois Abu Issa seguiu-lhe os passos. No verão, voltavam a casa para visitar os pais e os amigos.

"Quando os voltei a ver, em 2009, só falavam de religião. Já vinham mudados, pareciam outras pessoas", recorda um amigo de Sintra.

Abu Zacarias comunica com frequência com extremistas islâmicos que estão fora do califado. O Expresso sabe que o português tem recebido informações sobre alvos estratégicos considerados frágeis em vários pontos do globo. É um dos cérebros dos radicais, um estratego.

Ganhou experiência militar em África, onde se juntou a uma milícia do grupo radical Al-Shabaab na Somália e na Tanzânia. Uma das poucas fotos que partilhou no Facebook confirma a sua passagem por este continente entre 2011 e 2013. Na mesma altura, coordenava a rede de recrutamento que começava em Leyton, passava pela casa de recuo onde escondeu jiadistas ingleses e acabava no aeroporto internacional de Istambul.

Dias depois de o nome de Abu Zacarias ser revelado ao Expresso, no final de março de 2014, o outro irmão no Estado Islâmico, Abu Issa Al-Andalus, surgiu no YouTube a apelar aos muçulmanos de todo o mundo para se alistarem no exército fundamentalista que combate o regime sírio. Ainda hoje os amigos de Massamá se arrepiam quando veem o vídeo.

"É chocante assistir à sua transformação. Era um rapaz porreiro, que fazia rir a malta com as suas piadas e maluquices e só queria rolar o seu break", lembra o amigo de Sintra.

Abu Issa Al-Andalus, integra um pequeno grupo de mujahedin estrangeiros, de que também faz parte Fábio Poças, outro dos portugueses da célula de Leyton. Terá viajado para a Síria acompanhado da noiva, uma muçulmana de origem asiática e passaporte britânico. Surgiu no último verão em três fotos abraçado a Fábio e ao rapper alemão Deso Dogg, homem forte da propaganda do EI.

Um ex-colega de escola mostra-se igualmente perplexo com a mudança radical na vida do alegre Krebaz: "Sinto muito por ele ter escolhido um caminho tão negro." Em 2008, assistiu de perto ao processo de conversão, mas não de radicalização. "De início, julguei que fosse mais uma das muitas brincadeiras dele. Depois ainda achei que a conversão o pudesse ajudar a encontrar o caminho certo. Iludi-me." Alguns amigos da antiga crew de Massamá foram já interrogados pelas autoridades portuguesas e do Reino Unido, que têm trabalhado em conjunto para perceberem o papel dos irmãos e dos seus colegas de Leyton na guerra santa.

Três anos depois do primeiro alerta do MI5, os dois irmãos e o amigo Nero Saraiva continuam a ser os principais jiadistas portugueses sob vigilância internacional.