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Aperta-se o cerco político a François Hollande

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Thierry Chesnot / Getty Images

Perante os atentados de Paris, que o Presidente francês classificou de “ato de guerra”, Hollande enfrenta o maior desafio da sua vida política. Nicolas Sarkozy, líder da oposição, já fez críticas: quer repensar a “política migratória europeia” e dialogar com a Rússia para “recuperar” a Europa

Cátia Bruno

Cátia Bruno

Jornalista

François Hollande repetiu quatro vezes a expressão “ato de guerra” para classificar os atentados de Paris, no seu discurso na manhã de sábado. “Aquilo que defendemos é a nossa pátria, mas é bem mais do que isso. São os valores de humanidade. E a França assumirá as suas responsabilidades. Faço um apelo a essa união indispensável”, declarou o chefe de Estado francês na comunicação onde responsabilizou o autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) pelos ataques.

Hollande apelou à união, mas as brechas políticas não tardaram a surgir, com a ida de Nicolas Sarkozy, líder do maior partido da oposição, os Republicanos (ex-UMP), ao Eliseu na manhã deste domingo. Apesar de estar declarado o estado de emergência, o Presidente francês optou por não adiar a conferência do clima que se realizará em Paris no final deste mês, o que lhe valeu críticas de alguns membros dos Republicanos, como os deputados Éric Coitti e Philippe Goujon.

Contudo, Sarkozy não fez essa exigência no Eliseu, optando antes por direcionar as críticas para outro lado. Para além de propor medidas como a proibição de consultar sites de caráter jiadista, Sarkozy deixou claro que gostaria de ver uma política diferente em França e na Europa. Para Sarkozy, vive-se um “clima de guerra” e é necessário responder. “Disse a François Hollande que há necessidade de construir respostas adaptadas: uma inflexão da nossa política no estrangeiro e uma modificação drástica da nossa política de segurança a nível interno.”

À beira de eleições regionais em dezembro e com presidenciais no horizonte em 2017, os Republicanos endurecem o discurso, por certo temendo a sombra da Frente Nacional de extrema-direita de Marine Le Pen. “Quero que a Europa repense a sua política migratória. Não há uma ligação, mas o problema coloca-se”, declarou Sarkozy à saída do Eliseu.

O ex-Presidente aflorou ainda a questão da guerra na Síria, dizendo sobre esse tema que a França precisa de todos, “incluindo a Rússia, para a Europa recuperar”. Sarkozy tem feito referências à colaboração com a Rússia na Síria, como relembra este domingo “Le Monde”, que recupera declarações do líder dos Republicanos ao “Parisien” em setembro, onde propõe a criação de um “exército de libertação na Síria” e um maior diálogo com a Rússia de Putin.

Hollande dispensa poderes reforçados

O Presidente encontrar-se-á com os líderes dos restantes partidos nesta tarde de domingo, entre eles com Marine Le Pen, que voltou a falar na necessidade do "regresso das fronteiras" e no “rearmamento do país”. Propostas que, para já, Hollande pretende evitar a tudo o custo.

Mesmo dizendo que será “implacável contra os bárbaros do Daesh” e tendo cancelado a sua ida à reunião do G20 na Turquia, o Presidente não deverá acionar o artigo 16 da Constituição, que prevê plenos poderes para o chefe de Estado. “Não foi sequer mencionado”, declarou uma fonte do Eliseu ao jornal “Le Figaro”. “O estado de emergência é já uma medida muito forte, que cremos ser adequada.” Também o envio de tropas para a Síria está fora de questão, segundo garante o “Libération”.

Apesar de tudo, a situação é grave e Hollande optou por colocar em prática algo inédito: convocar o Congresso do Parlamento em Versalhes, que deverá acontecer na segunda-feira. A medida, que permitirá ao Presidente discursar perante os deputados e senadores, foi introduzida na revisão constitucional de 2008, mas nunca foi posta em prática. O que irá dizer o Presidente é ainda uma incógnita, mas Hollande sabe que tem de se preparar para a guerra. Contra o terrorismo, mas também contra os adversários políticos, que não deverão dar-lhe tréguas.