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Reportagem. “O medo será a nossa morte”

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Milhares de pessoas juntaram-se em Trafalgar Square para uma vigília em memória das vítimas dos atentados em França

Rob Stothard/Getty

Londres é a sexta cidade francesa. Há em Londres quase 400 mil franceses e muitas dessas vozes fizeram-se ouvir em Trafalgar Square, a principal praça da capital britânica, numa vigília pelas vítimas dos atentados terroristas de 13 de novembro, que terá juntado perto de dois mil participantes.

Quando o sol se pôs, tal como um pouco por todo o mundo, as principais atracções turísticas de Londres iluminaram-se com as cores da bandeira francesa. Além das paredes da National Gallery, que fica no topo de Trafalgar Square, também as duas fontes que emolduram a praça choravam em vermelho e azul. Quem não falava francês falava com sotaque: ou para benefício dos amigos não-franceses ou em entrevista para as várias câmeras de televisão no local.

Apesar da gravidade dos atentados na capital francesa, e de um incidente na manhã de sábado no aeroporto de Gatwick onde um homem que está neste momento a ser interrogado se terá aproximado dos balcões de check-in da transportadora EasyJet com duas armas de fogo, as autoridades britânicas não reviram em alta o nível de probabilidade de um ataque terrorista. Está no "muito provável" e assim deve continuar. Pelos menos oficialmente. No entanto fontes da Scotland Yard confirmaram ao diário “Daily Telegraph” que membros das forças especiais do exército tinham sido destacados, "à paisana", para reforçar a segurança em vários pontos turísticos da capital, nos principais portos, estações de metro e comboio.

Ainda segundo a investigação do Telegraph, cerca de 450 dos 700 cidadãos britânicos que as autoridades acreditam possam ter viajado para o Médio Oriente para ingressar no EI terão já regressado ao Reino Unido e estarão a ser monitorados. Um número superior aos 300 indicados em notícias anteriores. Charles Farr, diretor do Centro de Segurança e Anti-Terrorismo, disse que muitos dos que não conseguiram ir combater para o Iraque ou para a Síria "são encorajados pelo EI a levar a cabo ataques no Reino Unido".

Alguns analistas sugerem que Londres corre especial perigo de retaliação por causa do até agora não confirmado assassinato de Mohammed Emwazi, conhecido por Jihadi John, que vivia na zona ocidental de Londres. Mesmo na iminência de um ataque, os responsáveis pela segurança do país optaram por deixar uma mensagem de tolerância. "Devemos continuar as nossas vidas. Não podemos deixar o terror ganhar. A base do sucesso da policia é a confiança da população no nosso trabalho e também a confiança entre as diferentes comunidades do nosso país", disse à BBC Mark Rowley, comissário da brigada anti-terrorista da Scotland Yard.

Hinos pelos que já não podem cantar

Muita gente abraçada, um cordão humano à volta das fontes, velas que mãos em concha vão tentando proteger da chuva. Casais enrolados em bandeiras ensopadas que são o agasalho possível depois de um dia que congelou a Europa. Uma Europa que também está aqui, nesta praça, em versão concentrada, e talvez por isso tão destemida.

"Sou parisiense e mudei-me para Londres apenas há dois meses. Sinto tudo como se estivesse lá. Estou aqui porque é a única forma de demonstrar solidariedade e gritar que não temos medo porque o medo é o vírus que o Estado Islâmico quer espalhar e será a morte da Europa" diz Alexandre Lavalee, de 22 anos que trabalha em Londres como empregado de mesa.

Consciente de que a extrema-direita em França não dará descanso à sua agenda anti-imigração, Alexandre reconhece que o medo pode reforçar o apoio a ideias radicais mas não terá o seu voto e, acredita o jovem, nem da maioria dos franceses: "Todas as pessoas com quem falei aqui e em casa reconhecem que estes ataques não são uma manifestação da fé Islâmica, não foram muçulmanos que mataram aquelas pessoas, nem sei se podemos dizer que são seres humanos com o mesmo coração que tu e eu", diz Alexandre.

De longe parece que as escadas em frente à National Gallery ganharam vida. Uma ondulação tímida começa a contagiar as centenas de pessoas que ocupam a escadaria e poucos segundos depois começa a ouvir-se Non, Je Ne Regrette Rien. Aos poucos e com tempos descoordenados, toda a praça canta o refrão da música imortalizada por Edith Piaf. Segue-se o hino nacional e muitos gritos isolados "Vive La France!". Palmas, um minuto de silêncio a cada quarto de hora e muitos olhares pregados nas inúmeras bandeiras que se agitam sob o céu nubloso de Londres.

"Cresci ao lado de onde tudo se passou, vivo a cinco minutos dali. Estou aqui para demonstrar solidariedade mas também para enviar uma mensagem de abertura, tolerância e diálogo. A nossa única arma são os valores que partilhamos, tanto com outros europeus como com muçulmanos que escolheram a Europa para viver e que estão tão chocados como eu com esta atrocidade", diz Charlotte Dupuis, de 21 anos, que trabalha numa loja de roupa e também só chegou a Londres há três meses.

"Por um lado sinto-me como se os estivesse traído, estando aqui", diz Zoe Duffrene, de 26 anos, que trabalha como designer gráfico em Paris mas nasceu em Londres e veio apenas visitar os pais que ainda vivem cá. "Entre feridos e mortos serão perto de 400 pessoas atingidas, o que faz com que quase toda a gente que eu conheço também conheça alguém que foi afectado. Eu mesma tenho amigos que estiveram a jantar naquela zona, e se eu estivesse em Paris, provavelmente também lá tinha estado", diz Zoe que segura um cartaz a dizer "estamos todos unidos".

Filha de mãe turca e pai francês, Zoe diz que tem "suficiente mistura de sangue para impossibilitar que algum dia venha a desenvolver qualquer tipo de racismo contra que cor seja" mas garante que nem toda a gente está a demostrar a mesma garra lutadora que ela viu em Janeiro, depois dos ataques ao jornal satírico Charlie Hebdo: "Em Janeiro, os parisienses estavam em modo de combate, parecia não existir horror capaz de derrubar o espírito da cidade mas desta vez já não é assim: o medo está a alastrar, o espírito das pessoas com quem falei parece ter quebrado um pouco, sob o peso de tal barbaridade. O medo é mais óbvio e é isso que vai mudar tudo", diz Zoe.

"É difícil lidar com um oponente com o Estado Islâmico. É uma luta desigual. Eles não só não tem medo de matar um homem como também não tem medo de morrer. Estão em outro patamar que maioria dos europeus que eu conheço e que me inspiram nunca vai conseguir atingir. E ainda bem. Só espero que nos consigamos manter sempre assim", acrescenta Zoe.