Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Rushdie, Bombaim, Paris e nós

  • 333

A Praça da República, em Paris, encheu-se de velas e flores em homenagem às vítimas dos araque terroristas de 13 de novembro em Paris

JULIEN WARNAND / EPA

Quando olhámos para os brutais atentados de Paris, vimos uma linha direta vinda do 11 de setembro, de Atocha em 2004, do metro de Londres em 2005. Mas a linha era outra, a que mais assustava os serviços secretos ocidentais: um atentado no estilo de Bombaim, em 2008. A análise de Ricardo Costa, diretor do Expresso

Ricardo Costa

Ricardo Costa

Diretor de Informação da SIC

No dia 14 de fevereiro de 1989, o escritor Salman Rushdie soube por um telefonema da BBC que tinha sido condenado à morte pelo Ayatollah Khomeini. Por uma bizarra coincidência, nesse dia dos namorados, era o funeral de um grande amigo de Rushdie, o escritor Bruce Chatwin. Apesar do medo de sair à rua, decidiu ir na mesma.

Quando chegou à catedral ortodoxa, Rushdie sentou-se ao lado de Martín Amis. Na fila de trás estava Paul Theroux, um dos maiores escritores de viagens contemporâneos. A dado momento, Theroux diz o seguinte: "Creio bem que para a semana vamos estar aqui por ti, Salman".

Aquelas foram as últimas horas de Rushdie antes de passar à clandestinidade, protegido pelos serviços secretos ingleses, com o seu novo nome: Joseph Anton. Nesse dia o escritor perdeu o nome e roubou a nova identidade a dois autores de sempre, o Joseph a Conrad e o Anton a Tcheckov. Teve de viver escondido, anos a fio, com medo de morrer às mãos de alguém que quisesse cumprir a fatwa lançada pelo fanático regime iraniano.

Salman Rushdie sobreviveu e conseguiu continuar a escrever até sair da clandestinidade e recuperar o seu nome. Mas houve ataques contra tradutores e editores dos Versículos Satânicos, o livro atirado para a fogueira por fanáticos em todo o mundo.

A fatwa decretada contra Rushdie marcou uma nova era. A da perseguição ad hominem e sem tréguas a alguém que ousava escrever uma obra de ficção em que Maomé tinha lugar de destaque e nem sempre era favorecido. Essa condenação em nome de Deus nunca mais nos largou, dos cartoons de Maomé ao Charlie Hebdo.

Rushdie foi o primeiro desta nova era, o último está por vir. Aliás, estará sempre por vir. O tempo passou e o Irão xiita é hoje mais tolerante, depois da morte de Khomeini. Mas o fanatismo e a intolerância foram abarcados por outros de forma implacável. Os países mais ricos do Golfo Pérsico - com que o Ocidente se dá bem, a quem vende armas e compra petróleo em quantidade -, como a Arábia Saudita e o Qatar, são hoje exportadores de dinheiro para as escolas mais fundamentalistas do Islão em todos os países muçulmanos.

Quando ficámos em choque com o brutal ataque à redação do Charlie Hebdo, o que estávamos a ver era uma linha direta traçada desde a fatwa lançada sobre Salman Rushdie em 1989. O Irão xiita deu lugar a fanáticos sunitas, mas a linha era a mesma.

Na sexta, quando olhámos para os brutais atentados de Paris, vimos uma linha direta vinda do 11 de setembro, de Atocha em 2004, do metro de Londres em 2005. Mas a linha que ali estava era outra, a que mais assustava os serviços secretos ocidentais: um atentado feito no estilo de Bombaim, em 2008.

Um atentado demasiado longe

A lista que começa no 11 de setembro é longa. Esses três mil mortos em território americano deram lugar a uma discoteca em Bali (200 mortos), a um teatro de Moscovo (150), Casablanca (40), Madrid (191), Beslan (300), Londres (52) e finalmente Bombaim, ou Mumbai, com 140 mortos em hotéis da mega cidade indiana.

O que distinguiu Bombaim de todos os outros não foi o grau de destruição ou a sofisticação do atentado. Foi uma coisa bem diferente, foi um estilo completamente novo de terrorismo. O que o Lashkar-e-taiba (ou Exército de Deus) fez em Bombaim foi uma coisa nunca antes vista: pequenos grupos armados com armas automáticas e granadas em diversos pontos da mesma cidade prontos a matar o maior número de pessoas. Não escolheram um alvo simbólico, não precisaram de grande preparação nem coordenação, não tinham explosivos sofisticados e não precisaram de muito tempo ou dinheiro para se organizar.

Na altura, talvez por ser demasiado longe do Ocidente, os atentados de Bombaim tiveram muito menos repercussão na Europa e no EUA do que o que tinha acontecido em Madrid ou Londres. Apesar dos fanáticos muçulmanos, sediados no Paquistão, terem tomado de assalto hotéis de luxo de Bombaim onde estavam muitos turistas, a história foi rapidamente esquecida, como mais um episódio dramático entre a Índia e o vizinho Paquistão.

Que uns terroristas loucos quisessem desanexar Caxemira da Índia e criar um Estado Islâmico (isso mesmo) na Ásia era uma coisa lá longe. Que os terroristas tivessem tido treino em solo paquistanês era uma bizarria própria de um Estado que sempre deu vida fácil a jiadistas. Mas os especialistas em segurança e terrorismo e os serviços secretos ocidentais perceberam a diferença. Desde essa altura que o que mais temiam era um atentado no "estilo Bombaim". Aconteceu sexta-feira em Paris.

Ancara, Sinai, Beirute, Paris

Ao contrário do que o noticiário corrente dá a atender, os serviços secretos ocidentais e as forças de segurança conseguem abortar e interceptar muito mais atentados e terroristas do que imaginamos. Quando agora se olha para a longa lista de pequenos e médios incidentes Europa fora, vemos que a França estava em alerta há meses a fio e que as prisões europeias têm uma enorme quantidade de terroristas potenciais presos.

Os sistemas de vigilância conseguem, paradoxalmente, descobrir antecipadamente a maior parte dos atentados sofisticados. Nestes anos, o maior problema têm sido os "lobos solitários", quase impossíveis de detetar, como o que atacou no museu judaico em Bruxelas, o que se barricou num café em Sidney ou tentou fazer um massacre num TGV.

Os últimos anos estão cheios de lobos solitários. Em Londres houve um que degolou um soldado em plena rua, em França as ocorrências são muito mais, na Dinamarca ou na Alemanha idem. Na Bélgica, o caso é ainda mais sério: não só é o país que proporcionalmente tem mais nacionais alistados no Daesh como tem forças policiais totalmente descoordenadas.

Quando os atentados de Paris começaram a ser ligados à Bélgica, isso não surpreendeu os especialistas em segurança. Há muito tempo que a DGSI francesa ou o Mi5 britânico se queixam da baixa qualidade dos serviços anti-terroristas belgas. A zona de Bruxelas tem seis forças policiais diferentes que quase não comunicam entre si...

Apesar dos muitos pequenos incidentes e de alguns atentados graves, o Ocidente parecia preparado para a maior parte das ocorrências. Afinal, Madrid, o mais mortífero dos atentados, foi em 2004. Há mais de 11 anos... Paris muda tudo, claro. Muda pela brutalidade, pelo número, pelo estilo Bombaim e, por último, por ser a confirmação absoluta de que o Daesh decidiu atacar fora do seu "território".

Em pouco tempo tivemos atentados do Daesh em Ancara, no Sinai, em Beirute e em Paris. Todos brutais no número de mortos e todos a traçar novas linhas: primeiro na Turquia, onde estão mais de 2 milhões de refugiados sírios, depois um avião russo, a seguir uma bomba no Líbano onde estão as bases do Hezbollah xiita. Por último, França, o país que tem 5 milhões de muçulmanos, que mais fanáticos exportou para o Daesh e que mais combate o islamismo radical. Sozinha no Sahel, em coligação internacional no Iraque e na Síria.

Guerra, diplomacia e política

A guerra já tinha começado e agora vai acelerar. O Daesh é a primeira organização terrorista que se assemelha a um Estado. Tem território, organização, população, impostos, recursos. Só em venda de petróleo não refinado ganha milhões de dólares por dia. Mas ainda ganha nas refinarias e no contrabando de combustível. Beneficia de dois Estados falhados - Iraque e Síria - e da enorme confusão na região.

O xadrez de apoios e ódios é tão complexo que quase não existem alinhamentos simples, a não ser o de xiitas contra sunitas. E se isso explica que o Irão, o Hezbollah e Assad (de uma minoria xiita, os aluitas) estão de um lado, não explica mais nada, porque nos sunitas há de tudo um pouco.

Como acabar com o Estado Islâmico quando este tem tanta complacência e compreensão de vizinhos e ninguém quer por as botas no terreno (no boots on the ground, como disse Obama)? Os militares sabem que é muito raro ganhar-se uma guerra só com meios aéreos. Na Líbia, França e Inglaterra fizeram isso. Ajudaram a derrotar Khadafi, mas esqueceram-se do que acontecia depois: um Estado falhado, tribal, sem qualquer tipo de segurança para as populações locais e um passador de migrantes para a Europa.

A guerra vai acelerar, mas não nos podemos esquecer que o Daesh domina cidades onde vivem dezenas ou centenas de milhares de civis. Sem tropas em terra, isso é quase impossível. Para isso, a coligação internacional precisa de trabalhar com milícias locais. Mas aí vamos parar, uma vez mais, aos xiitas e aos sunitas.

Moscovo está alinhada há décadas com Teerão e com Assad. O Irão é o único país estrangeiro que tem tropas especiais em Damasco, a defender Assad. E mandou avançar o Hezbollah do Líbano, financiado e municiado por Teerão desde sempre. Assim, tanto a Rússia como o Irão só estão dispostos a conversar se Assad ficar no poder. Mas isso parece inaceitável para Paris, Londres ou Washington, que sempre apostaram na queda do tirano de Damasco e deram apoio aos insurgentes na sequência das primaveras árabes.

Alguém vai ter que ceder para acontecer alguma coisa. Neste momento, as populações dos países europeus serão mais favoráveis do que nunca a uma guerra. E isso vai pesar na balança política. Porque muitos governos europeus têm a extrema-direita e partidos nacionalistas à perna. Hollande, por exemplo, tem eleições regionais em dezembro e sabe que este é o clima perfeito para a Frente Nacional.

Com a economia enfraquecida e um enorme problema com os refugiados, a Europa tem agora um enorme desafio pela frente: combater o terrorismo em casa não chega, é preciso ir à origem. As leis de segurança nacional vão apertar e os direitos individuais diminuir. Se o Daesh continuar a exportar o seu terror isso é inevitável. Na próxima semana, a Grã-Bretanha já vai endurecer, e muito, as suas leis anti-terrorismo. França vai a caminho. Portugal não escapará a essa discussão, Schengen não deve durar muito e os muros e barreiras para refugiados vão ser a norma.

A ressaca deste atentado vai ser muito mais violenta que a do Charlie Hebdo. Essa era a tal linha que vinha direta de Rushdie. Esta é a que vem de Bombaim e lança o medo entre todos nós. E o medo sempre foi o maior dos combustíveis.

  • França bombardeia Estado Islâmico na Síria

    O Ministério da Defesa francês deu a conhecer este domingo ter iniciado um ataque a posições do autoproclamado Estado Islâmico, bombardeando diversos pontos centrais na cidade de Raqqa, na Síria. O ataque surge dois dias depois dos atentados terroristas em Paris

  • Estado Islâmico reivindica oficialmente atentados em Paris

    O Estado Islâmico emitiu um comunicado onde declara que “oito irmãos” seus levaram a cabo os atentados preparados “com antecedência” na capital francesa. Os terroristas justificam os ataques como vingança pelos bombardeamentos na Síria

  • França. O berço do jiadismo

    Dez meses depois dos ataques ao Charlie Hebdo, a Jihad volta a matar em Paris. Não é mero acaso. França é o país ocidental com maior número de jiadistas na Síria

  • O atentado mais mortífero dos últimos 10 anos na Europa

    É preciso recuar ao ataque na estação de Atocha, em Madrid, para encontrar um número de mortes mais elevado num atentado terrorista em solo europeu - 191. Os atentados em Londres, no ano seguinte, mataram 56 pessoas, mas deixaram mais de 700 feridas. Número de vítimas em Paris ainda pode aumentar

  • Confirmada morte de segunda vítima portuguesa

    Précilia Correia é a segunda vítima mortal, luso-descendente, dos ataques em Paris, reivindicados pelo autoproclamado Estado Islâmico (Daesh). Há ainda quatro portugueses feridos, alguns dos quais com dupla nacionalidade

  • Cimeira do G20 discute ameaça terrorista

    A agenda já estava definida antes dos acontecimentos desta sexta-feira em Paris. Relação entre a guerra na Síria, rotas de migrantes e refugiados e ameaça jiadista é um dos temas em destaque. “Não devemos misturar diferentes categorias de pessoas a chegar à Europa”, alerta o presidente da Comissão Europeia