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Perdoa-me, Précilia, sou uma besta

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Precília Correia, 35 anos, morreu quando assistia ao concerto da banda Eagles of Death Metal, em Paris

D.R.

Precília Correia foi a segunda vítima portuguesa dos ataques em Paris. Era apaixonada por Portugal e por Lisboa, sonhava vir para cá viver. Trocámos mensagens nove horas antes do ataque ao Bataclan. “Estás muito queixinhas”, foi a última coisa que lhe disse

“Estás muito queixinhas”. Foi a última coisa que te disse. Duas horas antes tinhas comentado uma foto que eu colocara no Facebook. Tirei-a na Torre Eiffel, em março, e decidira voltar a colocá-la agora que estava de regresso à cidade. “Com tantas visitas a Paris...”, limitaste-te a escrever. Presumi que, como noutras ocasiões, te queixavas por eu estar ali de novo e, uma vez mais, não ter encontrado tempo para nos encontrarmos. “Estás muito queixinhas”, foi tudo o que te respondi, passava pouco do meio-dia da passada sexta-feira. Essa frase não me sai da cabeça. Perdoa-me, Précilia, sou uma besta.

Foi – será – a última vez que falámos. Nessa noite, foste com o Manu ao concerto dos Eagles of Death Metal, um amigo tinha-vos arranjado os bilhetes. O resto já todo o mundo sabe: terroristas tomaram de assalto a sala de concertos, abriram fogo sobre a multidão. Não dá para imaginar o terror, mas conhece-se o resultado: 80 mortos, uma carnificina. Não os perdoes, Précilia, porque o que fizeram não tem perdão.

Naqueles momentos de pânico em Paris, quando a Leonor desesperava para saber se tinha algum amigo no Bataclan (felizmente não tinha), onde ela devia ter ido ao concerto, nunca pensei que fosse eu quem teria alguém naquela sala. Mesmo estando ali no centro de Paris, bem perto de tudo, nunca pensamos que nos pode calhar a nós.

Só soube da notícia da tua morte na tarde deste domingo. Parece incrível, mas eu, que sou jornalista e que te conheço há uns anos, fui o último a saber. No sábado, mal cheguei a Portugal, refugiei-me com amigos no Alentejo. Desliguei das notícias, desliguei do mundo, fui andar de balão pela primeira vez. É uma sensação de liberdade incrível quando estamos lá em cima, a olhar a planície do Alentejo. Não há terrorista que nos possa roubar isso. Mas depois aterramos na dura realidade.

Estávamos em Évora, à procura de um restaurante para almoçar, quando abri o Facebook no telemóvel. A primeira coisa que apareceu foi uma notícia sobre os três portugueses mortos durante os ataques em Paris (o Governo nega para já a terceira morte). Tinha a tua fotografia.

Ao início, o cérebro recusa-se a aceitar: pensei que eras tu que estavas a partilhar a notícia, queria tanto que fosse assim. Qual a probabilidade de, entre a multidão de portugueses em Paris, seres tu uma das vítimas? Cliquei no artigo e o teu nome estava logo ali, na entrada do artigo. Não consegui ler mais. Com um aperto no coração, fui rever a nossa última conversa, entrei na tua cronologia. Estava repleta de mensagens de amigos e de familiares teus. Já não tinha dúvidas. Eras mesmo tu.

Tinha ido para o Alentejo esquecer Paris, mas sou um tonto: uma ferida destas não sara assim. Por mais que fujamos, a realidade encontra sempre forma de nos encontrar. E de nos atropelar com estrondo.

Já não volto no fim de semana a Paris, o evento a que ia foi adiado. Mas quando regressar adorava jantar contigo. Pode ser sushi, como tantas vezes insististe. Já me tornei fã.

Perdoa-me, Précilia, sou mesmo uma besta.

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