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Reportagem. No 11.º, o bairro mártir de Paris

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A larga avenida Richard Lenoir cruza-se com a Boulevard Voltaire, exatamente no sítio onde está instalada a sala de espetáculos Bataclan, no 11.º bairro de Paris

UWE ANSPACH/REUTERS

Morreu um dos mais belos bairros de Paris, eleito como bairro predileto dos terroristas. Na noite de sexta-feira, foram abatidas em meia hora mais de cem pessoas só no meu quarteirão

É neste bairro que vivo. É um bairro fantástico de transição entre o Paris algo snob do Chatelet e do Marais e os mais pobres de Nation e de Barbés, ou das estações de caminho de ferro do Norte e do Leste.

O 11.º bairro inclui quarteirões da Bastilha, da República e as ruas de Oberkampf e de la Roquette, os primeiros zonas históricas de lutas simbólicas da esquerda francesa, as segundas ruas agitadas e adequadas para noites de boémia de uma certa camada de parisienses simpáticos, sobretudo gente simples, artistas, artesãos, jornalistas.

O 11.º bairro inclui também o famoso cemitério de Père Lachaise, que é um dos mais belos e ilustres do mundo.

Desde janeiro do ano passado, com os atentados contra Charlie Hebdo, cuja sede estava aí instalada e, agora, com a nova série de monstruosos atentados, acrescentou algo bem mais triste à sua qualificação: transformou-se no bairro mártir de Paris.

Mais grave e mais triste do que isso: parece ter sido eleito como o bairro predileto dos terroristas. Na noite de sexta-feira, foram abatidas em meia hora mais de cem pessoas só no meu quarteirão. Vivo entre os metros Voltaire e Saint-Ambroise, a dois passos da rua de Charonne e a dois minutos a pé da larga avenida Richard Lenoir, que se cruza com a Boulevard Voltaire, exatamente no sítio onde está instalada a sala de espetáculos Bataclan.

Em Charonne morreram 18 pessoas e no Bataclan e num café ao lado cerca de 90. Vidas ceifadas às cegas por rajadas de automáticas disparadas por monstros. Em janeiro tinham morrido mais 12, também ao lado da Richard Lenoir, a maioria na redação de Charlie Hebdo.

Hoje, os meus vizinhos cumprimentam-me completamente atordoados. Eu próprio também estou um pouco como eles. Nem podia ser de outro modo. Durante a noite todos ouvimos tiros, constatámos cenas de pânico indescritível e alguns assistiram quase em direto aos massacres. Ninguém dormiu devido ao barulho das sirenes das ambulâncias, dos carros da polícia e da ansiedade que as notícias provocavam.

Nas ruas, praças e pracetas existe neste momento um semblante de vida. Os cafés e restaurantes estão abertos, nalgumas ruas circulam carros e vi dois vizinhos a passear os cães, como fazem habitualmente. A atmosfera é no entanto bem pesada, embora algumas pessoas bebam cafés em esplanadas e alguns até apostem nas corridas de cavalos, nos locais especializados. As pessoas esforçam-se por tentar produzir uma vida normal, talvez para exorcizar a morte e a barbárie.

Em princípio, o extenso mercado ao ar livre que neste domingo de manhã será montado na ampla Richard Lenoir, que é um dos mais belos mercados do mundo onde até se vende bacalhau, dezenas de jornais internacionais e se ouve jazz e música tradicional francesa ao vivo, será montado como habitualmente.

Mas nada mais será como dantes neste belo bairro tradicional de Paris, onde era tão bom viver. Na Praça da República, anónimos voltam a colocar flores, tal como há dez meses fizeram depois do massacre no Charlie Hebdo. Enquanto o fazem, alguns demosntram cólera, outros choram, muitos dizem que vão resistir, que não desistem de viver, outros que são solidários. A emoção, em certas pessoas, é tanta, que nem se percebe o que dizem.

Entretanto, junto aos locais dos atentados de há menos de 24 horas, a vida decorre friamente, tal como há dez meses: polícias, ruas fechadas, centenas de câmaras de televisão do mundo inteiro, centenas de repórteres que ainda não perceberam que este bairro morreu.